Construção de ferrovia em Palmeiras de Goiás está atrasada há 4 anos

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Obra em trecho de Goiás foi iniciada em 2011 e conclusão era prevista para 2014. Carro caiu em vala aberta e três pessoas morreram em acidente

Na madrugada de domingo (10), por volta das 4 horas, um Volkswagen Golf na cor verde, conduzido pelo mecânico Esron Manoel Pereira, de 30 anos, caiu em uma vala construída para ser um túnel da Ferrovia Norte-Sul sob a GO-156, entre Palmeiras de Goiás e Cezarina. O trecho da ferrovia, entre Ouro Verde, em Goiás, e Estrela D´Oeste, em São Paulo, foi iniciado em 2011 e a previsão inicial era que ficasse pronto até o final de 2014. Mas nem mesmo os trilhos chegaram perto do local, restando apenas um buraco de mais de 20 metros, a estrada recortada, um desvio sinalizado, mas sem iluminação e a possibilidade de acidentes.

Além de Esron, estavam no carro a namorada, Francielly Alcântara, de 28 anos, e o primo dele, Guilherme Santos, de 17 anos. Todos morreram na hora. Eles estavam em uma festa de som automotivo em uma chácara conhecida como Hotel do Gordo. Seria a abertura extraoficial das festividades de Cavalhadas de Palmeiras. Segundo outros participantes da festa, Esron tinha consumido bebidas alcoólicas na festa. As versões de amigos e outras pessoas que estavam no local, que não quiseram se identificar, é que alguns chegaram a tirar a chave do carro da mão de Esron para que ele não dirigisse.

Em outros relatos, haveria até uma discussão dele com Francielly, que queria ir logo embora, mas Esron queria ficar mais na festa. Quando finalmente resolveram sair, havia uma combinação com um amigo de irem juntos, sob a alegação de que este também teria bebido e queria ir acompanhando Esron. No entanto, o Golf teria saído mais rápido e foi perdido pela vista dos demais motoristas que saíram no mesmo horário. Quando passaram pelo desvio da obra da Ferrovia Norte-Sul, já não viram mais nada e acharam que Esron tinha passado e chegado em casa. O comunicado do acidente ao Corpo de Bombeiros, que fizeram o resgate, se deu às 13 horas de domingo (10), quando foi feito também a retirada do veículo, dos corpos e a perícia.

Segundo consta, Francielly estava deitada no banco de trás do carro, enquanto Esron dirigia e Guilherme estava ao seu lado. Ela ficou no banco traseiro por se sentir enjoada durante a festa, já que estava grávida há 2 meses. Com a batida, Francielly chegou a ser arremessada do veículo, enquanto os dois homens foram pressionados pelos aparelhos de som automotivo instalados no veículo.

Na tarde desta segunda-feira (11), diversas pessoas passaram pelo local do acidente e pararam para olhar a vala e falar sobre o que poderia ter ocorrido. Não havia sinal de frenagem na pista e nem mesmo batida no trecho percorrido. A hipótese geral dos populares era de que o veículo teria batido apenas no meio-fio que separa a pista da obra, entre duas placas que marcam a curva necessária ao desvio e, então, saído do chão, caindo diretamente na vala. Outro assunto recorrente foi de que teria ocorrido pelo menos mais dois acidentes no mesmo dia, de menor gravidade. Um seria uma colisão entre dois carros e outro um carro que bateu em um bloco de concreto.

De fato, havia restos do que seria o farol de um veículo em um dos blocos de concreto, que estava deslocado. A reportagem verificou ainda que a sinalização é farta nos dois sentidos da GO-156, porém, há falhas de iluminação, o que pode dificultar a visualização do desvio durante a noite. Populares que passam pelo local relatam que, de fato, não se vê a sinalização instalada com antecedência no período noturno, embora o desvio já seja conhecido da população devido ao tempo que a obra está parada no local.

Pai de vítima havia perdido casa e área em desapropriação

O pai de Francielly Alcântara, o agricultor João Martins, vê a obra da Ferrovia Norte-Sul como um grande trauma em sua vida, que culminou na perda de sua filha na madrugada deste domingo (10), em acidente automobilístico. Mas a raiva da Ferrovia e da Valec Engenharia, Construções e Ferrovias S.A. ocorre desde o início deste ano, quando teve desapropriada uma área de 80 metros quadrados do seu terreno.

“A negociação que fizeram comigo foi de uma parte por R$ 74 mil e outra por R$ 136 mil, mas só pagaram essa de R$ 136 mil e ficou por isso mesmo”, diz. Daí então, ele teve uma casa e um engenho de rapadura derrubados. “Nem estou na área da Ferrovia e mesmo assim vieram me desapropriar, mas tiraram minha casa, o engenho e a represa que não estavam na negociação.” Para piorar, um amigo advogado disse que ganharia na Justiça os outros R$ 74 mil, mas o Poder Judiciário deu ganho de causa à Valec, restando a João Martins o pagamento das custas judiciais, ou seja, uma dívida de R$ 11 mil, que está dividida em parcelas mensais de R$ 1.300.

“Agora tiraram minha filha também e disseram que está tudo bem sinalizado lá. Deixaram a obra por fazer e deu nisso, perdi minha filha”, conta. Ele agora ainda será responsável por cuidar da neta, de 2 anos, em uma barraca sem energia, também retirada pela realização da obra.