11 de fevereiro de 2016

Goiânia, a farsa de “uma cidade sustentável”


É preciso de consciência para escolher o candidato com a melhor proposta

A atual administração venceu as eleições de 2012 para a prefeitura da Capital apresentando um plano de governo que agradou a maioria dos eleitores. O compromisso petista tinha nome, sobrenome e conteúdo explícitos: Goiânia, uma cidade sustentável.

O candidato vitorioso desde o início da campanha esteve à frente nas pesquisas: o suporte de um marqueteiro de talento incontestável fez a diferença agregando indiscutível qualidade à propaganda eleitoral do vencedor.

À época, os adversários buscaram apoio do eleitorado a partir da crítica – no geral, fundamentada – às deficiências de atuação do governo PMDB-PT, apresentando soluções focadas nos principais problemas que afligiam a população.

O acerto da percepção dos partidos oposicionistas sobre as áreas em que a ação do Executivo municipal era reconhecidamente pífia, não teve como resultado a apresentação de planos de governo com os requisitos necessários para convencer o eleitor da viabilidade das propostas.

Os debates nas redes de TV possibilitaram aos candidatos melhor posicionados nas pesquisas eleitorais apresentar com mais informações os principais aspectos dos seus planos de governo. Entretanto, na maior parte do tempo as discussões foram prejudicadas pela abordagem de temas que não diziam respeito às eleições municipais.

Muitos eleitores chegaram ao dia das eleições desconhecendo as propostas dos candidatos. Possivelmente esta circunstância favoreceu a opção pela proposta que resumia uma ideia supostamente mais palatável. Relembrar o essencial dos planos de governo colocados em discussão ajuda a compreender as dúvidas que povoavam a cabeça dos eleitores em 2012.

A proposta do PTB dava destaque às áreas de Saúde, Segurança Pública, Transporte e Mobilidade e a Descentralização Administrativa. A prioridade à área da Saúde estava delineada no anúncio de melhor atendimento nos Cais, qualificação e valorização dos profissionais, ampliação dos serviços e da rede de atendimento.

Na área da Segurança Pública tiveram destaque propostas de prevenção de crimes por meio de parcerias com o governo estadual e federal, rondas policiais nos Bairros e a instalação de câmeras de monitoramento em comércios e pontos de grande incidência de crimes.

Executar o Plano Diretor de Goiânia definindo corredores exclusivos para ônibus nas principais vias da capital, firmar parceria com o governo estadual para implantar o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) no Eixo Anhanguera; e construir novos viadutos para melhora o fluxo do trânsito em pontos de estrangulamento e confluência de avenidas eram aspectos relevantes do programa para o trânsito e a mobilidade urbana.

Ciente da distância entre os serviços prestados pela prefeitura e os anseios da população o plano de governo petebista falava em descentralizar – e regionalizar – a administração, como objetivo a ser alcançado mediante a criação de subprefeituras.

O principal aspecto do plano de governo do PC do B era priorizar a atenção à saúde construindo e entregando uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 horas, a cada ano de mandato: quatro nas diferentes regiões de Goiânia.

Na área de transporte e mobilidade o compromisso era rever todos os contratos das empresas que exploram a concessão do transporte coletivo, firmar parcerias com o governo federal para implantar corredores exclusivos nas avenidas T-7, T-9 e 136, reestruturar os quadros da Agência Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (AMT) – mudando a atuação e melhorando a engenharia de trânsito e incentivar a construção de estacionamentos subterrâneos e verticais para tirar os carros das ruas.

Os comunistas se comprometiam com o aumento da oferta de habitações construindo e entregando 10 mil novas unidades no programa Minha Casa Minha Vida e uma política de fomento à prática esportiva na periferia, com a retomada das escolas de iniciação esportiva e a construção de “clubes do povo”.

Na área da segurança pública ampliar a Guarda Municipal, o PC do B falava em promover parceria com a Polícia Militar e criar um sistema de monitoramento com câmeras de vigilância eram os pontos principais do programa.

A ideia também era descentralizar a administração criando as subprefeituras. O meio ambiente era contemplado com o compromisso de criar mais parques em áreas de preservação ambiental.

A coligação PSC-DEM-PRP propôs programas sociais para a qualificação da força de trabalho para aumentar o desenvolvimento social e assim melhorar a segurança pública e diminuir a criminalidade – acrescentando uma parceria entre prefeitura e Polícia Militar.

A geração de mais empregos e renda seria reforçada com o Banco do Povo Municipal e a oferta de crédito para a concessão de empréstimos a microempresários.

Percebendo que o transporte coletivo é um dos maiores problemas da capital a coligação PSC-DEM-PRP propôs baixar a tarifa aos domingos, para ajudar as famílias de baixa renda a aproveitar “o dia de lazer e de professar a sua fé”; e para melhorar a mobilidade urbana, o compromisso era a ênfase na construção de ciclovias, a padronização das calçadas, implantação de asfalto de qualidade e caixas de infiltração.

Para a área da Saúde o programa propunha ampliar o número de UTIs, melhorar o atendimento e as condições de trabalho dos servidores.

A descentralização – criando subprefeituras e Centrais Regionais de Gestão (CRG) – também era considerada indispensável para a prefeitura atender aos anseios da comunidade.

O programa eleitoral do PSOL defendia maior proximidade entre a administração municipal e a população, assumindo o compromisso de tomar as decisões importantes do executivo mediante consulta popular.

O incentivo às atividades na área cultural, a partir do incentivo às escolas para a pesquisa sobre a história dos bairros e o resgate do dia 5 de julho – quando ocorreu o Batismo Cultural de Goiânia; o incentivo às artes, a promoção do teatro e da musica assegurando apoio às manifestações de todas as vertentes enfatizavam os aspectos humanistas da proposta – que assumia o compromisso com a promoção dos Direitos Humanos.

O PMN prometia atenção à Saúde construindo as Unidades de Pronto Atendimento, as UPA’s; para atender ao déficit de aproximadamente 5.400 crianças à espera de vagas nas creches acenava com a ampliação dos Centros Municipais de Educação Infantil, a construção de unidades voltadas ao ensino infantil e fundamental e a oferta de melhores condições às escolas do município.

A questão da adição de drogas tinha como resposta a promessa de construir unidades de tratamento de dependentes químicos e as parcerias com organizações da sociedade civil e igrejas.

O transporte coletivo era contemplado no plano de governo com a singular promessa de um choque de gestão na CMTC – para os contratos serem respeitados. Dizia o candidato à época que “o contrato não é respeitado, não existe fiscalização. Não existe humanização no embarque dos terminais; há o desrespeito às crianças, aos idosos, às gestantes”.

As graves deficiências do trânsito e a mobilidade urbana eram respondidas com o compromisso de construção de viadutos, pontes e corredores de ônibus.

A criação de uma Secretaria Municipal de Segurança Pública, a instalação de banheiros químicos e segurança preventiva em todas as feiras livres eram compromissos defendidos pelo PMN.

Desconfiados da quantidade e da credibilidade dos “compromissos” desses partidos  com as “soluções” apresentadas o eleitorado preferiu dar um voto de confiança à proposta petista, aparentemente mais bem elaborada e defendida por um candidato já no exercício do poder.

O observador atento ouvia o discurso do candidato, as promessas do plano de governo e a propaganda dos programas eleitorais com dúvida razoável, mas a inconsistência política das candidaturas alternativas e a evidente inexperiência administrativa favoreceu o candidato do PT. Ainda assim, o eleitor goianiense experiente após inúmeras promessas que nunca saíram do papel “confiava, desconfiando” – e não era para menos.

Entrevistado por um canal de TV no período eleitoral, já na primeira pergunta o candidato do petismo revelou a superficialidade da sua percepção acerca do plano “uma cidade sustentável” – elaborado por uma equipe de marketing competente, fundamentado nos conceitos de sustentabilidade propostos pelo Instituto Ethos.

“Resume para a gente, candidato: em sua opinião, o que é uma cidade sustentável?” – perguntou o entrevistador.

A resposta veio no conhecido “dilmês castiço”:

“Eu posso resumir em três pilares: primeiro a retomada do planejamento da administração da cidade de Goiânia para que ela cresça de forma ordenada e possa superar todos os problemas existentes. Goiânia é a cidade brasileira com melhor qualidade de vida, mas eu nunca escondi o sol com a peneira, nós temos problemas e eles precisam de solução. Esse planejamento é necessário. Segundo, é evidente, que sustentabilidade nos remonta aos aspectos ambientais, nossa preocupação ambiental é consolidada, Goiânia é uma cidade que já tem como característica a preocupação de todos os homens e mulheres com a preservação dos nossos recursos naturais e, portanto, com as futuras gerações. E terceiro, básico dessa proposta: é oferecer oportunidades iguais a cada homem e a cada mulher para que eles alcancem os seus sonhos, os seus desejos, seus anseios. Isso é sustentabilidade.”

A resposta do candidato petista revelava a superficialidade do seu conhecimento sobre a proposta que dizia defender: o partido eleito prenunciava despreparo, incompetência, inoperância.

Sabemos que as prefeituras das cidades sustentáveis devem adotar medidas para evitar a utilização inadequada dos imóveis urbanos; preocupar-se com o gerenciamento do solo, a edificação, o uso excessivo – ou inadequado – em relação à infraestrutura urbana; estabelecer critérios que impeçam a instalação de empreendimentos e atividades que sejam polos geradores de tráfego; impedir a deterioração das áreas urbanizadas; combater a poluição e a degradação ambiental.

Nas cidades sustentáveis prevalece o compromisso de orientar a população para o uso eficiente e sem desperdícios de água, energia – e sempre utilizando materiais renováveis. Adotam-se propostas voltadas à melhoria do clima no planeta, tais como a criação de espaços multiuso para evitar desperdícios, agregando serviços em um mesmo bairro e incentivando o transporte alternativo.

De 2012 até hoje cada estação chuvosa repete a tragédia que já acontecia em alguns bairros – e nos últimos anos só fez piorar: basta uma breve chuva e Goiânia se converte em uma inacreditável cidade alagada. De nada adiantaram os estudos do Laboratório de Climatologia (Climageo) do Instituto de Estudos Socioambientais da UFG identificando as regiões de Goiânia mais propensas ao alagamento.

Na farsa “cidade sustentável” administrada pelo petismo nada foi feito para deter a progressiva impermeabilização do solo. E nenhuma medida foi adotada diante da constatação que a região central tem uma estrutura de drenagem insuficiente para captar o volume de água. O diagnóstico do Climageo sugerindo a “construção de estruturas para captar o fluxo superficial da água da chuva, retirá-la da superfície e redistribuí-la mais lentamente na bacia hidrográfica diminuindo o tempo de pico de vazão” foi solenemente ignorado.

E os prejuízos não passam com as chuvas. Após os alagamentos surgem os buracos – ou pior: crateras.

Conhecida como a cidade do “asfalto sonrisal”, a sustentabilidade histriônica do petismo em Goiânia fica exposta nas “operações tapa-buracos”, um os serviços mais precários – e caros – que se tem notícia. As “crateras” nas ruas pavimentadas são preenchidas com massa asfáltica – segundo os especialistas – seguindo uma “técnica” que não produz resultados positivos. Não há aderência do material novo com o asfalto antigo e a camada recoberta se solta de novo com as primeiras chuvas. A administração municipal não possui capacidade para encontrar uma alternativa eficaz – e o custo deste prejuízo interminável é “sustentado” pelo cidadão contribuinte.

O notável desta arlequinada de “uma cidade sustentável” é que os inaceitáveis problemas percebidos em 2012 e apontados por todos os partidos de oposição permanecem inalterados – a maior parte deles, agravados.

Nenhuma solução defendida pelos oposicionistas – ou anunciada pelo partido reeleito – foi efetivada. Com o passar do tempo a incompetência revelou inépcia; a inoperância escondia incapacidade – a farsa desnudada deu nisso que está aí.

Desde então serviços essenciais, como a coleta do lixo, sofreram repetidas interrupções – isso sem falar nas denúncias rotineiras de bairros onde a coleta é irregular ou o serviço deixa de ser prestado. Qualquer leitor atento dos jornais de Goiânia está farto de notícias sobre isso, mas a administração aparvalhada repousa na inércia.

Convenhamos: só no governo da bufonaria é possível alardear “uma cidade sustentável” e conviver com a poluição do rio Meia Ponte, um dos mais degradados do Brasil. Isso sem falar na contaminação do lençol freático pelo chorume do Aterro Sanitário. Ou na poluição dos lagos e parques sem manutenção.

Toda a população sabe que na “cidade sustentável” da mentira petista a sustentabilidade é literalmente jogada no lixo. Levantamento divulgado na imprensa informou há pouco tempo que menos de 5% do lixo da capital é reciclado – e desde o início da administração petista, em 2010, a Comurg só fez diminuir o recolhimento de lixo reciclável! Pior: com o passar dos anos diminuiu a periodicidade da coleta e o número dos bairros atendidos pelo serviço.

É extensa a folha de serviços omitidos, de ações que morreram nas reuniões intermináveis e discursos vazios da política sem resultados instalada na prefeitura de Goiânia.

A ilusão insustentável da administração petista ignorou os compromissos de requalificar para o uso do centro da cidade, de reocupar os espaços públicos abandonados, de reflorestar o espaço urbano: a única atividade invariavelmente sustentada pela administração é a derrubada de árvores.

Para a multidão de usuários, o transporte urbano municipal com ônibus insuficientes e abrigos inexistentes é sinônimo de angústia e aflição; só os interesses dos empresários estão satisfeitos – especialmente nos bairros mais distantes do centro onde milhares de lâmpadas apagadas sempre aguardam substituição, a sinalização das ruas esburacadas é precária há anos e os matagais oferecem perigo constante mandato após mandato da truanice PMDB-PT.

A aleivosia da “cidade sustentável” finge ignorar o trânsito caótico e a mobilidade inexistente. A falta de regulamentação, as falhas na fiscalização e a falta de alternativas cria o caos para quem só pode contar com carros e motos, ou se atreve a correr riscos de bicicleta; se não fosse pelas longas distâncias e tempo curto muitos provavelmente enfrentariam a aventura de caminhar. Ciclovias e ciclofaixas foram rejeitadas pela população que reclama da inutilidade dos itinerários (?) impossíveis: na perspectiva de quem se desloca de casa para o trabalho ou escola, os traçados ligam lugar nenhum a parte alguma.

Incapaz de oferecer combate ao mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zyca que há anos vence a guerra contra a prefeitura, incompetente para coordenar a reação da sociedade, só é “sustentável” a hipocrisia da administração petista que produz inesgotáveis desculpas esfarrapadas para as costumeiras deficiências de atendimento nos postos de saúde: um dia faltam vacinas indispensáveis às crianças levando os pais ao desespero; outro dia o atendimento é interrompido por greves (quase rotineiras) reivindicando melhores condições de trabalho; e todos os dias o atendimento odontológico é precário ou inexistente simplesmente porque não há o material necessário. A “frota” de ambulâncias? Antiga e insuficiente como a própria administração municipal.

A impostura insustentável do pesadelo petista alcançou o ápice com a proposta de venda de áreas públicas para quitar dívidas com o Instituto de Previdência do Servidor Municipal. Incapaz de sustentar sequer seus gastos, a administração que prometia “uma cidade sustentável” deixou cair a máscara – e revelou o dissipador despudorado. Diante de tamanho descalabro atingindo a cidade e a população não há mais o que falar: é o fim. Só nos resta esperar que nas próximas eleições o goianiense escolha a melhor proposta para resgatar a dignidade da cidadania perdida.

(Camille Adorno, escritor e advogado)

Fonte: DM
Foto: Drone Like