11 de março de 2015

Goiânia: Quando jogar um simples papel no lixo torna-se uma tarefa quase impossível


Um olhar cuidadoso sobre a cidade revela que ela não é pensada para sua população e leva à conclusão: andar a pé na capital goiana é uma odisseia

O repórter caminha de­vagar e atento a tudo o que se passa na Rua 9. Esta via do Setor Oes­te em Goiânia parece um tanto mais movimentada que o normal. “Será o horário?”, pensa. Talvez. Também podem ser aquelas pessoas evitando tomar o caminho da Avenida 85, devido às obras do corredor preferencial para ônibus.

O dia se aproxima de sua metade e já é possível sentir certo cheiro de comida no ar, o que indica panelas no fogo. Há restaurantes na região, visto que há hospitais por ali. A própria rua começa no fundo do Hospital Geral de Goiânia (HGG), um local bastante movimentado.

O pensamento sobre comida faz o repórter lembrar de que ainda não tomou café da manhã. O ronco do estômago alerta para a fome então esquecida e ele tira do bolso uma balinha. Coloca na boca para enganar o apetite, amassa o plástico da balinha e prepara-se para jogá-lo na lixeira. Não há nenhuma. Continua andando com o plástico na mão.

Quinhentos metros à frente, a mão se cansa do trabalho de amassar a embalagem. Já andou mais de duas quadras, o congestionamento dá sinais de que a Avenida Assis Chateaubriand se aproxima, mas nenhuma lixeira à vista. Em um trabalho de concentração, como para matar o tédio, ele dobra o plástico simetricamente e o guarda no bolso esquerdo da calça.

Enquanto caminha o jornalista percebe que, embora haja muitos carros, há poucas pessoas andando a pé. Como ele próprio só faz seus trajetos sobre quatro rodas, estranha ao notar tal fato, embora se sinta bem caminhando naquele dia. Ameaça chover, um vento fresco balança seus cabelos e ele enfim chega à Praça do Sol, a única existente na Rua 9. Um pedaço de verde em meio a tantos prédios. Anda alguns poucos metros e “ah! Uma lixeira”. Duas, na verdade, com poucos metros entre elas.

Pega a pequena obra de arte que fez com o plástico do doce, mas não joga no cesto de lixo. Decide percorrer a rua até o seu fim, na Rua T-55, no Setor Marista, apenas para contar quantas lixeiras ele encontrará pelo caminho. “Precisei andar mais de um quilômetro para encontrar uma, quanto terei que andar para achar outra?”.

Se ele soubesse a resposta, não teria feito isso. Um quilômetro e meio depois, as pernas nada acostumadas a andar tanto já doendo, o rapaz descobre que precisará caminhar um pouco mais, pois não encontrou nenhum local onde depositar seu lixo. Ainda bem que há outra praça a poucos metros, a Tira­den­tes, no encontro das avenidas 85 e 136. Seguindo a lógica, na praça será possível encontrar um cesto de lixo.

Depois de andar quase três quilômetros, o repórter se senta em um ponto de ônibus e sua curiosidade aguça: “Se nos quase três quilômetros da movimentada Rua 9 existem apenas duas lixeiras, quantas há em Goiânia?”. Impossível saber. Mas um levantamento feito nas principais avenidas e ruas da cidade pode dar um parâmetro de comparação. Liga para seu colega de jornal e faz a proposta: “Quer andar pela cidade?”.

Os dois, então, dividiram as tarefas: um iria percorrer as avenidas 85, T-9, T-63 e República do Líbano; o outro ficaria responsável pelas avenidas Araguaia, Paranaí­ba, Tocantins, Goiás, 10/Univer­sitária e Anhanguera.

Em dois dias, na companhia do repórter fotográfico Fernando Leite, a dupla percorreu esses locais com um único trabalho: contar lixeiras. No terceiro, encontraram-se para trocar as informações:

— Como foi?

— Espera. Deixa eu ligar esse ar-condicionado porque eu andei demais hoje. No 17 está bom? Beleza. Então, veja só: nos mais de quatro quilômetros da Av. 85 encontrei 16 lixeiras. Entre a Praça Cívica e o viaduto da antiga Praça do Ratinho são apenas duas, localizadas no cruzamento com a Rua Dr. Olinto Manso Pereira. Um bom lugar, afinal, é próximo à Praça Cí­vi­ca e também do Tribunal de Justiça. Há um bom fluxo de pessoas por lá. Não havia nenhuma antes, a não ser em volta do centro administrativo da capital. Deste ponto ao fim da via, no Setor Serrinha, contei 14. Mas tem uma questão.

— O quê?

— Das 16 lixeiras, nem todas estão em condição de uso. Muitas delas ainda são da gestão do ex-prefeito Nion Albernaz (1997-2001), aquelas azuis, sabe?

— Sei, sim. E nas outras avenidas?

— Bom, na T-9 são duas.

— Duas?! A T-9 tem quase cinco quilômetros.

— Pois é. As duas ficam na Praça C-220, aquela cercada por agências bancárias. Na T-63 há muitas, 76. Porém, com o mesmo problema das que vi na Av. 85: uma boa parte sem condição de uso e com o agravante de estarem em locais não muito estratégicos, como atrás de postes de energia. São um tanto inacessíveis. Além disso, entre o Mercado do Setor Pedro Ludovico e o viaduto da Av. 85, não há nenhuma, apenas os suportes. As melhores que encontrei estão na República do Líbano, mas são apenas 24 ao longo de toda a via. E você, o que encontrou?

— Dei um pouco mais de sorte, com exceção da Av. Anhan­guera. Ao longo dos quase 10 qui­lô­metros que percorri, entre a Praça da Bíblia e o Terminal do Padre Pelágio, encontrei o mesmo número que você na T-63: 76. Foi complicado contar todas porque no trecho que passa pelo Centro, por exemplo, praticamente não há lixeiras, apenas os suportes, muitas vezes usados pelos am­bulantes como marco para de­positar os sacos de lixo que acu­mulam du­rante o dia. Fica di­fícil vê-los. São 18 cestos da Praça da Bíblia à Av. Tocantins, 31 até a Praça A, 71 até o Ter­minal do Dergo, fechando 76 no Terminal Padre Pelágio.

— E as outras avenidas do Centro?

— Sim, foi por elas que disse ter dado mais sorte que você. Na Araguaia são 37 – até o cruzamento com a Anhan­guera, muitas; depois, esparsas. Na Paranaíba, 60, mas veja só: no trecho entre a Anhanguera e a Araguaia há apenas um PEV (Ponto de Entrega Voluntário) em frente ao Colégio Cla­re­tiano. Mesmo assim, meio aberto, vazando lixo. Até o reencontro com a Anhanguera, já perto da República do Líbano, há as outras 75, mas muitas quebradas, algumas furadas. Na Tocantins são 40 e na Av. 10 são 38, muito devido à ciclovia. Porém, entre a Praça Universi­tária e o Terminal da Praça da Bíblia não há nenhuma.

— Faltou a Av. Goiás.

— Essa é diferente, talvez pela sua importância e história de conservação. Afinal, é a principal Avenida da cidade, o centro do traçado original de Goiânia. Nela, há 125 cestos de lixo. 44 da Praça Cívica à Av. Anhanguera; 45 entre esta e Av. Paranaíba; e 36 até a Praça do Trabalhador.

Avenida Goiás é exemplo para o resto da cidade

O título acima resume a análise pretendida para o restante da cidade no que concerne à qualidade de vida dos pedestres. O diálogo entre os repórteres mostra a fragilidade da bandeira sustentável por que Goiânia se propôs a ser conhecida, não apenas pelo escasso número de cestas de lixo distribuídas nas principais vias de tráfego da capital goiana, mas também pela falta de atenção ao pedestre. Afinal, como bem diz a arquiteta urbanista, doutora em transportes e pesquisadora na Universidade Federal de Goiás (UFG) Erika Cristine Kneib: “Devemos pensar a cidade como um conjunto”.

No conjunto da obra, temos: calçadas, iluminação, árvores e o mobiliário urbano de forma geral, como bancos, tipos de pavimento, lixeiras, entre outros elementos. E no que concerne a esses pontos, em grande parte — não em todos —, a Avenida que deveria ter sido chamada Pedro Ludovico Teixeira, mas por força deste foi inaugurada com o nome de Goiás, é símbolo para a cidade. Exemplo de cuidado não apenas com a história, mas com as pessoas que por ela circulam todos os dias.

Cuidado que pode ser remetido à figura de Pedro Wilson, o ex-prefeito que atualmente preside a Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma). Quem vive na cidade há mais tempo sabe que os comerciantes chamados ambulantes hoje fixados no Mercado Aberto da Av. Paranaíba tinham na Av. Goiás seu “lar” profissional. As barracas que “ornamentavam” o lugar eram sua fonte de renda, mas acabavam com qualquer qualidade de vida que a população poderia ter na via mais importante da cidade.

Coube a Pedro Wilson encarar o problema, tirar essas pessoas de lá e devolver à primeira Avenida da capital seu caráter de boulevard, palavra usada pelo próprio ex-prefeito ao sair de uma reunião para atender à ligação desta reportagem numa tarde de quinta-feira. Nenhuma reunião em Brasília impediu que Pedro falasse por alguns minutos do projeto marca de sua gestão à frente da cidade, o conhecido Cara Limpa.

“A Avenida Goiás”, ele diz, “é símbolo do projeto do arquiteto Attilio Corrêa Lima. Por isso, tiramos todos os ambulantes dali e os levamos para o Mercado Aberto e para outros lugares. Retomamos a consciência ao conjunto da obra que há naquele lugar”. Sim, o conjunto estilístico art déco.

Mas a recuperação foi para além disso, segundo o ex-prefeito. Ele afirma: “Nós temos no Cen­tro de Goiânia muitos apartamentos para aposentados e pessoas idosas, que escolhem a região porque tem quase todas as atividades ali”. Por isso, tantas lixeiras, bancos e a cuidados na recuperação da paisagem do local. “Queríamos incentivar todas essas pessoas a se utilizarem da Av. Goiás no fim de tarde. A ideia era fazer como a Las Ramblas, uma Avenida de Barce­lona, na Espanha, que era comum e depois acabou se transformando em uma referência comercial e cultural”, explica Pedro.

A ideia foi boa e as 125 lixeiras existentes na Av. Goiás, embora nem todas estejam utilizáveis, dão ao lugar um caráter mais limpo, mais agradável para ficar. É isso que falta em Goiânia. Os dois repórteres que assinam esta reportagem puderam perceber algo na cidade ao percorrer a pé suas principais vias: andar em Goiânia é uma verdadeira odisseia.

Não são apenas lixeiras que faltam, mas também calçadas adequadas. Há dificuldade em disputar espaço com carros, comércios e recuos de estacionamento. Falta limpeza. É possível ver, ao longo de muitos caminhos, inúmeras garrafas pet, latinhas de cerveja e refrigerante; e papéis de balinha — ora, nem todas as pessoas são entediadas o bastante para dobrar simetricamente a embalagem e guardá-la no bolso da calça como o fez o jornalista descrito na abertura desta matéria.

A especialista

“Quando trabalhamos com planejamento da cidade, é importante observar três escalas: a macro, que é a escala da cidade; a média, que é a de bairro, onde há os parques, as vias etc.; e por último a micro, a escala do detalhe, da pessoa, do pedestre. Esta última é aquela que as pessoas entendem como qualidade de vida e que tem sido abandonada pelas gestões públicas.”

A fala é da arquiteta urbanista e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) Erika Cristine Kneib. Em termos técnicos, esta escala da pessoa é sobre o que esta matéria está trabalhando desde seu princípio, pois trata do, infelizmente, mal projetado e mantido mobiliário urbano de Goiânia.

No dia em que a reportagem esteve na Av. Goiás, havia uma equipe da Companhia de Urbani­zação de Goiânia (Comurg) fazendo a manutenção do local: cortando a grama e coletando o lixo — sim, mesmo com 125 lixeiras havia lixo no chão e isso é descrédito para a população. Entretanto, não é algo que se veja com constância nos outros locais da cidade.

Por isso, é possível afirmar que a Av. Goiás é exemplo para o que deve ser feito em todas as outras ruas de Goiânia. “Um mobiliário urbano bem projetado, bem implementado e funcional traz uma presença de cuidado para o espaço. O local que não tem lixeira, por exemplo, e em que a calçada está esburacada, é um lugar que ninguém gosta de ir porque não inspira segurança. Na questão urbana, uma coisa puxa a outra”, analisa Erika.

Isto é, a implantação do conjunto dessas coisas faz com que se crie a possibilidade de fazer um lugar ser agradável ou não. Veja-se o exemplo do que aconteceu em Nova York, nos Estados Unidos, com o programa Tolerância Zero: um papel no chão tem x segundos para ser recolhido, porque um papel no chão estimula as pessoas a jogarem outro. A partir do momento que se tem um espaço limpo, as pessoas ficam inibidas de sujar. Mas se sujam e não há a devida manutenção, infelizmente a tendência é sujar cada vez mais.

Nisso entra a presença do Es­ta­do com a conscientização das pessoas e também com a fiscalização. Em lugares em que há manutenção constante e fiscalização, as pessoas pensam duas vezes antes de jogar um papel no chão. É um ciclo vicioso: “As pessoas andam de carro porque é muito fácil, mas também andam pouco a pé por ser difícil. E essa falta do andar a pé, por sua vez, ajuda a não ter uma manutenção efetiva nas calçadas e em relação ao mobiliário urbano. Só conseguimos resolver os problemas de mobilidade quando temos um conjunto de fatores funcionando integrado”. Erika tem razão.

Fonte: Jornal Opção