13 de março de 2015

Goiânia precisa de pelo menos 7 mil lixeiras


Cabe aos urbanistas estudarem a cidade. Assim, Renato Rocha, arquiteto e urbanista, doutorando pela Universidade de Brasília (UnB) e diretor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UniEvangélica, aponta que há um número ideal para a quantidade de lixeiras em uma cidade: uma para cada 100 habitantes, no mínimo uma lixeira para cada 200.

Se considerarmos que a capital abriga aproximadamente 1,4 milhão de habitantes, Goiânia, portanto, deveria ter cerca de 14 mil lixeiras disponíveis nos espaços públicos — o mínimo aceitável é 7 mil —, principalmente em locais onde há grande fluxo de pedestres. Mas, como já sabido, esta não tem sido uma realidade, para a infelicidade dos contribuintes e munícipes da capital.

O resultado da falta de políticas públicas voltadas para uma urbanidade mais limpa e sustentável é a diversidade de problemas como doenças, entupimento de esgotos e atração de insetos e roedores, um perigo para a saúde pública. Se a prefeitura provém suficientemente bem de lixeiras em praças centrais, é também um dever levá-las para os bairros em sua totalidade. Afinal, todos têm o mesmo direito.

Jogar lixo nas vias públicas é uma prática que evidencia a falta de educação de alguns pedestres ou a consequência direta da falta de disponibilização de lixeiras em vias públicas. De bitucas de cigarro a embalagens e restos de comida, papel e outros rejeitos, a cidade vai se tornando um enorme depositório de lixo a céu aberto. Qualquer resíduo jogado na rua produz um acúmulo final de toneladas de sujeira, cujo destino é quase sempre os bueiros.

O acúmulo de sujeira em bocas de lobos, geralmente causado pela má utilização das lixeiras — as que existem —, é o principal responsável pelas fortes enxurradas que, além de disseminar doenças, contribuem significativamente para a poluição dos lençóis freáticos.

Segundo Renato Rocha, o déficit no planejamento da cidade reflete di­retamente na falta de lixeiras em locais onde há aglomeração de pe­destres. “É uma preocupação, pois se o pedestre produz lixo durante sua caminhada, ele não tem onde jogá-lo. No afã de desfazer dos resíduos por faltas destes importantes equipamentos públicos ele é levado a lançá-lo ao chão, emporcalhando ainda mais a cidade”, afirma.

Mas não basta inundar as ruas de cestos de lixo se a população não tiver consciência de que é preciso fazer o descarte adequado de resíduos. A grande questão é trabalhar a conscientização da população. Isso precisa ser prioridade. Renato Rocha chama atenção para a necessidade dos programas e projetos de educação para destinação correta do lixo.

Também pouco adiantaria instalar novos equipamentos públicos se não forem implantados em locais estratégicos e de fácil acesso. Segundo o urbanista, partir diretamente para iniciativas como as que ocorrem em Londres ou São Paulo, por exemplo, em que o pedestre que joga lixo no chão recebe uma multa, não resolveria o problema. “Seria interessante em um primeiro momento trabalhar com a conscientização da população, no sentido de promover campanhas educativas”, diz.

De qualquer forma, a simples presença de uma lixeira na trajetória de quem transita pela cidade caminhando já é um grande incentivo para a destinação correta dos lixos. Numa época em que as questões ambientais e de sustentabilidade precisam ser encaradas de forma mais séria pelo poder público, conscientizar a população da importância do manejo correto do lixo deve ser visto como ponto de partida para uma gama de ações que de fato surtirão efeitos para uma cidade mais limpa e sustentável.

“As pessoas enxergam a cidade como se ela tivesse nascido na gestão do prefeito Paulo Garcia”

Como a maior interessada no assunto é a Prefeitura de Goiânia, a reportagem foi ao Paço Municipal ouvir o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano Susten­tável (Semdus), Paulo César Pereira, a respeito das políticas de limpeza. Entrevistado em seu gabinete, por voltas das 17 horas de quinta-feira, 5, o titular parecia desconfortável em suas respostas. Contudo, garantiu que o Executivo tem voltado suas atenções para a melhoria da disponibilização de equipamentos públicos, que, no caso das lixeiras, poderá ser contemplado pela licitação de novos desses equipamentos e pela aprovação de um projeto de lei municipal, conhecido como Lei das Calçadas, o que deve ajudar a melhorar a questão.

— A Prefeitura de Goiânia tem se voltado às questões de mobilidade urbana, principalmente do transporte coletivo, que deve de fato ser privilegiado em detrimento do individual. Dentro desta diretriz o poder público municipal tem instalado corredores preferenciais de ônibus em vias importantes, como nas avenidas 85 e T-63, tendo como próximo passo a implantação do sistema no corredor da T-7. Entretanto, essa política não estaria se esquecendo do cidadão que se locomove a pé pela cidade? Qual é a dificuldade do Executivo em prover lixeiras públicas para que os pedestres, de maneira geral, possam descartar corretamente o lixo individual?

— Estamos elaborando o edital para contratação de empresas que possam disponibilizar alguns equipamentos públicos. Nós já tivemos algumas ofertas de empresas que queriam explorar a propaganda e instalar esses equipamentos. Eles vieram até mim e disseram que têm a pre-disposição de montar essas lixeiras. Mas eu disse a eles que a Prefeitura está montando um edital para contratação de uma empresa, portanto um certame público que permitirá quem quer seja a instalar alguns equipamentos públicos que, dentro deles, compreendem lixeiras e identificações de logradores públicos. A imprensa nos tem cobrado a respeito da manutenção dessas placas. A Prefeitura vem correndo contra o tempo, tentando instalar alguns desses equipamentos, e tem se deparado com os problemas no qual você bem apontou. Assim, pretendemos concluir essa licitação ainda neste primeiro semestre, não só para disponibilizar esse serviço como fazer o mapeamento que você sugere e identificar onde está a maior concentração de pedestres e a maior demanda de instalação destes equipamentos para que a cidade esteja bem servida.

Nesse momento, apresentamos ao secretário o exemplo da Avenida T-63, onde está evidenciada a falta de planejamento da disposição das lixeiras, já que nos locais onde há uma maior aglomeração de pedestres, em razão da grande concentração de comércios, bares, restaurantes, padarias, agências bancárias, postos de gasolina e empórios, não há cestos de lixo suficientes:

— Na Avenida T-63, por exemplo, existem 76 lixeiras públicas. Acontece que no trecho após o viaduto João Alves de Queiroz, no cruzamento com a Avenida 85, em sua extensão até a Praça Nova Suíça, nós contamos apenas duas lixeiras. Os outros cestos de lixo estão todos bem distribuídos ao longo da via depois daquela praça, onde, diferentemente do trecho anterior, não há grande fluxo de pedestres.

— Na verdade, se você começar a fazer esse apontamento estatístico seria melhor conversar com a Comurg, que é a companhia responsável pela limpeza urbana. Nessa licitação na qual o edital será lançado, certamente nós vamos envolver a companhia de limpeza urbana porque ela deve ter dados muitos mais precisos que vão apontar os locais onde devemos fazer as instalações e em quais os locais nós devemos fazer a substituição e as devidas manutenções. Portanto, o indicativo e quantitativo da instalação desses equipamentos são feitos pela Comurg e eles mesmos categorizam as vias prioritárias para receberem novas lixeiras.
Insisto em perguntar sobre as calçadas, pois, na maioria das vias verificadas, há um claro desleixo em relação a estas estruturas, e isso acaba recaindo também na ausência ou depredação de cestos de lixo:

— Ainda em relação às políticas voltadas aos pedestres, como anda as ações em relação às estruturas das calçadas? É visível que as normas que regularizam as calçadas não são respeitadas, já que muitas são usadas como estacionamento e outras estão completamente destruídas, esburacadas e oferecendo riscos aos pedestres. Por consequência, há muitas li­xei­ras depredadas. Muitas delas apresentam apenas o suporte, sem o cesto.

— A Prefeitura e o próprio prefeito têm sido alvos de muitas críticas com relação à sustentabilidade e ao transporte coletivo. O interessante é que essas críticas enxergam a cidade como se ela tivesse nascido na gestão do prefeito Paulo Garcia. É preciso fazer uma avaliação histórica de todas as gestões ao longo da idade da cidade para vermos efetivamente as ações que contemplaram a cidade como um todo. Há ações emblemáticas de um ou de outro gestor, mas quando entramos no mérito do planejamento da cidade vamos abrir espaço para fazer questionamentos a muitos gestores. O que a gente está propondo? E aí a pergunta é oportuna, porque, apesar do não conhecimento e da não divulgação, o prefeito Paulo Garcia está tendo uma atitude de muita coragem ao instituir e instalar os corredores de ônibus. Muitas vezes, vêm pessoas querendo fazer uma discussão superficial e colocam como se a gestão não buscasse a sustentabilidade. No projeto dos corredores, por exemplo, é acompanhado todo o conjunto, inclusive olhando para as calçadas a fim de assegurar não só que o pedestre tenha acesso aos terminais e possa transitar com conforto. Em linhas ge­­rais, há diretrizes da Prefei­tura para as calçadas e estamos elaborando uma minuta de projeto de lei que estabelece critérios muito claros e bastante razoáveis em relação à construção de calçadas em Goiânia, não somente nos eixos que estamos fazendo para o transporte coletivo.

Fonte: Jornal Opção