15 de março de 2015

Dilma é alvo de protestos pelo País neste domingo


A queda acentuada de popularidade da presidente Dilma Rousseff, que hoje será alvo de protestos em diversas cidades do País, coincide com a mais intensa reversão de expectativas econômicas ocorrida nas últimas duas décadas. Desde o início de seu segundo mandato, o número de eleitores com medo do aumento do desemprego e da inflação chegou às alturas, poucos meses depois de atingir, durante a campanha eleitoral, os níveis mais baixos desde o governo Fernando Henrique Cardoso.

O pessimismo em relação ao aumento da inflação, segundo série histórica de pesquisas do instituto Datafolha, supera atualmente até os níveis registrados logo após a desvalorização do real ocorrida no início do segundo mandato de FHC. A preocupação com o desemprego ainda não chegou ao patamar da era tucana, mas a linha de tendência aponta para isso.

Os gráficos publicados nesta página mostram como se manifestaram as ondas de pessimismo econômico nos cinco primeiros anos de governo dos três últimos presidentes. As linhas revelam uma clara tendência de melhora das expectativas durante as campanhas eleitorais de reeleição - época de bombardeio de propaganda na televisão - e de piora no primeiro ano do segundo mandato. Mas as guinadas da gestão Dilma se destacam pela intensidade.

O pessimismo em relação à economia ajuda a explicar os ânimos acirrados contra a presidente, evidenciados no "panelaço" do domingo passado e em manifestações que hoje tentam se lançar do palco virtual das redes sociais para o concreto das ruas e praças e de cidades grandes e médias.

Mas o panelaço e o bombardeio virtual contra a presidente e seu partido são também a continuação de um movimento já observado na campanha eleitoral do ano passado, marcada pela acirrada polarização entre o eleitorado pró e anti-PT.

Após a eleição, que Dilma venceu com 51,6% dos votos - o placar mais apertado desde a redemocratização -, a mobilização de grupos contrários à presidente ganhou impulso com o detalhamento do escândalo de corrupção da Petrobrás e a acusação, feita por ex-funcionários da estatal, de que partidos da base governista foram beneficiados pelo desvio de recursos.

A onda de insatisfação também se alimentou da série de más notícias no front econômico, desde a aceleração da inflação ao anúncio de medidas impopulares para reduzir o déficit público. No início de fevereiro, segundo o Datafolha, 44% dos brasileiros consideravam o governo ruim ou péssimo - a taxa mais alta da gestão da petista.

Dispersão

A fragilidade do governo também se evidencia no Congresso. No início de seu segundo mandato, Dilma está com a mais baixa taxa de fidelidade na Câmara dos Deputados desde o início da série histórica do Basômetro, ferramenta interativa do Estadão Dados que calcula a taxa de governismo dos parlamentares brasileiros. Desde 2003, no primeiro ano do governo Lula, nenhum presidente teve de lidar com uma base tão adversa.

Nas 14 votações que já ocorreram em 2015, em média, 70% dos votos dos deputados seguiram a orientação do governo. Essa taxa está 11 pontos abaixo da registrada nas primeiras 14 votações do segundo governo Lula - a melhor marca nessa mesma faixa de comparação. A situação tende a piorar para a presidente, já que, em regra geral, o início de governo costuma ter as maiores taxas de governismo do mandato.

Outra maneira de avaliar o governismo é medir o chamado "núcleo duro" do governo, formado por deputados que sempre ou quase sempre votam de acordo com a orientação do Executivo. Neste início de mandato, apenas 114 parlamentares votaram 90% das vezes ou mais com o governo, o que representa 30% do total - quase metade do que no mesmo período do governo anterior de Dilma, em que 58% dos deputados faziam parte do núcleo duro. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Dilma não vê razões para impeachment

Surpreendida pelos ataques a seu pronunciamento na televisão no domingo, quando foi alvo de vaias e “panelaço” em 12 capitais, a presidente Dilma Rousseff disse não ver razões para seu impeachment e que um “terceiro turno” representaria uma “ruptura democrática”.

Afirmando apoiar o direito da população de protestar nas ruas, Dilma questionou os argumentos dos grupos que defendem seu afastamento, que participam da organização das manifestações marcadas para domingo em várias capitais. “Eu acho que há que caracterizar razões para o impeachment e não o terceiro turno das eleições”, disse Dilma ontem, após cerimônia no Planalto em que sancionou a lei do feminicídio, que torna crime hediondo a violência contra a mulher.

Foi a primeira vez que a presidente pronunciou a palavra impeachment desde que seus adversários começaram a debater o assunto. “O que não é possível no Brasil é a gente não aceitar a regra do jogo democrático”, afirmou Dilma. “A eleição acabou, houve primeiro e segundo turno. Terceiro turno das eleições para qualquer cidadão brasileiro não pode ocorrer a não ser que se queira uma ruptura democrática.” Questionada sobre as manifestações do próximo domingo, a presidente disse que é preciso “conviver com a diferença”, mas não se pode “aceitar a violência”. “Manifestações pacíficas são da regra democrática”, afirmou.

A repercussão negativa do pronunciamento de domingo, quando Dilma defendeu o ajuste fiscal e pediu paciência à população, acendeu o sinal vermelho no Planalto, que teme que o discurso sirva para estimular novos protestos contra o governo. Assessores presidenciais avaliam que o momento escolhido para o pronunciamento se revelou um equívoco, e que o discurso irritou ainda mais a parcela da população contrária à petista, criando o risco de provocar uma onda como a das manifestações de junho de 2013. Logo pela manhã, Dilma reuniu-se com o vice-presidente Michel Temer e seus auxiliares mais próximos para analisar a situação. Ficou combinado que o ministro Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil, convocaria uma entrevista para defender o governo. À tarde, a própria presidente decidiu tratar do assunto com os jornalistas. Dilma também vai discutir as manifestações com o ex-presidente Lula em encontro hoje.

Fonte: Jornal O Popular