1 de fevereiro de 2015

Mais um ano sem Norte-Sul


Segundo especialistas ainda falta a construção de pátios e contratação de empresa para cuidar do trecho. Previsão para início de operações comerciais é para julho deste ano

Pedro Nunes

A presidente Dilma Rousseff até que inaugurou no dia 22 de maio de 2014 o trecho da Ferrovia Norte-Sul que liga Palmas a Anápolis. O ex-presidente Lula fez a mesma coisa em 2010, ambos em anos de eleição. No entanto, até hoje, nenhuma operação comercial foi de fato realizada. Com isso, mais um ano se passou e a ferrovia continua sem engrenar.No total já são quase três décadas de espera pela promessa de ver a Maria Fumaça passar pelos trilhos ao longo do País.

Sem a Ferrovia Norte-Sul em pleno funcionamento, o sistema de transporte por trilho no Brasil fica pouco competitivo para as cargas do Centro-Oeste. Elas precisam percorrer mais de dois mil quilômetros de caminhão para alcançar os portos, o que faz o preço do frete nacional ser bem superior aos países concorrentes no setor, como EUA e Argentina.

“Temos a Norte-Sul há 30 anos sendo discutida, mas até hoje não vemos o trem passar pela ferrovia. Para se ter uma ideia, o produtor norte-americano gasta em torno de U$15 para escoar uma tonelada de produto, enquanto o brasileiro gasta em média U$80. Então isso mostra a falta de competitividade do setor”, revela o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner.

O superintendente do Porto Seco de Anápolis, Edson Tavares, defende que o modelo atual de locomoção de cargas, por meio das rodovias, está ultrapassado. “A ferrovia vai mudar o perfil econômico do Estado e a lógica de mobilidade da região. O ganho também virá para todos, mas em boa parte para os grãos e minérios o que irá facilitar a exportação pelos portos do Norte”, argumenta.

“Hoje nós temos uma logística burra descendo para os portos do sul. Movimentando para os outros portos do País, o Brasil será muito mais competitivo e o produtor goiano terá um ganho de produção muito grande no custo da logística, porque o modelo atual brasileiro é muito carente. A ferrovia mudará completamente o perfil econômico do Estado”, ressalta o superintendente.

Previsão

Em nota a Valec – empresa estatal responsável por tocar as obras da ferrovia Norte-Sul – prevê o início das operações do trecho da Norte-Sul de 855 quilômetros entre Palmas (TO) e Anápolis (GO) já para o próximo fevereiro. “A construção da tulha de embarque de farelo de soja da indústria Granol deve ser concluída no próximo mês, o que permitirá o embarque da soja e farelo de soja rumo ao porto de Itaqui (MA). Também no próximo mês está prevista a chegada das primeiras locomotivas à ferrovia. A VLI (empresa concessionária) iniciará o processo de transportar 18 locomotivas – fabricadas em Sete Lagoas (MG)– destinadas ao transporte de grãos e carga-geral na Ferrovia Norte Sul”.

Mas o superintendente do Porto Seco não acredita nessa hipótese. “Acredito que tudo estará normalizado a partir de julho, pois ainda faltam alguns detalhes”, afirma Edson Tavares. De acordo com ele, faltam definir as empresas responsáveis pela manutenção e segurança e esses são apenas alguns dos problemas que emperram a operação no trecho.

Superfaturamento de Ouro Verde (GO) a Estrela do Oeste (SP)

Nesta semana a Valec foi acusada de superfaturamento. O Núcleo de Combate à Corrupção do Ministério Público Federal em Goiás obteve decisão favorável da Justiça Federal que determina a retenção de R$7,559milhões referente às obras da Ferrovia Norte-Sul.

Inquérito conduzido pela Polícia Federal aponta que as empresas Construtora Aterpa S/A e Ebate Construtora Ltda. superfaturaram os serviços previstos para o trecho da ferrovia entre os municípios de Ouro Verde (Goiás) e Estrela do Oeste (São Paulo), recebendo por serviços não executados.

O contrato firmado junto à Valec Engenharia, Construções e Ferrovias S/A previa repasse total de R$ 31,2 milhões. A empresa Ecoplan Engenharia também foi relacionada, já que foi responsável pela fiscalização da obra e elaboração mensal de relatórios, que atestaram medições superdimensionadas e planilhas com sobrepreço. O crime proporcionou“o enriquecimento ilícito das construtoras Aterpa e Ebate”, segundo o MPF. A partir de agora, a Valec está proibida de repassar valores das futuras medições às empresas, sob pena de multa diária de R$ 2 mil.

A Valec assegura que cumpriu a determinação judicial e iniciou o processo de apuração da ação pública. De acordo a estatal federal, permanece a previsão para conclusão das obras, marcada para dezembro deste ano. O trecho de 682 quilômetros começou a ser construído em 2010 e atingiu 78% de execução. (PN)

Fonte: Jornal O Hoje