25 de janeiro de 2015

Projeto de instalação de hidrelétricas na Chapada dos Veadeiros causa polêmica


Preocupados com os projetos de construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) em rios da região da Chapada dos Veadeiros, no Nordeste de Goiás, pesquisadores, ambientalistas e moradores do local estão promovendo uma campanha na internet contra a instalação das PCHs. A Centrais Elétricas Rio das Almas (Rialma S/A) pretende construir usinas em pelo menos seis pontos do Rio Tocantinzinho e uma no Rio das Almas. Apesar de estar fora das unidades de conservação, os manifestantes alegam que esses empreendimentos vão afetar um dos últimos refúgios do pato-mergulhão (Mergus octosetaceus), uma das espécies de ave aquática mais ameaçada das Américas.

O abaixo-assinado virtual pretende reunir 500 assinaturas. O objetivo do grupo é enviar a petição eletrônica à presidente Dilma Rousseff (PT), à ministra do Meio Ambient,e Izabela Teixeira, e ao governador de Goiás Marconi Perillo (PSDB).

A mobilização da sociedade local teve início no ano passado, quando Rialma S/A apresentou, em audiências públicas, um projeto para a contrução de 22 PCHs na bacia integrada do Rio Tocantinzinho, algumas delas em pontos que afetava diretamente o pato-mergulhão. A proposta foi contestada pelo MP-GO e teve um parecer desfavorável de um técnico da então Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh). O grupo empreendedor, então, realizou novos estudos e descartou 18 delas. Apenas seis restaram na nova proposta, que se encontra em fase de análise na atual Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura, Cidades e Região Metropolitana.

Apesar da redução, pesquisadores afirmam que as usinas são uma ameaça. Membro do Conselho de Conservação das Aves Aquáticas das Américas, a bióloga Gislaine Disconzi explica que o Mergus vive em rios de corredeiras, e o represamento da água afetaria de forma significativa o habitat do animal.

Equilíbrio da região é fundamental para pato

Pesquisadora do pato-mergulhão há dez anos, a bióloga Gislaine Disconzi diz que manter o equilíbrio na região é essencial para a sobrevivência do pato e do homem. “Dizer que esse projeto não afeta a Chapada dos Veadeiros é inverdade. Se essa PHC no Rio das Brancas acontecer, influência todo a bacia do Tocantinzinho e neste rio encontramos pelo menos 13 indivíduos do pato-mergulhão.

Segundo Gislaine, as PCHs vão alterar as características naturais dos rios, podendo deixar submerso locais que o Mergus usa para a reprodução, alimentação e descanso, além de limitar o sua área de vida. “O pato-mergulhão é territorialista, um casal pode ocupar até 15 quilômetros do curso d’água”, explica.

Para a organização World Wide Fund for Nature (WWF) no Brasil, a construção das usinas é “extremamente preocupante”. O coordenador de conservação do Programa Cerrado Pantanal do WWF-Brasil, Julio César Sampaio da Silva, recebeu representantes das sociedade, na última semana, e disse que vai acompanhar a situação. “Mesmo que a área alagada seja pequena, há uma diminuição do fluxo de água e, quando vai se somando ao longo do rio, gera um problema é maior.

Empresário defende melhoria da qualidade energética na região

Presidente da Centrais Elétricas Rio das Almas (Rialma S/A), Emival Caiado Filho afirma que a instalação de pequenas hidrelétricas são importantes para melhorar a qualidade energética na região. O empresário diz que a revisão do projeto no Rio Tocantinzinho, que reduziu de 22 para seis o 6 o número de PCHs, levou em consideração as questões ecológicas, entre elas a existência do pato-mergulhão. Ele destacou que esse tipo de empreendimento é considerado internacionalmente como uma energia limpa, renovável e de baixo impacto ambiental.

“A diferença das PCHs com as grandes hidrelétricas é que as PCHs não têm reservatório, tem lago de nivelamento para supertar as turbinas. As corredeiras vão continuar com um pouco menos de água, com trecho de vazão reduzida. Nada alí vai secar”, argumenta. O empreendedor diz que, se comparadas às termelétricas, que jogam gás carbônico na atmosfera, os benefícios são ainda maiores”, argumenta.

Com experiência na área de licenciamento ambiental, o analista ambiental Roberto Freire explica que, individualmente, o impacto de uma PCH é pequeno, mas há um impacto cumulativo quando se tem uma soma de empreendimentos na mesma região, chamado de efeito sinérgico. O técnico da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura, Cidades e Região Metropolitana afirma que tanto o projeto para o Rio das Almas quanto as seis propostas para a bacia do Tocantinzinho se encontram em fase de análise e não há prazo para uma liberação dos empreendimentos.

“Não tem como afirmar nem se eles realmente serão liberados. O próprio estudo, feito por equipe técnica contratada pelo conjunto de empreendedores já descartou parte dessas PCHs. Agora o órgão vai verificar se, nesse cenário reapresentado, tem questões ambientais a serem atendidas.”

Fonte: Jornal O Popular (com informações de Gabriela Lima)