25 de dezembro de 2014

Ciclovias: uma alternativa para a mobilidade urbana


Por Gabriela Louredo

A cada 15 dias o Grupo Pedal Goiano se reúne aos finais de semana para um passeio ciclístico entre os parques ecológicos da cidade. Eles combinam entre si um ponto de encontro e, aos poucos, iniciantes e veteranos da bike vão chegando, se cumprimentando e colocando o papo em dia. Pelo menos 50 pessoas participam dessas pedaladas, que têm um percurso entre 15 e 24 quilômetros. Antes de saírem, elas recebem orientações sobre os cuidados que devem ter no trânsito para evitar acidentes, como permanecer à direita das vias, não andar em zigue-zague e, como não há seta, sinalizar as conversões com os braços. O espírito de união prevalece. Todos pedalam juntos.

O advogado Eduardo da Costa Silva, de 34 anos, é um dos idealizadores do grupo criado em 2010 com o objetivo de divulgar os benefícios do ciclismo para a saúde, trânsito e meio ambiente, além de ser pioneiro no sentido de conscientizar a população e o Poder Público sobre a necessidade da implantação de ciclovias em Goiânia.

A página do Pedal Goiano no Facebook tem mais de 5,6 mil seguidores. “Esse trabalho de mobilização é feito durante a semana através das redes sociais e no fim de semana nos reunimos para praticar a nossa paixão. Também queremos levar a sociedade a refletir sobre o uso excessivo dos automóveis. Tem gente que pega o carro para comprar pão a duas quadras de casa”, repreende.

“A bicicleta proporciona uma sensação indescritível de liberdade. É possível contemplar a natureza e perceber detalhes na paisagem urbana que habitualmente no carro não vemos”, compara. Eduardo, que pedala desde criança, diz que a ‘magrela’ é sinônimo de qualidade de vida para seus adeptos. Ele perdeu 18 quilos andando de bike e também fazendo reeducação alimentar. De uma a duas vezes por semana o advogado vai de bicicleta para o escritório onde trabalha. Leva uma mochila e troca de roupa quando chega lá. Na volta para casa, ele costuma sair meia hora mais cedo, optando por uma rota com menor fluxo de veículos. Além de não poluir o ar nem gastar dinheiro com gasolina, na disputa com o carro, ele chega sete minutos mais cedo.

Falta de segurança

No entanto, apesar da série de vantagens em relação aos automóveis, a falta de segurança no trânsito é um grande obstáculo no caminho dos ciclistas. Na escala de “vulnerabilidade”, eles vêm logo atrás dos pedestres e estão, de certa forma, desprotegidos sem uma cobertura de metal.  “O nosso maior medo é em relação à integridade física. Muitos motoristas acham que os ciclistas são intrusos nas ruas e que nós deveríamos trafegar na calçada. Não vemos campanhas educativas citando a bicicleta”, avalia. Pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) o veículo maior é responsável pelo menor, mas não é o que acontece na prática. Além do desrespeito dos motoristas em geral, a falta de ciclovias em Goiânia reforça essa insegurança, à medida que eles precisam “disputar” espaço com os carros.

A descoberta de uma paixão

Para espantar a tristeza e até uma possível depressão após o fim do casamento de 20 anos, a artista plástica Cristina Lombardi, de 42 anos, comprou uma bicicleta e foi pedalar para ocupar o tempo. Ela começou por diversão com uma bike simples e logo se apaixonou. Foi se identificando, fazendo novos amigos e aprendeu a fazer trilhas de mountain bike nos encontros com o Pedal Goiano. Orgulhosa, Cristina conta que está cheia de ‘manhas’. “Depois que você vai pedalando com pessoas que pedalam em nível melhor, você vai evoluindo. Comecei com uma bicicleta bem simples, e depois comprei uma específica pra trilha de 27 marchas com pneu grosso para não derrapar. Agora quero uma para pedalar no asfalto”, comenta.

Cristina abriu mão definitivamente do carro e optou pela bicicleta como meio de transporte. Nos trajetos mais longos, vai de táxi. “Acho que é uma escolha que contribui muito com o trânsito chego nos lugares com muita agilidade e além disso não gasto com combustível, IPVA e seguro”, define. Por incentivo dela, dois filhos também aderiram ao ciclismo. “Andar de bicicleta traz saúde, alegria de viver, libera endorfina (hormônio da felicidade). É muito prazeroso sentir o vento no rosto. Nós aprendemos a pedalar na infância e depois vamos perdendo isso com o tempo. Acho que o Poder Público deveria investir na criação de ciclovias para resgatar isso e acabar com esse sufoco tremendo no trânsito”, conclui.

Ciclovias reduzem gastos públicos com saúde

De acordo com o diretor técnico do Detran, Horácio Mello, é preciso romper o modelo viário vigente que elegeu o carro como meio de transporte predominante e símbolo de poder e status social. Segundo dados do órgão, uma frota de mais de 1,3 milhão de veículos circula pelas ruas da capital, na proporção assustadora de quase um carro para cada habitante. “Cada vez mais incentivadas por esse modelo, que oferece incentivos fiscais, descontos e parcelamentos, as pessoas compram seus carros para realizar um sonho de consumo. Goiânia é uma característica disso, com mais de um milhão de automóveis. Daqui a pouco cada um vai ter seu carro. É impossível construir vias nesse ritmo”, pondera.

O investimento na construção de ciclovias pode resultar na redução de gastos com saúde pública, poluição e congestionamentos. Para cada dólar investido em estruturas cicloviárias, outros 24 (o equivalente a R$ 62) deixam de ser gastos pelo Poder Público. Foi o que concluiu estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia e publicado pela revista norte-americana científica Environmental Health Perspectives, do Instituto Nacional de Ciências de Saúde Ambiental. Para os pesquisadores, em longo prazo a implantação das ciclovias reduziriam os índices de mortalidade por todas as causas.

No caso da opção pelas ciclovias segregadas das pistas automotivas seria reduzido o limite de velocidade dos veículos. Com este cenário, a quantidade de viagens realizadas de bicicleta aumentaria 40% até 2040, amenizando impactos no trânsito e a poluição ambiental. Segundo Horácio, gestores públicos do mundo inteiro vêm despertando para a busca de alternativas. “Não só os países ricos, mas também os da América do Sul, como a Colômbia, Chile e o Brasil vêm incentivando a busca de outros modais de transporte, seja o modal coletivo de massa como metrô, Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ou também o transporte individual que não polua, que não provoque congestionamento e ainda por cima seja saudável como a bicicleta.

É fundamental que o Poder Público faça seu papel constitucional de garantir a segurança no trânsito dessas pessoas que fazem a opção pela bicicleta o que está previsto no Artigo 1º do CTB e mais ainda incentivar para que possamos criar cidades sustentáveis onde as pessoas se locomovam sem tantos congestionamentos e acidentes como existem hoje”, enfatiza.

Travessia mais segura

Para atender à demanda de ciclistas no perímetro urbano de Goiânia, a Agetop implantou, em 2013 e 2014, ciclovias nas GOs 020 (que dá acesso ao município de Bela Vista), 060 (saída para Trindade) e a 403 (entre Goiânia e Senador Canedo), respectivamente com 52, 14,8 e 10 quilômetros de extensão. Todos os trechos foram duplicados e revitalizados com recursos do Programa Rodovida Construção ou Rodovida Reconstrução, ganharam sinalização e iluminação pública.

A GO-020, que foi duplicada, é um caminho muito utilizado para o treinamento e lazer de ciclistas amadores e de alto nível. Além disso, como lembra Horácio, as pistas também atendem moradores das áreas rurais que trabalham na capital. “É uma preocupação social de valorizar o ciclista tanto para a prática esportiva quanto para o deslocamento do trabalhador que nas áreas rurais faz a travessia desses trechos de bicicleta”, diz.

O presidente da Federação Goiana de Ciclismo, João Batista Alves dos Reis, pontua que na GO-020 já foram registrados acidentes graves, inclusive com mortes, envolvendo ciclistas. Uma das vítimas foi a campeã brasileira de ciclismo Clemilda Fernandes, atropelada por um caminhão em 2013. Mas a obra trouxe segurança e deu condições de treino aos atletas. “Para nós a estrutura é de primeira. Foi um projeto pioneiro, bem ousado e possibilita o treino dos nossos atletas que participam de competições”, declara.

Incentivo
Para 2015, o Detran pretende iniciar a implantação de ciclovias, ciclofaixas ou ciclorrotas (veja quadro abaixo) em cerca de 50 cidades goianas e também doar bicicletas para a população, a fim de incentivar a prática do ciclismo. Além disso, anualmente, o órgão promove passeios ciclísticos que reúnem, em média, mais de 3 mil participantes.

Goiânia 

Em Goiânia, a Prefeitura criou ou ainda criará corredores preferenciais para o transporte coletivo nas Avenidas T-7, T-9, T-63, 85, 24 de Outubro e Independência, totalizando mais de box_ciclovia_gabrielaR$ 145 milhões em recursos federais.

Conforme projeto, serão criadas ciclovias, ciclofaixas ou ciclorrotas ao longo da extensão da avenida e em vias adjacentes.

A Avenida 10, no Setor Sul, conhecida como Corredor Universitário, é um exemplo que pode ser citado, com 2,5 quilômetros de ciclovia devidamente sinalizada, mas que ainda está longe de receber um fluxo considerável de ciclistas. Eduardo, do Pedal Goiano, elogia a iniciativa do município, mas faz críticas. “Nossas cidades foram preparadas de forma a priorizar o carro.

Apesar de o Plano Diretor de Goiânia prever mais de 140 quilômetros de ciclovias, essa lei ainda não saiu do papel. A ciclovia tem que ser feita com base em um projeto cicloviário que as integre com os terminais de ônibus. Em Goiânia, temos os terminais de ônibus com bicicletários, mas não tem a estrutura para chegar lá”, pondera.

Fonte: Goiás Agora