19 de novembro de 2014

Todos torcem para que o Macambira-Anicuns não vire a Ferrovia Norte-Sul de Goiânia



Idealizado há 11 anos, o projeto está 4% concluído, embora obras tenham sido retomadas agora. Se tudo der certo, poderá ter boa parte de sua extensão entregue no ano que vem

Não faz muito tempo, as questões ligadas à interação entre meio am­biente e as cidades ain­da não se encontravam delineadas com precisão, logo não havia a preocupação de incluir nas discussões a relação entre crescimento urbano, preservação ambiental e a qualidade de vida. Nesse contexto, as áreas urbanas verdes eram voltadas mais à estética e ao lazer do que à melhoria da vida da população. Apenas a partir da década de 1980, quando ocorreu a institucionalização da questão ambiental no aparelho estatal brasileiro, é que surgiu a necessidade de tratar o espaço urbano em constante evolução e voltar os olhos também às questões ambientais.

Goiânia, por exemplo, sempre pontuou entre as cidades mais verdes do País, mas não há muito tempo voltou-se à importância da criação de parques urbanos, não apenas para a preservação dessas faixas ambientais como também para a melhoria da qualidade de vida dos goianienses. A demora na conclusão do Programa Macambira-Anicuns é uma prova desse atentar tardio para as questões urbano-ambientais. A obra-projeto pode, em alguns pontos, ser até comparada à Ferrovia Norte-Sul, obra Federal que existe há quase 30 anos e ainda não saiu do papel.

Obviamente, a comparação é um exagero, mas serve para mostrar que o Macambira-Anicuns, assim como a Ferrovia Norte-Sul, tem uma importância primordial e, portanto, precisa efetivamente funcionar.

O histórico do projeto é, em grande parte, conhecido: idealizado em 2003 pelo então prefeito, Pedro Wilson (PT) — atual presidente da Agência Municipal de Meio Am­biente (Amma) —, o Ma­cambira-Anicuns assumiu lugar de destaque nas discussões de preservação ambiental na cidade, dado o seu tamanho. A im­portância social da obra é absoluta, sobretudo em uma capital co­mo Goiânia, cuja vegetação tem um papel muito grande em aumentar a umidade do microclima local, e que carece de espaços para serem utilizados efetivamente pelo público.

Contudo, o projeto só começou a sair do papel em meados de 2011 com a assinatura do contrato de empréstimo com o Banco Inter­americano de Desenvol­vimento (BID), além das ações da Prefeitura na parte inaugural do Parque Linear Macambira, no Setor Faiçalville. Em 2012, quase 10 anos depois da idealização do projeto, foi aberta licitação para execução da obra. A Empresa Sul Americana de Montagens S/A (Emsa) venceu a licitação para executar a primeira etapa do projeto. O valor: R$ 185 milhões. Pouco mais de três meses depois, a empresa pediu aditivo no contrato em relação tanto na previsão de entrega, até então 210 dias, quanto no valor a receber.

A Prefeitura e o BID negaram o aditivo. A Emsa, então, abandonou a obra e o distrato do contrato passou a ser discutido na Justiça, o que, consequentemente, atrasou a realização de uma nova licitação e a continuação da obra, visto que o distrato foi concluído no ano passado.

A nova licitação só ocorreu neste ano, em que o consórcio formado pelas empresas Sobrado Construção, GAE e Elmo venceu sem ter tido qualquer concorrente. As duas primeiras empresas têm ou já tiveram alguma ligação com o Paço Municipal: a Sobrado Cons­trução é ligada à Tecpav — empresa contratada pela Prefeitura para locação de veículos, como caminhões compactadores para a coleta de lixo urbano; e a GAE foi a empresa responsável pela construção dos viadutos que passam pela Marginal Botafogo e Rua 88, no Setor Sul. As obras tiveram certa polêmica, visto que chegaram a ser paralisadas por falta de pagamento.

Feita a licitação, as obras já foram retomadas e, segundo a Prefeitura, o que a Emsa fez está sendo aproveitado, sobretudo as obras de drenagem. Há dois pontos principais de trabalho atualmente: no início de onde será o Parque Linear Macambira — que soma também o Parque Ambiental Urbano Macambira —, no Setor Faiçalville; e entre o Setor Novo Horizonte e o Residencial Granville, onde será instalado um dos vários núcleos socioambientais previstos.

No Setor Faiçalville, já há algumas obras prontas — que fazem parte dos 4% concluídos, dos quais 2% foram finalizados pela Emsa: as Avenidas Independência e Nadra Buifalçal, que se encontram logo no início do Parque Linear. Além disso, há um esboço do que será uma pista de caminhada em torno do Parque Ambiental Urbano Macambira. Há algumas máquinas no local, entretanto, funcionando de maneira tímida — na quinta-feira, 13, estavam paradas, mas um funcionário disse que era devido às chuvas do dia anterior.

Mesmo assim, algumas pessoas já utilizam a pista ainda sem calçamento para caminhar. Às 9 horas, Ricardo Justino dos Santos caminhava pela pista de “cooper” ainda por fazer. Morador da região há mais de 20 anos, ele diz que o parque é necessário para trazer qualidade de vida ao setor e informa que sempre caminha no local, mesmo que a pista não esteja pronta. “Há anos esperamos pelo parque”, declara.

O professor de História Daniel Neves, que também mora nas proximidades de onde será o parque, afirma: “Ser for como imagino, essa construção vai valorizar a região atrair mais comércio. Só não podem abandonar o projeto como fizeram em 2012”. Mas isso não deve acontecer, pelo menos é o que garante o coordenador da unidade executora do Programa Urbano Ambiental Macambira-Anicuns (Puama), Nelcivone Melo.

Segundo ele, o consórcio começou a trabalhar em setembro e tem dois anos para executar as obras, sendo que, até o momento, tem operado no ritmo normal. “Até 2016, será comum ver obras no trecho entre o Setor Faiçalville e a Avenida Milão, no Jardim Europa”, conta. Esse trecho representa os setores 1, 2 e 3, que formam a primeira etapa do projeto.

Nos setores 4 a 11 ainda não houve licitação, o que só deverá acontecer após 2016, independente de quem seja o prefeito — Paulo Garcia (PT) não pode mais se reeleger. O setor 4 abrange da Av. Milão, no Jardim Europa, às proximidades da Vila Mauá. O último — 11 — compreende o trecho entre a ponte que passa sobre o Ribeirão Anicuns, na Av. Marechal Rondon, que divide os setores São Luís e Norte Ferroviário, e o Setor Urias Magalhães.

Inaugurações ainda em 2014? 

Orênio Neves de Souza, o engenheiro civil da unidade executora do Programa Urbano Am­biental Macambira-Anicuns (Puama) responsável pela fiscalização das obras, diz que a continuação da Avenida Parque, que ligará a Rua Miguel do Carmo, no Residencial Granville, à Avenida Milão, no Jardim Europa, pode ser inaugurada já no mês que vem.

A Avenida Parque faz parte do projeto, pois passará pelo núcleo socioambiental que será construído no local e que contará com alguns equipamentos urbanos para atender à população. Além disso, Neves informa que a inauguração rápida do trecho é necessário, uma vez que o bueiro da Rua Miguel do Carmo, que liga os setores Rio Formoso e Novo Horizonte, terá que ser reconstruído, logo, interditarão a ponte sobre o Córrego Macambira.

A reconstrução do bueiro vai ao encontro do que há está sendo feito no local, como conta Neves: “Optamos por fazer obras estruturais, pois havia grandes erosões, que, inclusive, estavam ameaçando os imóveis das pessoas. Além disso, também fizemos obras de drenagem para evitar alagamentos. Estamos realizando tudo isso para depois fazer as pistas, caso o contrário, iríamos desfazer aquilo que já havíamos feito”.

Projeto:



Fonte: Jornal Opção (Marcos Nunes Carreiro)