20 de outubro de 2014

E se o ebola chegar em Goiás?


Estado tem unidade de referência para combater a doença, o que poderia atrair corrida no Brasil por atendimento no Estado

De tempos em tempos, a humanidade cria seus inimigos invisíveis: os micro-organismos não perdoam alvos. Humanos ou animais, eles simplesmente invadem, habitam, parasitam e destroem.

Bactérias e vírus, principalmente, se comportam como piratas celulares que atacam o organismo, minando defesas e facilitando a incidência de doenças oportunistas.

Na última segunda-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta: o vírus ebola se espalha “exponencialmente”. Na Libéria, informa o órgão das Nações Unidas (ONU), milhares de novos casos são esperados até a primeira semana de outubro.

Na natureza não existem alfândegas nem barreiras. Vírus não falam línguas nem escolhem países. Apenas chegam. E se o ebola, então, chegasse ao Brasil? Ou mais específico, em um Estado como Goiás?

O Hospital de Doenças Tropicais (HDT) seria estratégico na defesa dos goianos e devido ao grau de excelência em seu atendimento poderia atrair moradores de outros Estados. De imediato, todos os olhares se voltariam para esta unidade de saúde. Conforme a gerente médica Analzira Nobre, existem apenas oito hospitais semelhantes no Brasil. Ou seja, faltariam unidades para cuidar de todo País. E os hospitais goianos que já são procurados normalmente teriam uma demanda ampliada.

“O HDT seria referência regional e nacional. Ele é estratégico para a população, pois a partir de qualquer ameaça infecciosa da população, nós somos referência. O HDT deve se responsabilizar, assim, por qualquer surto ou doença infecciosa”, explica a médica.

Analzira Nobre diz que é pequena a chance da chegada do ebola em Goiás. Mas ela não descarta: “Em termos de possibilidade não devemos usar a palavra nunca. Mas a chance é pequena.”

Vigilância

A gerente informa que como o HDT é um hospital importante para a vigilância, os casos seriam concentrados nele. “No caso de ebola dentro de Goiás, precisaríamos dessa centralização que este hospital oferece. A doença é altamente virulenta, de letalidade muito grande.”

O HDT concentraria, assim, ações de combate, pesquisa e prevenção. Seria uma espécie de bunker em meio à guerra contra o invisível. Desta forma, diz a médica ao Diário da Manhã, o hospital seria estratégico para conter o avanço da doença e, talvez, tentar o tratamento, ao entrar em contato com outros países que atuam na busca de uma vacina.

Até agora, apenas o boato se espalhou na população. Em agosto, o Ministério da Saúde emitiu nota para esclarecer que as informações que circulavam nos celulares, por meio do WhatsApp, são falsas.

Nenhum nigeriano, portanto, foi internado no Maranhão e disseminou a doença no País. Nenhum haitiano também. O boato serviu apenas para suscitar um outro aspecto científico, mas sociológico: o preconceito à flor da pele que temos com os negros imigrantes que chegam ao Brasil.

A epidemia que caminha para o registro de 2.288 mortes pelo mundo é perigosa, mas não deve causar pânico, esclarece a infectologista Otília Lupi, da Fundação Oswaldo Cruz. Lupi ainda informa que a doença mexe com o “imaginário das pessoas e o medo da doença é motivado pelo fato dela nos lembrar da morte”.

A imagem mais distante é a peste – horripilante e medieval que obrigava os médicos a andarem com vestes negras e uma máscara em forma de bico. O Sars seria o mais recente: midiático, que não chegou no Brasil.

ZONAS RURAIS

Conforme Lupi, o ebola saiu das zonas rurais e começou a ameaçar as áreas mais urbanas, o que ampliou a matemática da epidemia. “O mundo hoje é muito pequeno e precisamos acompanhar tudo que está acontecendo. Para se preparar e para cooperar”, diz.

A infectologista informa que a doença é considerada grave, pois tem tirado a vida de cerca de 60% das pessoas contaminadas. Conforme a OMS, o maior surto ocorreu na África Ocidental. A doença rapidamente se espalhou, principalmente em equipes médicas e de atendimento. Enfermeiros e médicos passaram a ser vítimas e na maioria dos casos acabaram morrendo em contato com o vírus.

Guiné, Serra Leoa e Libéria são os países mais afetados. A incidências de mortes aumentou nos últimos dias, informou a OMS. A metade ocorreu nas últimas três semanas. Se no Brasil a narrativa é de susto e temor, em Serra Leoa é de coragem para muitos enfermeiros que continuam militando na guerra.

O principal erro do combate inicial foi uso simples de óculos Lassa. Os agentes de saúde se esqueceram do restante do rosto, permitindo o ataque dos vírus. A enfermeira Sellu, por exemplo, perdeu 15 amigos da equipe médica. Só restou ela.

Vírus já passou por 300 mutações

O vírus ebola é de fita simples, com genoma de RNA. Na literatura biológica, os vírus RNA de cadeia simples podem ser de três formas: vírus de cadeia positiva, negativa e retrovírus.

O ebola é negativo e envelopado, ou seja, quando rompe as células hospedeiras, carrega camadas de proteínas destas células, os envelopes. Ser negativo significa que ele sintetiza RNA positivo a partir do RNA que chega dentro do capsídeo. Sintetizar significa produzir, se organizar internamente para construir novos microorganismos.

Dentro das células, ocorre uma série de procedimentos naturais cuja meta é empacotar novos vírus e depois arrebentar a parede celular, liberando novos capsídeos. Hantavírus e influenza são exemplos de vírus cadeia negativa.

Entender o vírus ebola é uma das ações mais complexas para os cientistas, pois ele tem sofrido mutações constantes. Artigo publicado no começo do mês na revista Science diz que o micro-organismo teve até agora 300 modificações desde o surto de 1976, que ocorreu também na África. Por isso quando uma equipe entende a doença, ela já se modificou.

O vírus costuma afetar primeiro o fígado e a vascularização do corpo. Seus sinais são característicos de outras doenças: febre alta, anorexia, náusea, dor abdominal, calafrios, dor de cabeça, dor de garganta e prostração. Dentro das células e sob os tecidos dos órgãos, todavia, ocorre uma luta interna: células endoteliais, fagócitos mononucleares e os hepatócitos dos humanos – células do fígado que sintetizam proteínas – são atacadas pelo ebola.

Ele chega e produzir a glicoproteína segregada (SGP), que começa a interferir nas células humanas. A superfície interior dos vasos sanguíneos, formada pelas células endoteliais atacadas, por exemplo, começam a sofrer transformação. Aos poucos, as células passam a liberar citocinas com a inflamação e a crise de imunidade se intensifica. O corpo entra em colapso.

Como evitar

Uma das formas de impedir o contágio é evitar o contato com sangue ou secreções corporais – vômito, urina, fezes, etc. Ingerir carne infectada também produz a doença. Parentes contaminados e equipe médica são os mais passíveis de propagação do vírus.

A febre hemorrágica é nada mais do que as microlesões vasculares e suas complicações. Ao se identificar a doença a equipe médica deve pedir isolamento do suspeito. É a chamada quarentena. Não existe ainda uma vacina eficaz contra a doença.

saiba mais
Se o vírus chegar...

...Goiás tem o Hospital de Doenças Tropicais (HDT), um dos oito centros médicos preparados para agir rapidamente contra focos infecciosos.

...inúmeros pacientes migrariam para o Estado em busca de atenção médica. Já é comum isso acontecer, com unidades de referência, caso do Hospital do Câncer e Crer.

...a rede privada talvez não teria a capacidade e agilidade para realizar as investigações necessárias.

...o paciente será analisado, como o HDT já fez com uma mulher, que foi a primeira suspeita. Ela foi até Moçambique em missão religiosa e voltou com fortes suspeitas. Mas a equipe médica não confirmou a doença. O fato ocorreu no início de agosto.

....se o paciente estiver em uma cidade do interior deve urgentemente buscar auxílio médico e, se constatada a suspeita, deve encaminhar com urgência o paciente para o HDT.

Fonte: DM (WELLITON CARLOS)