1 de agosto de 2014

Transporte coletivo: Discussão volta à tona com novos corredores


A implantação de mais cinco corredores para o transporte coletivo de Goiânia e finalização do Corredor na Avenida T-63 volta a gerar insatisfação em comerciantes localizados nas vias que vão ganhar as obras de mobilidade. A maior discussão é por espaço, ou seja, estacionamento. Com redução das vagas devido aos corredores, lojistas temem perder a clientela que não teria lugar para parar o veículo. Para corroborar com a ideia, utilizam o exemplo de lojas fechadas na Avenida T-63 desde o ano passado, além da mesma situação nas Avenidas T-7 e T-9, que já estão com estacionamento proibido.

O receio é tanto que o projeto do corredor preferencial na Avenida 24 de Outubro, no Setor Campinas, ainda nem está pronto e já é questionado por proprietários de comércios da via. O vice-presidente da Associação dos Empresários de Campinas, William Marcório, diz que os comerciantes temem que muitas lojas tenham de ser fechadas, de acordo com o que teria ocorrido na Avenida T-63. “Aqui não existe problemas de fluidez de trânsito, nem mesmo tem congestionamento, o único problemas que temos é a falta de estacionamento e o corredor do ônibus vai tirar justamente isso.”

Atualmente, na 24 de Outubro, o estacionamento é alternado, ou seja, é permitido em uma quadra e na seguinte não, onde justamente há os pontos de ônibus. Marcório explica que muitos comerciantes dizem que as decisões da Prefeitura para o Setor Campinas são feitas sem diálogo e que não resguardam o comércio da região. O coordenador de Implantação dos Corredores Preferenciais da Companhia Metropolitana do Transporte Coletivo (CMTC), Domingos Sávio Afonso, relata que o projeto será sim debatido com a sociedade organizada assim que ele estiver definido. “Estamos agora mobilizados com a finalização do projeto para a Avenida T-7, não há uma data para trabalharmos com a 24 de Outubro”, conta.

Presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Goiás (Acieg), Helenir Queiroz, diz que os empresários são favoráveis aos corredores, mas que eles devem ser feitos em diálogo com os comerciantes. “Na Avenida T-63 não teve negociação. Fizeram sem definir pontos de carga e descarga e rebaixamento das calçadas. O Corredor Universitário não teve tantos problemas porque foi mais planejado.” Em março do ano passado, quando o Corredor T-63 passou a funcionar e o estacionamento a ser proibido, os comerciantes organizaram diversos protestos, pois afirmavam estar no prejuízo.

Prioridade para os ônibus

A principal reclamação onde o sistema já foi instalado é a de que o corredor preferencial afasta os motoristas de carro. As queixas persistem até hoje. Um vendedor de uma loja de colchões afirma que as vendas reduziram em até R$ 5 mil mensais desde a implantação do corredor.

Na T-63, o principal problema se dá entre a Praça da Nova Suíça e a ponte sobre o Córrego Cascavel, em que muitas lojas fecharam a porta após a instalação do corredor, embora não se possa confirmar, de fato, a relação entre os casos. Também no Corredor Universitário, as reclamações foram constantes em 2011, com a utilização da via com o corredor. Os motoristas teriam medo de trafegar na faixa do ônibus, mesmo no espaço permitido, pelo receio das multas.

Segundo o coordenador de Implantação dos Corredores Preferenciais da CMTC, Domingos Sávio Afonso, a Prefeitura optou por dar mais fluidez ao transporte coletivo. “Tentamos minimizar ao máximo os problemas com outros segmentos. Valorizamos os clientes dos comerciantes, pois melhoramos o acesso via transporte público, em velocidade e conforto, como instalação de câmeras de seguranças e pontos de embarque melhores”, explica.

Subsolo e taxação de espaços

Presidente da Acieg, Helenir Queiroz diz que os corredores melhoram a fluidez de trânsito, mas não trazem comodidade ao usuário e, até por isso, não fazem com que as pessoas deixem de usar os carros. “A solução é fazer concessão de longo prazo, como 20 anos, para estacionamentos no subsolo da iniciativa privada e aí sim instalar os corredores.” O coordenador do Movimento Nacional pelo Direito do Transporte Público de Qualidade Para Todos (MDT), Nazareno Affonso, discorda e afirma que as pessoas vão deixar de usar o carro quando tiverem que pagar pelo o que ele significa.

Affonso reforça que os locais em frente às lojas não são de propriedade do comerciante, mas são usados para o seu bem. “No dia em que o comerciante tivesse que pagar um imposto pelo uso do solo pelos seus clientes ou por ele mesmo, haveria um outro entendimento sobre os corredores”, explica. Ele diz que se a Política Nacional de Mobilidade Urbana fosse cumprida à risca, apenas 30% de todo o sistema viário seria disponibilizado aos carros.

Especialista critica discurso de comerciantes

Para os comerciantes, a instalação dos corredores nas Avenidas T-7 e T-9 deve sacramentar o fim do comércio de rua. Há três anos, o estacionamento nas duas vias foi proibido e, desde então, empresários relatam quedas nas vendas e muitas reclamações de clientes que buscam um lugar cômodo para estacionar o veículo. A proprietária de uma farmácia na Avenida T-9, Viviane Escobar, de 30 anos, participou da transição entre os dois períodos e afirma ter tido queda nos rendimentos, tal qual o dono de uma padaria na mesma via, Maurício Alves Ferreira, de 58.

A principal reclamação de Maurício é que as duas vagas de estacionamento que possui são sempre ocupadas por clientes dos bancos próximos. “Os bancos não se preocupam com estacionamento porque tem a clientela fixa e pouco importa, mas aí as pessoas vão estacionar aqui, tomando a vaga por um bom tempo e sem comprar nada.” Viviane conta que muitos clientes param o carro na porta da farmácia, perguntam o preço de algo, mas dizem que não vão comprar porque não podem parar ali. “Não temos o que fazer, já penso em sair daqui”, diz ela.

Coordenador do Movimento Nacional pelo Direito do Transporte Público de Qualidade para todos (MDT), Nazareno Affonso aponta que o discurso dos comerciantes é falho e parece que eles não conhecem seus clientes ou potenciais clientes. “O estacionamento pode ajudar, mas não faz diferença, ainda mais uma ou duas vagas. E se os clientes deles forem as pessoas que moram próximas? E quem garante que o cliente não pode parar um pouco mais longe e ir caminhando, ainda mais se uma via for própria para isso, em uma readequação urbana?”, questiona.

O MDT defende que seja proibido o estacionamento em todas as vias em que há transporte coletivo, como nas áreas centrais da cidade, em que as pessoas se locomoveriam pelas faixas preferenciais. Desta forma, o Poder Público deveria criar facilidades para localizar estacionamentos fora dessas áreas, de modo que o cidadão deixasse seu carro em certo ponto e depois seguiria o caminho com o transporte coletivo. “A pessoa continuaria usando seus carros em horários alternativos, finais de semana, levando um familiar ao médico ou para viajar.”

A Prefeitura trabalha para a execução de seis corredores preferenciais para o transporte coletivo da região metropolitana de Goiânia. Os projetos apresentados pelo Paço foram aprovados pelo Ministério das Cidades, em um investimento de cerca de R$ 170 milhões. A expectativa da CMTC é que as licitações para a execução dos corredores nas Avenidas T-7, T-9, T-63, 85, Independência e 24 de Outubro sejam realizadas ainda neste semestre. Os primeiros a serem feitos são nas Avenidas T-7 e T-9.

Fonte: Jornal O Popular