6 de agosto de 2014

Polícia perde 24 horas atrás de denúncias falsas


Onda de informações falsas ou mal interpretadas se espalha pelas redes sociais e pode atrapalhar investigações sobre mortes de mulher

Se dependesse dos boatos espalhados pelas redes sociais, entre o último domingo e ontem, o suposto serial killer que estaria atuando em Goiânia já teria matado 21 e não 12 mulheres nos últimos seis meses. Mensagens compartilhadas via Facebook, Whatsapp e outros aplicativos davam conta de que, ontem à noite, já haviam sido registradas várias outras mortes de mulheres atribuídas ao suposto matador em série. Algumas davam até detalhes, como a localização exata de onde o suposto crime teria acontecido.

Denúncias falsas, informações mal interpretadas – e disseminadas sem critérios –, boatos criados não se sabe por quem, espalhados na internet, além de aumentarem o clima de pânico na cidade, atrapalham as investigações sobre os assassinatos em série de jovens mulheres na capital. “Essas mensagens são uma questão que nos preocupou muito nas últimas 24 horas. Tanto a Polícia Militar quanto a Polícia Civil e a Delegacia de Homicídios passaram as últimas 24 horas atrás de informações inverídicas e falsas. Isso demanda perda de tempo e gasto para as corporações. Não é isso que a sociedade quer”, ressaltou o superintende da Polícia Judiciária, delegado Deusny Aparecido Silva Filho, em entrevista à imprensa pouco antes da primeira reunião da força-tarefa montada para esclarecer as mortes em série de mulheres.

Uma das falsas denúncias espalhadas nesses últimos dias chegou a afirmar que o assassino em série teria sido preso. Entretanto, nenhuma das informações foi confirmada pela polícia.

Para o analista em Mídias Digitais Jayme Diogo, boatos como esses podem gerar um grande caos, pois quase sempre ninguém se importa em checar a veracidade da informação. “Tudo isso causa uma histeria e aumenta ainda mais a sensação de insegurança. Por mais que as pessoas se sintam no direito de informar as outras a respeito de um suposto serial killer, disseminar esses boatos só aumentará o pânico. Deve-se pensar mais de uma vez antes de se repassar esse tipo de conteúdo”, enfatiza o especialista.

Mestre em Psicologia, Philipe Gomes Vieira aponta que “boatos alimentam os medos e as fantasias das pessoas. Isso pode ser uma tentativa de encontrar respostas para perguntas que, até o momento, não foram sanadas. Ficar divulgando esses boatos, sem avaliá-los, pode ser uma maneira inconsciente de externar os próprios anseios a fim de que a situação se resolva”, avalia ele.

Philipe também se preocupa com um possível estímulo de crimes devido à propagação de notícias inverídicas relacionadas aos assassinatos de mulheres que estão sendo investigados. “Além desse desperdício de tempo ocasionado por pistas desprovidas de evidências, a população, de modo inconsciente, pode estar estimulando novos crimes, já que toda a atenção passa a voltar-se para os feitos do tal homicida”.

Crítica

Deusny também criticou especialistas em segurança que têm comentando sobre as investigações dos casos, principalmente em relação ao exame de balística que poderia indicar se foi uma mesma arma que efetuou os disparos contra as todas as mulheres. “Estão querendo nos ensinar a trabalhar. A balística, a comparação, é apenas uma forma de fazer [o trabalho] e é claro que vamos fazê-lo”, ressalta.

A intenção do delegado é manter sigilo absoluto nas investigações. “Isso, a meu ver, não interessa a sociedade. A população quer que a polícia esclareça e prenda o autor. Como a nós chegamos lá, não podemos informar”, diz.

Deusny explica ainda que essas informações só interessam ao autor dos crimes, que com elas terá instrumentos para mudar a maneira de agir.

Força-tarefa define estratégias de trabalho

Delegados e agentes da Polícia Civil que integram a força-tarefa montada para investigar os recentes assassinatos de mulheres em Goiânia, supostamente cometidos por um serial killer, se reuniram ontem pela primeira vez. O encontro foi realizado na sede da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) e serviu para delinear como serão comandadas as investigações com o reforço de mais seis delegados aos nove que Delegacia de Investigação de Homicídios (DIH) conta e aproximadamente 23 agentes e escrivães que irão participar de uma força tarefa para chegar ao autor dos crimes.

A reunião realizada a portas fechadas no auditório da SSP, e foi comandada pelo superintende da polícia judiciária, Deusny Aparecido Silva Filho. No encontro ficou definido que cada delegado deve ficar com um ou dois casos e que trabalharão de forma colegiada, trocando informações constantemente já que os dados ou característica de um caso podem contribuir para a resolução de outro.

Na reunião também foi reforçada a necessidade de chegar ao autor dos crimes o mais rápido possível, devido à comoção que os crimes têm provocado na sociedade. O delegado Murilo Polati, titular da DIH, irá coordenar a força tarefa.

Vídeo

Dos participantes do encontro quem falou com a imprensa foi o delegado Deusny Aparecido. Ele ressaltou que a resolução de um homicídio é complexa. Sobre o vídeo que flagra o suposto serial killer, ele apenas ressalta que será investigado pelos delegados, mas não comenta de que forma que o material pode contribuir nas apurações. O vídeo feito no último sábado, 2, mostra a estudante Ana Lídia de Souza, de 14 anos, a caminho do ponto. Um motociclista passa em seguida e logo após é flagrado voltando novamente em alta velocidade, momentos depois da execução da garota.
12 casos

Sobre os assassinatos, Deusny diz que até agora 12 casos semelhantes estão sendo investigados pela Polícia Civil. Para os crimes ele não descarta nenhuma hipótese de motivação dos crimes e diz que não é possível afirmar se apenas uma pessoa esteja executando mulheres na Capital, porque as informações até agora dos casos são “genéricas”. Disse que a estratégia dos delegados será o trabalho em grupo. (Marcelo Tavares)

Governo vai prestar assistência a famílias

A força-tarefa criada pelo governador Marconi Perillo para investigar a morte de mulheres em Goiânia ganhou ontem o reforço da Secretaria de Estado de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial (Semira), que vai prestar suporte psicológico às famílias das vítimas. A assistência será prestada pelo Centro de Referência da Igualdade, que está colocando psicólogos à disposição das famílias. Segundo a titular da Semira, Gláucia Teodoro Reis, as equipes da Centro de Referência da Igualdade estão agendando visitas às residências das famílias, com prioridade para as de menor renda. Segundo a secretária, as visitas ajudarão a definir o tipo de suporte psicológico a ser oferecido a cada família, bem como os demais profissionais necessários para esse fim.

Ao adotar as medidas, o governador afirmou que a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Civil devem usar todo o aparato tecnológico e de inteligência necessários para desvendar os crimes e apresentar os responsáveis pelas mortes das mulheres. (Semira)

Fonte: Jornal O Hoje (Adriano Zago e Marcelo Tavares)