13 de julho de 2014

Urbanismo e Cultura: Goiânia tem ou não tem uma identidade?


Debate em torno de ícones, símbolos e comportamento que identificam a capital e seus moradores divide a opinião de historiadores, antropólogos, jornalistas, produtores culturais e críticos literários

Ao visualizar a estátua do Laçador ou o monumento aos Açorianos diante do prédio do Centro Administrativo do governo gaúcho, logo identificamos Porto Alegre. A Ópera de Arames e o Jardim Botânico de Curitiba evidenciam a alma da capital paranaense. O Viaduto do Chá, Avenida Paulista, Edifício do Banespa e o Parque Ibirapuera remetem à maior cidade brasileira, São Paulo. O Pelourinho, o Elevador Lacerda e o Forte São Marcelo são marcas de Salvador.

Os prédios em arquitetura europeia trazida por Maurício de Nassau são símbolos e orgulho do Recife. A Lagoa da Pampulha é a marca de Belo Horizonte. O Teatro Amazonas em Manaus e o Mercado Ver-o-Peso em Belém são ícones de ambas as metrópoles amazônicas. O Rio de Janeiro dispensa apresentações simbológicas, afinal de contas o Corcovado e o Pão-de-açúcar representam o Brasil ao redor do mundo.
E Goiânia, que monumentos, praça, prédios e marcos históricos identificam esta capital ao restante do Brasil e no exterior? O goianiense teria alguma identidade, ou seja, são facilmente reconhecidos por seus costumes, músicas, pensadores ou movimentos culturais? A capital goiana com pouco mais de 80 anos de existência, ainda jovem no universo das centenárias urbanidades brasileiras, teria sua identidade formada? Essas e outras questões são alvo de debate.

Antes de buscar respostas, primeiramente é necessário resgatar a linha histórica no qual se constituiu Goiânia como capital. A começar pelo fato de a cidade ter sido concebida após o triunfo da Revolução de 30, quando existia a vontade política de fazer a transferência da então capital — cidade de Goiás — para outro local. Derrotada as velhas oligarquias, o interventor federal no Estado daquela época, o médico Pedro Ludovico Teixeira, tomou a iniciativa de materializar a transferência do centro do poder da histórica Vila Boa para um local plano, numa área abundante de recursos hídricos, que proporcionaria a concepção da mais moderna cidade do País nas décadas de 30 e 40 do século passado.

Em dezembro de 1932 foi criada uma comissão para escolher o local em que seria construída a nova sede estadual do poder político. Várias paragens foram sugeridas, como Bonfim, hoje município de Silvânia, e Pires do Rio. O relatório da comissão apontou um sítio nas proximidades do povoado de Campinas — hoje, um bairro de Goiânia —, como lugar ideal para a edificação da nova capital. Planejada para pouco mais de 50 mil habitantes, a planta urbanística dividia a cidade em três setores: o centro, destinado à administração; o norte, destinado ao comércio e indústria; e o sul, estritamente residencial.

Em 24 de outubro de 1933 foi lançada a pedra fundamental da construção, num gesto simbólico que marcou a fundação da nova cidade. Em 2 de agosto de 1935, por meio de decreto estadual foi criado o município de Goiânia. A inauguração oficial só aconteceria em 5 de julho de 1942, quando foi realizado, no Teatro Goiânia, o batismo cultural da nova capital de Goiás. Justamente em busca de uma identidade, neste caso cultural, a cidade nascia no coração do Planalto Central e se apresentava ao restante do Brasil.



Estereótipo sertanejo

De fato, a figura do goianiense e da própria cidade está envolta a estereótipos aos olhos de quem os enxergam de fora. A impressão que se passa é que Goiânia é uma espécie de “Dallas cabocla”, um moderno espaço urbano verticalizado em meio a uma atmosfera rural. Tal caricatura, por hora equivocada, pode ter sido reforçada pelas várias duplas sertanejas — Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Guilherme e Santiago e Chrystian e Ralf —, verdadeiros fenômenos populares, que tiveram origem na capital e divulgam a cidade por meio das letras de suas músicas, em shows ou em programas televisivos de grande audiência, como os de auditórios que vão ao ar nas tardes de domingo.

Atribuir apenas aos artistas da música sertaneja a consolidação do estereótipo caipira da cidade ao restante do Brasil seria uma grande injustiça. Grandes difusoras de ideias rasas, caricatas e mambembes, as telenovelas também têm sua parcela de culpa. O atual folhetim que vai ao ar a partir das 21 horas retratou Goiânia de forma tão descabida que, possivelmente, há telespectadores que realmente acreditam que na cidade os automóveis dividem espaço com cavalos montados por peões de comitivas, charretes, carroças e demais veículos de tração animal.

Logo Goiânia, uma capital em que há em média um carro para cada 1,6 habitante. Uma cidade apaixonada por automóveis, onde não é raro ver trafegar em suas ruas, avenidas e alamedas verdadeiras joias sobre rodas, como Ferrari, Aston Martin, Porsche, Jaguar, Bentley e uma infinidade de SUVs e caminhonetas em geral. Aliás, esta última, constitui-se numa paixão dos goianienses.

Goiânia é muito além do estereótipo caipira, apesar de que há de fato a valorização da cultura e dos costumes do campo, seja pela forte ligação entre parte de seus moradores com o meio rural ou pelo próprio estilo interiorano do goianiense de levar a vida. Para alguns, a cidade ainda persegue uma identidade. Outros defendem que a identidade de Goiânia é de não ter identidade. Mas será possível que a cidade que detém o maior acervo no mundo de edificações no estilo arquitetônico art déco, berço de artistas plásticos como Siron Franco, Marcelo Solá, Alexandre Liah, G. Fogaça e do falecido Antônio Poteiro, entre muitos outros artistas plásticos de renome, lar da prestigiada e internacionalmente aclamada Quasar Companhia de Dança, seria tão pálida ao ponto de ser uma urbanidade sem alma?

Em busca de respostas, a reportagem ouviu historiadores, antropólogos, jornalistas e produtores culturais. As considerações foram variadas, algumas críticas e outras surpreendentes. Os que acreditam que a cidade tem identidade ressaltam que não daria para resumir em dois ou três elementos. Já os que dizem que a capital é desprovida de identificação defendem que o simples fato da relutância ou tentativa de ocultar as origens rurais e caipiras, inerente ao DNA do Estado, já é um claro sinal de que Goiânia
não é capaz de se identificar originalmente perante os demais centros urbanos brasileiros e do restante do mundo.

 “A urbanidade é a fusão de campo com a cidade”



Para o historiador e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Nasr Chaul, Goiânia tem uma identidade “macunaímica”. Ele explica que a capital, de arquitetura art déco, encravada no interior do Brasil, foi extremamente moderna nos anos 30 e 40. No seu ponto de vista, a urbanidade é a fusão de campo com cidade, de sertão com litoral, tradição com modernidade. Mesmo ao considerá-la moderna, o historiador lembra que a principal festa popular é a feira de exposição agropecuária, mais uma inclinação ao meio rural. “Goiânia é o contraste, ao mesmo tempo em que produz o melhor sertanejo do Brasil, também tem um rock de vanguarda.”

Nasr Chaul lembra que o falecido humorista Paulo Gonçalves brincava com as características de Goiânia ao dizer que o goianiense descansa na Praça do Trabalhador, trabalha na Rua do Lazer, seu lugar mais anônimo é a Fama, onde há mais brigas é na Vila União e se vende muitos carros na Praça do Avião. “Goiânia é uma cidade planejada que teve seu batismo na base da cultura e preocupada com as diversidades.”

Perguntado sobre quais são os ícones de Goiânia, Chaul aponta para os parques e para o Centro Cultural Oscar Niemeyer como símbolos da cidade. “É a mescla de bucólico com o moderno, que fazem um elo”, diz. Dicotômica e aparentemente paradoxal no sentido dos contrates, ele ressalta que a concepção da cidade teve influência de um urbanista ligado a tradição inglesa, no caso de Armando de Godoy, e um arquiteto, Attilio Correa Lima, ligado à escola francesa de urbanismo. “Isso demonstra as características próprias de Goiânia, uma capital surgida no Estado Novo, fruto da centralização de poder que era a tendência política daquela época.”

O antropólogo Marco Lazarin afirma que Goiânia tem várias identidades, dependendo da ótica tomada. Segundo ele, a capital planejada partiu de um processo de ocupação do Brasil Central saído da cidade de Goiás, antiga capital desde os tempos coloniais. “Goiânia em contraste com a cidade de Goiás tem uma identidade, em relação a Brasília tem outra. Goiânia está para Brasília assim como a cidade de Goiás está para Goiânia.”

Marco Lazarin ressalta que o fato de a cidade ter apenas 80 anos de idade influencia diretamente na formação da identidade dos goianienses. Segundo ele, Goiânia nasceu no anseio de ser o novo em ruptura com o passado colonial e do ciclo da mineração representada pela antiga capital. “Paradoxalmente, Goiânia homenageia os colonizadores, supostos civilizadores que vieram aqui com o objetivo de limitar a área dos índios. Prova disto temos a Avenida Anhanguera e a Praça do Bandeirante.”

Identidade confusa

Para o produtor cultural PX Silveira, Goiânia não tem identidade. Ele afirma que até a década de 60, a cidade vivia um espírito mudancista, de caráter receptivo e afinado com a contemporaneidade em ebulição no País e no mundo. Segundo ele, tratava-se de uma identidade que ansiava corresponder com o mundo, isto é, acolhedora, criativa e aberta às novas tendências, sem medo de se lançar à frente. “Aqui era uma capital criativa e ousada para a época e, infelizmente, de lá para cá esse espírito só fez esmaecer. No lugar dele temos uma identidade confusa, um engarrafamento de desejo em que a cidade não se acha mais como entidade ou espírito.”

Para PX Silveira, nem mesmo o grande acervo de construções em arquitetura art déco, como a antiga Estação Ferroviária, o Palácio das Esmeraldas, o Grande Hotel, o coreto em frente à Praça Cívica fazem Goiânia ter uma identidade. Ele argumenta que cidade tem sido inundada por uma arquitetura moderna que pode ser notada pelas dezenas de arranha-céus, em contraste com o abandono dos prédios históricos do Centro. “A capital não sabe aproveitar o acervo arquitetônico de seu Setor Central e o menospreza. Há uma corrida em direção às bordas da cidade.”

Em relação à música sertaneja, informalmente um dos elementos que fazem parte da suposta identidade da capital, PX Silveira rebate este rótulo ao dizer que o estilo musical não identifica Goiânia. Ele argumenta que o sertanejo não passa de uma caricatura e que nem todos os goianienses são adeptos dessa sonoridade. “Há um sertanejo que tem qualidade e que quer se aprimorar, mas, infelizmente, ele escamba para o caricato que de maneira alguma reflete Goiânia.”

Sem rótulos

Para o jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG Pablo Kossa, há elementos que constituem uma cara urbana de Goiânia que não se replicam em outros centros urbanos do Brasil. Ele aponta o popular pit-dog — sanduicherias baseadas em bancas ou quiosques — e o Eixo-Anhanguera como características únicas da capital goiana. Ele, que é um dos idealizadores do tradicional festival de rock Vaca Amarela, que ocorre todos os anos na capital, afirma que a exemplo de outras cidades cosmopolitas, Goiânia produz música para todos os gostos. “Aqui tem rock, sertanejo, reggae, blues, jazz, rap e samba de qualidade. Como toda grande cidade não dá para limitar culturalmente uma só manifestação.”

Goiânia é reconhecida por ser a capital da música sertaneja e, no início dos anos 2000, também ganhou o título de “Seattle brasileira”, pela grande variedade de bandas de rock e de festivais que transcorriam na cidade durante o ano. Porém, tais títulos não agradam Pablo Kossa. Ele argumenta que não dá para resumir um único estilo musical ou cultural de uma cidade como Goiânia. Além disso, a capital não é diferente de outros grandes centros urbanos, ou seja, daqui emana uma grande diversidade musical. “Não gosto de estereótipos, pois eles são limitantes. Como resumir uma única cidade por um único estilo musical?”

Futebol nos identifica

No Rio de Janeiro o clássico do futebol local é entre Flamengo e Fluminense. Em São Paulo a rivalidade é protagonizada por Corinthians e Palmeiras; em Porto Alegre o duelo é entre Internacional e Grêmio; e em Belo Horizonte com o Cruzeiro e o Atlético Mineiro. Goiânia também tem clubes rivais com torcidas apaixonadas. Apesar de não ter sido selecionada para ser uma das sedes da Copa do Mundo que se encerra hoje, o estádio Serra Dourada é palco de partidas que costuma lotar as arquibancadas e aglomerar multidões.

O clássico local de maior sucesso de público é entre Goiás Esporte Clube e Vila Nova Futebol Clube. Mas, nem sempre foram estes clubes que antagonizaram a maior rivalidade do futebol goiano. Pablo Kossa não tem idade para tanto, mas conta de leitura que a partida de maior rivalidade no começo da cidade se dava entre Goiânia e Atlético Clube Goianiense, o time do tradicional bairro de Campinas. “Goiás e Vila é dos anos 70 para cá, antes disso o clássico do futebol goiano era entre o Dragão e o Galo da Vila Olímpica.”

“Sem identidade, Goiânia é uma cidade de vida cultural provinciana”



O professor de Literatura, escritor e crítico literário Carlos Augusto Silva causou polêmica ao ter uma carta publicada na edição de número 2.034 do Jornal Opção, denunciando a inexistência de identidade de Goiânia. Goiano recém-radicado em São Paulo, ele lamenta a falta de atenção à arquitetura do Centro da Cidade e ao descaso com a Praça Cívica, além de apontar para uma pobreza cultural da capital que explicita a falta de identidade dos goianienses.

Goiânia tem identidade?

Não tem nenhuma. Ela é uma cidade rural, de concepção ruralista como o Estado todo é, mas que não assume esta postura. Os goianienses não tem colhões para assumirem suas raízes caipiras e acabam se comportando como ruralista urbanoides que não sabem onde estão e tampouco sabem onde querem estar. O maior problema é isso, não saber onde estão e não saber para onde ir. Meu desejo era que os goianienses valorizassem mais suas origens, não se envergonhassem de terem raízes rurais, sertanejas. Que se orgulhassem da catira e do berrante.

E na área cultural, não há uma identidade formada?

É uma cidade monocromática culturalmente que fica estacionada num ciclo repetitivo das mesmas coisas, numa carência de incentivos e de público para atividades culturais. Embora a Secretaria Estadual de Cultural tenha feito muito pela área, temos hoje em Goiânia um pequeno nicho para atividades culturais, sejam elas em termos de folclore e valorização de raízes ou em questões intelectuais, como o Café Cultural que acontece no Centro Cultural Oscar Niemeyer. É impressionante notar que quem frequenta aquele espaço em dia de Café Cultural são rigorosamente as mesmas pessoas. Acaba tornando não uma atividade cultural da cidade, mas o encontro de um pequeno nicho que se interessa por algum tipo de diversidade ou informação e conhecimento.

Não seria o fato de Goiânia ser relativamente jovem para ter sua identidade formada?

Quando a Rede Globo mostrava videoclips das capitais no intervalo os jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo, sempre eram exibidas manifestações culturais como o frevo do Recife e os bonecos de Olinda, em Salvador os tambores de Olodum, que são elementos muito específicos e característicos. Mas quando foi a vez de retratar Goiânia mostraram um bando de gente em um bar de um bairro nobre da cidade, cantores cantando música pretensamente sertaneja, que de sertaneja não tinha nada, de cabelo tratado em salão de beleza e camiseta baby look. Ou seja, isso não é identidade. Isso só prova que Goiânia é cidade culturalmente falida.

No aspecto arquitetônico, qual seria o símbolo de Goiânia, ou ela não tem?

Goiânia poderia ter um ícone arquitetônico que a identificaria. Quando estava em Goiânia morava no Centro e era um apaixonado pelo local. Mas fico triste pelo abandono do Setor Central. Uma coisa que marca muito a falta de identidade de Goiânia é justamente o que fazem na política de preservação e embelezamento da cidade. Gastam milhões para se fazer um parque almofadado sem qualquer tipo de identidade, que é o Parque Flamboyant, símbolo maior da divisão da cidade e do abandono cultural, e largam a Praça Cívica, um lugar culturalmente e arquitetonicamente importante, às favas. A Praça Cívica de Goiânia está depredada e abandonada, enquanto gastam milhões para fazer almofada em parques, como o Flamboyant, para gente que pode pagar R$ 2 milhões em um apartamento. É uma cidade que merece a pobreza e a imundice cultural que ela é. Diante deste tipo de coisa a população não reclama e não faz nada. Pelo contrário, a Praça do Trabalhador é um claro exemplo. Lá deveria ser um espaço urbano bonito, que poderia ser aproveitado culturalmente, mas que se tornou ponto de vendas de drogas e de prostituição. A Praça Cívica, que está com todas as suas luminárias quebradas, tem um projeto de revitalização importante, porém ele nunca sai do papel.

É preocupante ver os prédios do Centro com traços art déco se deteriorando e escondidos atrás de totens, letreiros e placas?

Completamente. Esses prédios estão sendo escondidos por publicidades baratas que poluem visualmente o Centro da capital, que é esquecido e abandonado. Por mais que a Avenida Goiás tenha sido revitalizada, o símbolo de Goiânia, a Praça Cívica, que deveria ser bonito, iluminado e seguro, está completamente abandonado. A cidade toda parte dali. O bairro de Campinas, que é o mais antigo da cidade, a origem da capital, está abandonado e deveria ser muito bem cuidado. A administração de Paulo Garcia está sendo um desastre do começo ao fim e a cidade fica às traças. Goiânia é uma cidade pequena com uma vida cultural provinciana, mas com todos os problemas de uma metrópole. A cidade só é metrópole nos problemas, mas nas qualidades não tem nada que as grandes cidades têm. Morar em Goiânia tem todos os ônus de morar numa grande metrópole, mas nenhum bônus de morar numa cidade cosmopolita.

Fonte: Jornal Opção