17 de julho de 2014

Hugo, o hospital que sarou


Maior hospital de urgências da Região Centro-Oeste passa por melhorias para se adequar à demanda

“Há muitos anos eu moro aqui, antigamente o Hugo estava ruim, mas hoje está ótimo, maravilhoso, melhorou cem por cento”. A frase é da camareira Maria Bernadete Rodrigues da Silva, de 51 anos, e reflete o resultado das melhorias promovidas no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo).

A constatação foi feita após o filho, Felipe Rodrigues, 24 anos, sofrer um acidente de moto no dia 9 de julho e ser encaminhado ao Hugo. O rapaz teve uma fratura na mão direita e queimaduras no corpo. A opinião da mãe é ratificada pelo rapaz, prestes a receber alta seis dias depois do ocorrido. “O Hugo está de parabéns pelo atendimento, fui muito bem atendido”, avalia.

A alta do jovem coincidiu com o dia em que a reportagem do Diário da Manhã percorreu, ao lado diretor-geral do Hugo, Cyro Ricardo de Castro, todos os corredores da unidade. O médico lembra que dois anos atrás a situação era muito diferente. “O hospital corria sério risco de interdição. Não tinha condições de infraestrutura, não tinha remédios”, enumera parte dos problemas vividos à época.

As fotos das deficiências ainda estão nos corredores para que não sejam esquecidas, mas nem é preciso. Para muitos goianos, as cenas de corredores lotados com macas de pacientes por falta de leitos de internação ainda estão na memória.

Muitas áreas foram reformadas e outras estão em processo de melhoria. 

 Transformações

Uma delas é a lavanderia, agora chamada de Central de Hotelaria, por onde passam milhares de peças, que saem já embaladas a vácuo, dentro de um kit organizado conforme a necessidade, seja para um procedimento cirúrgico ou para um leito de enfermaria.

Uma das últimas áreas a passar por reforma foi o terceiro andar, onde funcionava a área administrativa da unidade, que foi transferida para um prédio anexo. O espaço se transformou em enfermaria. São quartos bem iluminados, com TV, climatizados e dotados de equipamentos novos.

A melhoria contribuiu para o aumento de 67% no número de leitos de internação, passando de 191 para 319. De maio de 2012 até o presente momento, quando a gestão do hospital foi entregue à organização social Gerir, as Unidades de Terapia Intensiva (UTI’s) aumentaram de 44 para 58 unidades. A previsão é que ao final do ano sejam 100 UTI’s.

Esses são só alguns números que expressam o gigantismo do Hugo. O maior hospital de urgências da Região Centro-Oeste tem 1.500 colaboradores. Todos os dias são feitas de 35 a 40 cirurgias. Este ano, a média de internações é de 5,7 mil por mês. (Veja mais informações no quadro nesta página)

ESPECIALIDADE

A especialidade do Hugo são os politraumatismos, ou seja, pessoas que tiveram mais de uma fratura. As cirurgias motivadas por fraturas responderam por 64,5% de todos os procedimentos, com 3.896 registros. O número total de todos os tipos de cirurgias no período foi de 6.040.

Os pacientes são, em sua grande maioria, vítimas de trânsito, a maior parte deles é motociclista, caso do Felipe Rodrigues, relatado no início da reportagem. Esse grande fluxo contribuiu para que, ao longo do tempo, o corpo clínico tivesse especialistas em casos muito específicos, ou seja, dentro de uma especialidade médica como a ortopedia existem as subespecialidades. “Nós temos especialistas divididos em áreas, porque o trauma, hoje, a gente não tem como lidar, não tem como um ortopedista lidar com todo tipo de trauma. Você tem fraturas de coluna, fraturas do ombro, fraturas da pélvis e que são especialistas diferentes que tratam disso. E hoje, depois de dez anos, a gente conseguiu montar uma equipe aqui que resolve esses traumas graves”, explica o chefe de Ortopedia do Hugo, médico José Gomide.

Um dos problemas que o Hugo ainda tem que administrar é a chegada de  casos de urgência de baixa complexidade ao hospital. Para tanto, ao chegar ao hospital, o paciente é avaliado por uma enfermeira especialista em classificação de risco. Caso o problema não seja do perfil de atendimento do Hugo, a própria unidade encaminha a pessoa para outro local em que o atendimento possa ser dado.

A gravidade dos casos expõe a fragilidade do ser humano, que muitas vezes precisa ser amparado. Os departamentos de Serviço Social e Psicologia cumprem esse papel. Na psicologia, que funciona 24 horas, há sempre alguém para dar apoio especializado profissional a cada paciente ou mesmo a um familiar, até nos momentos mais duros como nos inevitáveis óbitos. Os profissionais da psicologia visitam todas áreas da unidade. “Nós fazemos o acolhimento desde o início até praticamente a saída do paciente daqui. A atuação do psicólogo hoje, nós vamos percebendo que é de fundamental importância dentro do hospital. De toda forma que o paciente entra ele tem que ser acolhido, ele muitas vezes precisa desse apoio do psicólogo e a família também”.

COMANDANTE

Um grande navio precisa de um comandante à altura, e o médico ortopedista Cyro Ricardo de Castro está para o Hugo assim como um bom comandante está para um grande navio.

Com mais de 20 anos de atuação na unidade, o médico, cuja experiência é denunciada pelos cabelos brancos, coloca sua vivência a favor da saúde dos milhares que passam por seu navio todos os meses.

Paciente e muito atencioso, não descuida dos detalhes e ainda consegue tempo para acompanhar os casos mais complexos e demorados. Salvar vidas é o estímulo ao trabalho do diretor-geral da unidade, Cyro Ricardo de Castro. “Eu acho que a motivação é a perspectiva que você tem de salvar vidas. Quem trabalha na urgência, emergência, principalmente no trauma, tem que, em primeiro lugar, gostar de gente. Se você gosta de gente, aí você nem precisa trabalhar, porque você faz o que gosta e vê o que você faz como uma missão. A razão de ser da nossa existência profissional é o paciente”, ensina o diretor.

Condições de trabalho animadoras

Ao passar por uma das alas de UTI, instalada no segundo andar, pudemos notar o quanto os equipamentos modernos são importantes para auxiliar os profissionais. Em um dos monitores é possível que o médico plantonista acompanhe os sinais vitais dos pacientes internados. Qualquer alteração pode ser verificada rapidamente para que a ação médica seja feita em questão de segundos.

Para o médico Nicola Bertolini Paolo, que trabalhava na entrada de pacientes no dia da visita, o cansaço é superado pela possibilidade de fazer um trabalho de qualidade. “É cansativo, mas por outro lado também bastante gratificante. Aqui no Hugo você tem a oportunidade de receber pacientes de Goiânia, do Estado como um todo, e a possibilidade também de dar um bom atendimento: a capacidade de resolução do Hugo é muito grande”, considera o médico. A atuação de vários profissionais no atendimento aos pacientes, chamada tecnicamente de multidisciplinaridade, faz parte da rotina do hospital. Muitos casos têm a participação de médicos de diversas especialidades, nutricionistas, nutrólogos, psicólogos, enfermeiros, fonoaudiólogos, entre várias outras áreas da saúde.

A humanização da saúde é uma busca na unidade. Um dos exemplos é o caso de uma paciente internada no isolamento da UTI 2 do Hugo. Há mais de dois meses no local, ela pediu que fosse trazido um prato de sua casa para tornar o local mais familiar. Desde então, os procedimentos de segurança foram cumpridos e ela come a comida do hospital no prato de sua casa. "O paciente está em primeiro lugar, o atendimento humanizado é visto com bons olhos na UTI 2 e a gente tenta tornar o ambiente familiar, trazer isso para um ambiente familiar também", ressalta a chefe da UTI 2, Tatiane Pereira Dionísio.

Fonte: DM