29 de junho de 2014

Violência: Afinal, há ou não um serial killer em Goiânia?


O Jornal Opção ouviu a mais respeitada autoridade do assunto no Brasil para saber as características de um serial killer e, assim, poder se aproximar da resposta a essa pergunta

Desde o início do ano foram registrados aproximadamente 300 ho­mi­cídios em Goiânia, sendo 48 somente apenas neste mês — dos quais 31 foram cometidos em cinco dias, segundo os registros da Polícia Civil (PC). Um número assustador, de fato. Mas o que tem gerado certo pânico, sobretudo entre as mulheres é a possível atuação de um serial killer na cidade. A especulação da existência de um assassino em série começou com a divulgação de um áudio pelo aplicativo de smartphones Whatsapp.

O áudio, gravado por uma mulher ainda não identificada, traz as seguintes informações: “Estou saindo da clínica agora e hoje foi uma mulher lá, a pedido de uma delegada. Ela está alertando todos os estabelecimentos com muitas mulheres. É o seguinte: tem um serial killer solto em Goiânia. Ele tem uma moto preta e um capacete preto. Ele aborda a pessoa na rua e pede o celular, armado. Quando a menina vai pegar o celular ele atira. Ele já matou 12 meninas em Goiânia. Ele está atacando no Jar­dim América, e nos setores Su­doeste e Nova Suíça. Então, ela pe­diu para espalhar só para mulheres. Para homens não. É uma informação sigilosa, pois a polícia está investigando e já está quase pegando esse cara. Então, cuidado meninas. Se verem um motoqueiro com capacete e moto preta, chamem a polícia.”

Essas informações se tornaram virais na rede e muitas mulheres têm se tornado mais cautelosas ao sair de casa, como relata a matéria “Onda de violência tem levado pânico à população de Goiânia”, publicada na última edição do Jornal Opção. Contu­do, diante da situação de pânico e dos vá­rios casos atribuídos ao suposto as­sas­sino em série da moto preta — que seriam 6 e não 12 —, as au­to­ridades policiais negam veementemente a existência de um serial em Goiânia.

O termo serial killer (assassino em série, em português) foi utilizado pela primeira vez, nos anos 1970, por um agente do FBI (em inglês, Federal Bureau of Investigation, a Agência Federal de Investigação dos Estados Unidos). Mas o que é um serial killer? Como ele age? Quais são as características atribuídas a um criminoso desse porte? É possível dizer que há, de fato, um assassino em série a solta em Goiânia?

Para responder a essas questões, a reportagem pediu o auxílio de uma das maiores especialistas em criminologia do país: Ilana Casoy. Uma das profissionais mais aclamadas da área no Brasil, Ilana tem quatro livros publicados. Dois deles sobre assassinos em série — “Serial Killer, louco ou Cruel” e “Serial Killer: Made in Brazil”. E dois sobre crimes de grande repercussão no país — “O Quinto Mandamento”, sobre o assassinato do casal de classe média alta Marísia e Manfred Von Ri­chthofen. As mortes foram encomendadas e planejadas pela filha Suzane Von Richthofen; e “A Prova é a Testemunha”, que relata como a perícia técnica conseguiu incriminar o casal Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni no assassinato da menina Isabella.

Ilana identificou a existência de 62 assassinos em série no Brasil. Em seu livro de maior repercussão — “Serial Killers: made in Brazil” — ela retrata de modo mais completo seis casos, tendo entrevistado pessoalmente dois dos assassinos: Marcelo Costa de Andrade, o vampiro de Niterói, que matou 13 pessoas; e Francisco Costa Rocha, o Chico Picadinho, considerado o pior dos assassinos em série brasileiros, com 42 mortes.

Ilana não quis falar sobre o su­posto assassino em série de Goiâ­nia, uma vez que não conhece o ca­so. Para falar sobre o assunto, ela te­ria que ter acesso ao inquérito, falar com a Polícia Civil e ter subsídios concretos sobre os assassinatos — informações que vão além das divulgadas pela imprensa. Essa cautela se dá pelo fato de que, qualquer comentário dela sobre o caso poderia gerar repercussão, dada sua importância na área da criminologia.

Contudo, a especialista concordou em falar, em termos gerais, so­bre o que é um assassino em série e seu modo de agir. Existem definições sobre os assassinos, que não podem ser confundidos ou simplesmente con­vencionados como sendo assassino em série. Ilana define, por exemplo, um “matador em massa” como sen­­do quem “mata quatro ou mais ví­­timas em um só local, num só e­vento”. Segundo ela, em geral, a ex­plosão de violência desse tipo de as­sa­ssino é dirigida para o grupo que su­postamente o oprimiu, ameaçou ou rejeitou.

Existe também o “spree killer”, ou matador impulsivo. É possível dizer que as vítimas desse assassino estão no lugar errado, na hora errada. Ele mata várias pessoas num período de horas, dias ou semanas, e não passa por fases, como acontece com um assassino em série, mas se acalma até precisar matar novamente. “Ele pode parar de matar tão rápido quanto começou”. E um assassino em série?

Assassino em série é alguém que simplesmente mata muitas pessoas ou há especificidades nos atos cometidos por ele? Como é possível identificar um?

Segundo meus estudos, pode ser definido como assassino em série aquele que comete dois ou mais assassinatos, envolvendo ritual com mesmas necessidades psicológicas, mesmo que com modus operandi diverso, caracterizando no conjunto uma “assinatura” particular. Os crimes devem ter ocorrido em eventos separados e em datas diferentes, com algum intervalo de tempo relevante entre eles. As vítimas devem ter um padrão de conexão entre elas; a motivação do crime deve ser simbólica e não pessoal. Assassino em série não é um diagnóstico psiquiátrico ou psicológico, e sim uma definição de comportamento criminoso, como homicida, latrocida, assaltante e estelionatário.

Podemos dizer que o padrão dos crimes é a assinatura do assassino em série?
Não se pode confundir modus o­perandi ou ritual com assinatura do crime. Assinatura é uma combinação de comportamentos, identificada pelo modus operandi e pelo ritual. Não se trata apenas de comportamentos inusitados. Muitas vezes, o assassino se expõe a um alto risco para satisfazer todos os seus desejos, permanecendo muito tempo no local do crime, por exemplo. Outros usam algum tipo de amarração específica, ou um roteiro específico de ações executadas pela vítima, como no caso dos estupradores em série. Ferimentos específicos também é uma forma de assinar o crime.

Esses padrões têm ligação direta com o motivo do crime?
A motivação do crime deve ser simbólica e não pessoal. Não é possível saber antes de identificar o assassino e conversar com ele.

É possível que um assassino em série possa fingir um padrão para despistar a polícia? E esse padrão, uma vez reconhecido, pode abrir brechas para seguidores?
Copycats existem, mas não são perfeitos, porque ninguém pode “copiar” uma necessidade psicológica e/ou simbólica. Uma polícia conhecedora do assunto não divulga a assinatura.

É certo que há um intervalo entre os crimes cometidos por um assassino em série. Esse intervalo é dado, geralmente, por qual razão? Planejamento?
Não, é um ciclo. O assassino em série passa por fases: fase áu­rea – aquela em que o assassino começa a perder a compreensão da realidade; fase da pesca – procura sua vítima ideal; fase galan­te­adora – seduz ou engana a vítima; fase da captura – quando a ví­tima cai na armadilha; fase do as­sassinato ou totem – auge da emoção para o assassino; e fase da depressão – depois do assassinato.

De quanto tempo costuma ser o intervalo dado por um assassino em série?
Cada um é cada um, pode ser dias, meses ou anos.

A vítima representa um símbolo para o assassino em série? Que espécie de símbolo?
As vítimas de um assassino em série são escolhidas ao acaso, porque sua motivação é simbólica. O que as conectará é a assinatura do crime. A vítima é o objeto da fantasia do assassino em série. A ação da vítima não precipita a ação do assassino. Ele a vê como objeto, e não como pessoa.

Uma vez identificado um assassino em série, qual deve ser o papel social da polícia em relação ao caso? Deve falar abertamente sobre o caso com a população, ou é melhor esconder para não causar pânico?
Existem histórias de todo tipo. No caso de uma investigação de cri­me em série, deve ser planejada uma es­tratégia que considere todas as al­ternativas. Uma ação exemplar aconteceu aqui mesmo, no Brasil, em Be­lém do Pará. A polícia deu palestras so­bre o perfil do assassino em série nas escolas do bairro em que ele agia, pa­ra uma faixa etária específica. Mui­tas vidas foram salvas porque isso di­fi­cultou totalmente a captação de no­vas vítimas, obrigando o assassino ao erro.

As informações que apontam para um assassino em série

O delegado titular do 8° Distrito da Polícia Civil de Goiânia, Waldir Soares, disse ao Jornal Opção, que, de fato, há nessa história as seguintes questões: existe mais de uma pessoa assassinando mulheres em Goiânia. Porém, o delegado afirma acreditar que pelo menos quatro das seis vítimas até agora foram mortas por uma só pessoa, o que faria do assassino um serial.

Quem são as quatro? De acordo com o delegado, a filha do ex-promotor de Justiça Uigvan Pereira Duarte, a assessora parlamentar Ana Maria Victor Duarte, de 26 anos, assassinada no dia 14 de março em frente a uma lanchonete na Rua T-64, no Setor Bela Vista. Ela foi a primeira vítima. A polícia seguiu pelo caminho de latrocínio, roubo seguido de morte. Porém, o assassino, um motociclista, fugiu sem levar nada. Segundo testemunhas, sua arma falhou duas vezes antes de conseguir atirar na vítima.

A segunda é Carla Barbosa Araújo, morta no dia 23 de março com um tiro no peito, numa suposta tentativa de assalto. O assassino estava numa moto preta e abordou a jovem de 15 anos numa via do Setor Sudoeste. O motociclista pediu o aparelho celular, mas Carla disse que não estava com nenhum. O suspeito, então, atirou uma vez e fugiu. Carla estava acompanhada de sua irmã.

A terceira é Janaína Nicácio, de 24 anos, assassinada com um tiro na nuca no dia 8 de maio, em um bar no Jardim América. O assassino estava numa moto preta — que também teria matado, na mesma noite, Bruna Gleycielle de Sousa Gonçalves, de 27 anos. A moça foi morta com um tiro no peito, em um ponto de ônibus no Setor Bueno. O sujeito deu voz de assalto e, quando Bruna abriu a bolsa para pegar o celular, ele disparou.

E a última, segundo o delegado Waldir, é Isadora Aparecida Cândida dos Reis, morta no dia 1° de junho. Ela e o namorado foram abordados por um motociclista, no Setor São José. Ele pediu o celular das vítimas e quando Isadora foi entregar o celular, o aparelho caiu no chão. Como conta o namorado da vítima, o assassino, então, agarrou um dos braços da adolescente e em seguida disparou contra ela. O tiro atingiu as costas de Isadora.

Dessa forma, o delegado aponta que um perfil pode ser traçado. Afinal, as vítimas até agora são mulheres bonitas, com idade entre 15 e 27 anos e mortas com apenas um disparo de arma de fogo, embora ele admita que não possa falar sobre a arma, uma vez que não é da Delegacia de Investigação de Homicídios (DIH). Porém, ele diz que, pelas características dos crimes e pela análise das ocorrências, é possível afirmar que nesses quatro casos há um padrão: uma tentativa simulada de assalto, as vítimas foram mortas com apenas um tiro por motociclistas em uma moto escura e os assassinos usavam capacetes pretos.

Esse padrão marcaria, assim, a obra de um assassino em série? O delegado da DIH responsável pelas investigações, Murilo Polati, diz que não e o próprio delegado Waldir admite não poder afirmar isso com certeza, embora acredite que as semelhanças entre os crimes seja o suficiente para a Secretaria de Segurança Pública não permitir o pavor que, de certa maneira, se instalou entre as mulheres goianienses. “É preciso chamar a responsabilidade, traçar o perfil das vítimas, chamar toda a imprensa, esclarecer o que está acontecendo até para que o cidadão possa se proteger”, afirmou ele em entrevista aos repórteres do Jornal Opção Thiago Buri­gato e Frederico Oliveira.

O reconhecimento

O outro ponto que aponta para uma possível ação de um assassino em série em Goiânia veio do namorado de Isadora Aparecida Cândido dos Reis, a última pessoa assassinada nessas condições. Clayton César Pimenta Júnior reconheceu o assassino de sua namorada por meio de um retrato falado. Ele afirmou à polícia que o homem que atirou nas costas de Isadora tem as mesmas feições do sujeito retratado como o suspeito de ter matado a assessora parlamentar Ana Maria Victor Duarte, em março.

Esse reconhecimento, informado em primeira mão pelo Jornal Opção Online, indicaria que pelo menos duas das seis mulheres mortas, teriam sido assassinadas pela mesma pessoa. O jovem informou: “A viseira estava aberta e deu para ver a fisionomia dele. Os traços são muito semelhantes. Os olhos, a feição, a cor, e até a camisa verde.” Isso sustentaria o “surgimento” de um assassino em série.

Tanto o delegado da DIH, Murilo Polati, quanto o secretário de Segurança Pública, Joaquim Mesquita, descartam a possibilidade. Porém, mesmo desacreditando a relação entre os casos, as ordens eram para que a Polícia Técnico-Científica realizasse um cruzamento balístico entre as munições utilizadas nos crimes para averiguar uma possível compatibilidade. O resultado, entretanto, ainda não é conhecido.

O fato é que a Polícia Civil (PC) detém um suspeito de ter cometido alguns dos assassinatos ocorridos na região metropolitana de Goiânia. Ele foi preso na terça-feira, 24, mas ainda não foi apresentado pela PC. A reportagem apurou que há um nome. Porém, como o caso está sendo mantido em sigilo — visto que a polícia ainda espera obter provas, como as possíveis armas dos crimes —, não há porque divulgá-lo. A publicação do nome poderia gerar consequências graves (veja matéria no quadro abaixo).

Além disso, uma parte considerável das Polícias Civil e Militar está em busca de encontrar o responsável — ou os responsáveis — pelas mortes. É certo que a Rotam está nas ruas para aumentar a abordagem aos motociclistas, sobretudo àqueles a bordo de motocicletas pretas e usando capacetes pretos. Porém, até divulgação dessa informação pode avisar o criminoso — ou os criminosos — da ação.

Características dos assassinatos levariam a um padrão

O fato de quatro das seis mulheres mortas terem sido assassinadas com apenas um tiro, após terem sido abordadas por um homem numa moto preta, com capacete igualmente preto, que pediu o celular, mas não levou nada, pode indicar um padrão de crime. Além disso, todas elas tinham entre 15 e 27 anos.

Porém, como disse a criminologista Ilana Casoy, “não se pode confundir modus operandi com assinatura do crime”, pois a “assinatura é uma combinação de comportamentos, identificada pelo modus operandi e pelo ritual”. E nenhum tipo de informação que leve a isso foi divulgada pela polícia.

Sobre o motivo. O motivo do crime, ou a falta dele, é muito importante para a definição de um assassino como sendo um assassino em série. Quem diz isso é Ilana Casoy. As vítimas parecem ser escolhidas ao acaso e mortas sem nenhuma razão aparente, pois raras são as vezes que um assassino em série conhece suas vítimas. Ela representa, na maioria dos casos, um símbolo.

Sabe-se que todas as mulheres eram bonitas. Isso poderia ser um motivo? Ele pode ter sido um ex-marido traído, ou ter tido uma decepção amorosa. Ele também pode não gostar de mulheres. São especulações. Voltando à Ilana: “Não é possível saber [a motivação] antes de identificar o assassino e conversar com ele”.

A polícia tem um homem preso. Isso é certo. Se a instituição tem essas informações, não se sabe. A PC se nega a dar detalhes sobre a investigação e não se pode julgá-la por isso. Como também disse a criminologista, “uma polícia conhecedora do assunto não divulga a assinatura” do crime.

E não divulga por quê? Talvez para não gerar “copycats”, imitadores do assassino em série. Os outros dois casos ocorridos, que completam o número de seis mulheres mortas, poderiam indicar um imitador — ou, talvez, o mesmo assassino com um padrão diferente.

No dia 15 deste mês, duas adolescentes, uma de 13 e outra de 17 anos, foram assassinadas em bairros diferentes de Goiânia. Porém os crimes seguem as características já apontadas. As duas foram mortas por motociclistas. A jovem de 17 anos estava grávida de cinco meses.

Ela caminhava com o companheiro na Rua 3, no Setor Central, quando foi abordada por um motociclista. O homem desceu da moto preta e disparou contra o peito da jovem. Já a adolescente de 13 anos foi morta a tiros em uma praça do Bairro Goyá. O autor dos disparos estava em uma motocicleta vermelha.

As possíveis consequências de uma divulgação irresponsável

Após o reconhecimento do re­trato falado por parte de Clayton César Pimenta Júnior, o namorado de Isadora Cândido, circulou nas redes sociais — principalmente o Facebook — a foto de um rapaz como sendo o do retrato falado. As publicações afirmavam que Rafael Siqueira, de 27 anos, seria o assassino em série.

Essas postagens levaram o delegado titular do 8° Distrito da Polícia Civil de Goiânia, Waldir Soares, a chamar Rafael para depor. Segundo o dele­gado, as publicações assus­ta­ram o rapaz, que não possui en­­vol­vimento algum com o crime. De acordo com ele, Rafael sequer tem motocicleta, além de não ter as mesmas características físicas do sus­pei­to, que seria um sujeito magro, moreno e alto, de 1,85m.

Esse tipo de divulgação, assim como a publicação do nome ainda não confirmado do suspeito preso pela Polícia Civil na última terça-feira, 24, podem levar a uma situação semelhante à vivida em São Paulo, em maio deste ano, quando a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi acusada de ser uma mulher que supostamente praticava magia negra com crianças. As acusações aconte­ceram pela internet com base também em um retrato falado. A publicação gerou revolta na população, que linchou Fabiane. O caso ganhou re­percussão nacional.

Fonte: Jornal Opção Marcos Nunes Carreiro