13 de abril de 2014

Trânsito: filas intermináveis e muita paciência


Motoristas sofrem com os congestionamentos na Capital. Excesso de veículos e vias no limite da demanda fazem com que carros circulem em velocidade mínima

A falta de planejamento, sem a construção de um plano diretor de trânsito, e uma política invertida que prioriza o transporte individual em detrimento do coletivo têm feito os motoristas goianienses exercitarem a paciência em longos engarrafamentos. Trânsito parado e excesso de carros nas ruas não é exclusividade somente no horário de pico. Já é comum em vias principais a formação de filas de carros a qualquer horário do dia. Basta um pequeno acidente ou qualquer intercorrência e o trânsito virá um nó difícil de desatar. Com um transporte coletivo falido, sem qualidade e conforto, o cidadão não quer depender desse tipo de condução. A facilidade para comprar um carro ou uma motocicleta, com a diminuição dos impostos e melhores condições de financiamento, tem atraído cada vez mais o cidadão a fazer a aquisição de seu próprio meio de locomoção.

Segundo o Detran, a frota na Capital, nos últimos 14 anos, praticamento dobrou de tamanho. Em 2000, cerca de 570 mil carros circulavam pelas ruas de Goiânia. Hoje, com a cidade tendo praticamente a mesma infraestrutura e malha viária, estão em circulação 1,1 milhão de veículos. Para piorar o quadro, a frota cresce de forma assustadora. Mensalme­n­te são emplacados mais de cinco mil novos veículos na Capital. Este crescimento faz com que pontos principais da cidade, em horário de pico, simplesmente fiquem repletos de veículos, que rondam a uma velocidade mínima. Como resultado, os congestionamentos são inevitáveis. A situação piora ainda mais se estiver chovendo, como tem sido comum neste verão.

A Secretaria Municipal de Trânsito (SMT) tem um levantamento dos dez pontos mais críticos da Capital. Nele estão vias como a Avenida Anhan­guera nos cruzamentos com a Avenida Leste Oeste e no Viaduto da BR-153, na entrada no Jardim Novo Mundo. Ainda figuram no ranking dois trechos da Avenida 85; na Avenida Castelo Branco; Avenidas 82, 88, T-9 e também na região de desvio das obras de dois viadutos na região noroeste de Goiânia (confira o box). O documento da SMT não cita os tamanhos das filas ou quanto tempo o motorista leva para passar pela região, lista apenas que são os pontos de maior engarrafados.

Estão de fora da relação outros pontos onde são constantes os problemas com o trânsito lento. É o caso da Avenida T-63 no cruzamento com a Avenida 85, no Setor Bueno. A locomoção pela via é complicada em três períodos: pela manhã, horário do almoço e no fim da tarde. O viaduto construído sobre a 85, feito para dar fluidez às duas avenidas, amenizou a situação, mas atualmente a quantidade de veículos que acessa a via e também o excesso de sinaleiros não permitem ao motorista desenvolver velocidade satisfatória. A Avenida Jamel Cecílio (Av.136) é outro exemplo que também registra congestionamentos no período da manhã e final da tarde, mas também não está no levantamento da SMT.

Para quem precisa andar pela cidade paciência nunca é demais. O representante comercial Fernando José Pimentel, que mora em Curitiba, no Paraná, ficou assustado com a situação na Capital. “No pouco que andei fiquei assustado. O trânsito não flui, são muitos carros para ruas estreitas; não há vias expressas e os sinaleiros têm um tempo muito reduzido para a gente passar”, reclama. Ele ainda critica o excesso de buracos nas vias. “O asfalto não é de qualidade. A cidade inteira tá cheia de buracos. Toda hora é preciso frear ou tentar desviar dos buracos”. Ciente da bagunça que fica o trânsito em horário de pico, o consultor Thiago Alves tem adotado estratégias para não se estressar em congestionamento. “Sempre deixo para sair em horários alternativos, em que sei que o trânsito não é tão intenso”, explica.

Solução depende de um plano diretor de trânsito



Para o doutor em engenharia de transportes e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (P UC-GO), Benjamim Jorge Rodrigues, o problema da Capital é a fluidez no trânsito, que nos pontos mais críticos está comprometida devido a capacidade estourada de receber mais veículos, número elevado de acidentes e a ocorrência constante de engarrafamentos. Para ele, Goiânia precisa de um sistema para definir a qualidade do trânsito e a partir disso engenheiros de trânsito realizar o gerenciamento da capacidade das vias e verificar os níveis de serviço nesses locais.

O especialista diz que com o sistema é possível planejar a operação do tráfego, para por exemplo, saber onde é necessário sinal, qual via pode ser coordenada por semáforos de onda verde e também estudar a viabilidade de implantar semáforos de tempo real, comandado pelo próprio tráfego. O professor de engenharia civil da Universidade Federal de Goiás (UFG), e também doutor em trânsito, Willer Carvalho, diz que a situação na Capital caminha para uma situação caótica. “Se pensarmos Goiânia há dez anos e ela hoje, a situação está extremamente crítica. E a tendência é piorar porque as facilidades de aquisição de um veículo só se tornam mais atrativas”, explica o especialista.

Segundo Willer, os problemas ocorrem porque a cidade não foi projetada para a quantidade atual de veículos que circulam pelas ruas. “Não adianta criar vias, aumentar faixas ou criar túneis porque um hora isso lota”, ressalta o professor ao explicar que o transporte coletivo é solução para melhorar a situação (mais detalhes leia abaixo). Carvalho lista ainda outros pontos problemáticos, como a Praça Cívica e Avenida 85, além de outros três eixos: avenidas T-9, T-8 e T-7. O professor ressalta que o problema nessas vias acontecem porque faz a ligação dos bairros a região central, local que concentra comércio e bancos, e que geralmente a população acessa para ir de uma ponta a outra na Capital.

Benjamim Jorge diz que o trânsito tem solução, mas enquanto não se apresentar um plano específico para o setor isso não acontecerá. “É preciso um plano diretor integrado de trânsito e transporte, a curto, médio e longo prazo. Um plano para ser seguido. Quando vamos implantar um sistema de transporte de massa? Quais vias vão mudar de sentido? Quais vão ser duplicadas? Onde vamos fazer viadutos? E onde vai haver corredor exclusivo para ônibus? Isso tudo deveria estar em um plano”, conta o professor.

O secretário municipal de Trânsito, José Geraldo Freire, diz que técnicos da pasta têm procurado alternativas e que a engenharia de tráfego busca constantemente soluções para o excesso de veículos na Capital. “Quando começamos a tirar estacionamento das vias e abrir uma terceira faixa, a gente está pensando nisso”, explica. Para o titular, hoje há muitas vias de mão dupla com estacionamento dos dois lados, o que o trânsito de Goiânia não suporta mais. “Se queremos mão dupla, temos que proibir o estacionamento de um lado ou até dos dois lados. São medidas que estamos avaliando.”

Além disso, Freire explica que os semáforos de três tempos são um outro problema e que soluções são estudadas. “O limite máximo que o motorista suporta esperar no sinal, sem irritação, é 120 segundos. O de três tempos passa disso, além do fato do tempo que o motorista tem para passar ser muito curto” explica.
Para o secretário, as entradas de Goiânia também geram gargalos porque a população da região metropolitana se utiliza muito da Capital. “Existe um fluxo pela manhã vindo para cidade, e à tarde, saindo. Tenho convicção de que, se não nos prepararmos para receber esse pessoal pela manhã e no fim do dia dar condições para que saiam, esses gargalos vão continuar”, anota o titular da SMT.

José Geraldo Freire também apontou a indisciplina e falta de educação dos condutores como outro problema para a atual situação. “No fechamento do semáforo, motociclistas não aceitam ficar parados antes da faixa de retenção, motoristas avançam sobre o sinal e também fazem estacionamento irregular”, cita. Sobre a criação de um plano diretor específico para o trânsito, o secretário disse que o Plano Diretor da cidade já pensa na área.

Investimento em trasporte coletivo é alternativa

Unanimidade entre os especialistas de engenharia de trânsito é o investimento no transporte coletivo como alternativa para retirar os veículos que incham as ruas de Goiânia. “Precisamos priorizar o transporte coletivo, que consome menos malha viária que o automóvel, considerando que o ônibus pode levar ao menos 80 pessoas” diz o engenheiro de trânsito da PUC-GO, Benjamim Jorge Rodrigues. Além disso, ele relata que é necessário de outros meios de transporte de massa, como por exemplo, o metrô. “Se isso não acontecer, daqui a pouco Goiânia inteira ficará congestionada”, alerta o professor.

Segundo o engenheiro Willer Carvalho, apesar do governo falar em priorizar o transporte coletivo, ele incentiva o transporte individual quando abaixa os impostos e facilita o financiamento de carros particulares. “É preciso dar qualidade e confiança de que o ônibus vai passar e chegar em tal local em determinado horário”, afirma o especialista. Para Willer, se o transporte público tiver qualidade, as pessoas deixarão o carro em casa. Ele explica que o cidadão que estiver parado no trânsito ao perceber que ao seu lado os ônibus passam de forma contínua, porque estão em um corredor preferencial, vão analisar que não adianta perder horas no trânsito, enquanto o ônibus flui de forma constante.

O doutor em engenharia ressalta que falta interesse dos governos em querer melhorar o trânsito e transporte, principalmente, na parte de infraestrutura e de buscar sistemas de transporte coletivo mais eficientes. Para ele, o BRT e o VLT são instrumentos que vão contribuir, mas desde que sejam feitos estudos apropriados para saber os locais onde essas soluções são mais efetivas. “O VLT traz algumas vantagens, como a revitalização das regiões onde passa, mas a capacidade de transporte é similar ao modelo que já está implantado, com Eixo Anhanguera”, pontua.

Sobre o BRT, que a Prefeitura de Goiânia quer implantar na Capital, Willer diz que ele terá vantagens se realmente for construído dentro de um conceito de BRT. “Os ônibus não devem parar em semáforos e deve haver pontos de ultrapassagem no trajeto. Se o Eixo Norte/Sul for feito na concepção real de BRT, isso vai trazer muitos ganhos”, explica o especialista, que afirma ainda que outras linhas também têm que estar bem planejadas e operadas para terem fluidez.

Fonte: Tribuna do Planalto