2 de março de 2014

Urbanismo: O drama do Centro da capital



É cada vez mais evidente a decadência da Região Central, que carece de uma política de revitalização

O Centro de Goiânia, um dia, foi referência de lazer, festas, restaurantes, pontos de encontro com forte presença da juventude, casario histórico preservado e vida noturna em evidência. Com o passar do tempo, ele se transformou em referência de trânsito estressante, barulho, insegurança, poluição visual, comércio em recessão, apesar do aumento de estabelecimentos, elevada presença de moradores de rua, falta de lazer e vida noturna praticamente nula. Entre pioneiros e jovens, prevalece a imagem cotidiana de um Centro estagnado, sem vida e cada vez mais carente de revitalização, ideia falada, mas que nunca se tornou realidade.

A população do setor diminuiu 7,2% entre 1996 e 2010, passando de 24.920 para 23.102, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No próximo ano, será feita nova contagem e a tendência é que o número seja ainda menor. Os moradores mais antigos, que vivenciaram décadas passadas e resistem saudosos de alguns hábitos e da liberdade, perdem nos dedos da mão a quantidade de amigos e famílias que já se mudaram para outros locais da cidade. Enquanto isso, os imóveis abandonados se multiplicam e passam a servir, na maioria das vezes, como morada para pessoas em situação de rua.

O Centro é hoje o segundo setor da capital com maior número de imóveis abandonados. Listagem feita pela Fiscalização de Edificações, Parcelamento e Áreas Públicas da Secretaria Municipal de Fiscalização (Sefis), relaciona 18 casos entre o início de outubro de 2013 e 28 de fevereiro deste ano, o que o coloca atrás somente do Jardim América e do Parque Amazônia, com 19 cada. Muitos dos imóveis são casas antigas, que retratam a história de Goiânia. As que não resistem acabam demolidas, como exemplo recente na Rua 20, primeira rua da capital. As que ainda estão de pé, quando não ocupadas por moradores, são adaptadas e se transformam em comércio, clínicas e outros.

A invasão comercial é um fenômeno que marca a história recente do Centro. Entre 2000 e 2010, o número de estabelecimentos aumentou 95,3%, subindo de 2.975 para 5.813. Os comerciantes, no entanto, já sentem na pele as consequências da estagnação, diminuição de público consumidor e concorrência acirrada com shoppings e outras avenidas comerciais que se multiplicaram em diferentes zonas da cidade, nos últimos anos. “O comércio de rua não consegue oferecer a mesma comodidade que um shopping”, aponta o presidente da Federação do Comércio de Goiás (Fecomércio), José Evaristo dos Santos.

O transporte público seria, hoje, o responsável por boa parte do público que vai e consome no Centro da cidade, segundo o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Goiás (Sindilojas), José Carlos Palma Ribeiro. Ele lembra que, nos últimos anos, além da diminuição da população residente no setor, o transporte coletivo sofreu redução. Desde 2005, conforme a Metrobus, 40 mil pessoas deixaram de passar pelas catracas do Eixo Anhanguera, diariamente. Há nove anos, quando o subsídio do governo sobre o valor da tarifa era de 75%, o número de usuários era 190 mil. Hoje, com subsídio de 50%, esse índice é 21% menor - 150 mil.

Prefeitura aguarda verba

Falou-se muito sobre revitalização do Centro, tentativas de recuperação e projetos para conter a poluição visual, nos últimos anos. Todas, iniciativas que, se começaram, não foram continuadas ou não surtiram o efeito desejado. O diretor de Planejamento e Gestão Sustentável da Prefeitura de Goiânia, arquiteto e urbanista Sérgio Wiederhecker, reconhece que o crescimento acelerado e desordenado da cidade provocou consequências diretas à vida de bairros tradicionais, como o Centro. “Estamos precisando dar andamento à requalificação do setor”, reconhece.

Sérgio informa que, no momento, a Prefeitura aguarda a análise e liberação de verba pelo governo federal, que contemplará a execução de oito projetos de restauração. O dinheiro - pouco mais de R$ 50 milhões - será liberado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas e será usado para, dentre outras coisas, revitalizar a antiga Estação Ferroviária, Fórum de Campinas e casas do Centro antigo. A reabilitação é uma necessidade discutida há bastante tempo e que chegou a ser incluída no texto do Plano Diretor de 2007, para transformar o Centro em polo cultural e de serviços.

A Prefeitura, além de aguardar a liberação da verba, estaria, segundo Sérgio, fazendo levantamento de todos os edifícios públicos e privados da Região Central. A ideia é formar um cadastro de patrimônio arquitetônico e histórico.

“O bairro é pichado todo dia”

Para a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Goiás, Salma Saddi, a saída é envolvimento de todos os órgãos, porque não se trata de problema a ser enfrentado por uma ou outra secretaria.

Nas últimas décadas, a população do Centro de Goiânia reduziu. Como você vê isso?

Essa é uma questão que o Instituto doPatrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já vem apresentando para o poder público. O alerta é antigo. O esvaziamento vem acontecendo sim, e não só em Goiânia. Centros de cidades do interior também passam por esse processo, que acontece, em muito, por falta de políticas públicas.

Que tipo de política pública?

Veja bem, a ideia da Vila Cultural é muito interessante. Precisamos de alternativas como essa, para fazer com que as pessoas estejam e permaneçam no local. O Centro precisa ser promovido. Ele não é divulgado, ele é pichado todo dia. Existe uma cidade bela e com possibilidade de inúmeras atrações que muita gente não conhece. E isso depende de uma leitura interdisciplinar, entre as diversas secretarias. Não é coisa de Cultura, Turismo, Educação e Meio Ambiente apenas. Temos de evitar a transferência de culpa e priorizar por uma gestão compartilhada.

Outras capitais do Brasil também sofreram esse problema, certo?

Sim, essa é uma síndrome. Recife (PE), São Luís (MA) e Salvador (BA) passaram e passam por processos de revitalização. Só que estas são cidades do século 17 e 18. E Goiânia é uma capital muito nova para ouvirmos as mesmas queixas. Oitenta anos é muito pouco para a história de uma cidade.

O que é o Centro de Goiânia hoje?

Primeiro, deixo claro que temos uma cidade atraente e que não está difícil de melhorarmos, basta querer. Existem algumas intervenções pontuais, mas é preciso avançar. Hoje não temos um lugar referencial. Precisamos pensar a alma da cidade, e a alma é a receptividade que ela dá. O Centro, à noite, é escuro. De dia, a poluição visual salta aos olhos. A Avenida Anhanguera é linda, mas ninguém percebe a beleza, porque ela está escondida atrás das publicidades e letreiros. Isso diminui, inclusive, o vínculo com o local. Precisamos de uma política específica para o Centro.

Fonte: Jornal O Popular