10 de março de 2014

Transporte coletivo: Atrasos agravados por 3 motivos


O POPULAR constatou in loco os principais problemas que complicam a vida do passageiro de ônibus.

O passageiro de ônibus em Goiânia sofre com três problemas crônicos, constatados in loco pelo POPULAR durante três dias em três terminais: além do descumprimento da planilha que a própria Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) admitiu em fevereiro, o trânsito intenso que leva ao atraso em algumas linhas e, em alguns pontos, a demanda de passageiros bem maior que a oferta de veículos, mesmo quando o horário é cumprido conforme a planilha. A reportagem esteve nos terminais das Bandeiras, Praça da Bíblia e Cruzeiro, das 18 horas às 20 horas por três dias. Conferiu os embarques em linhas escolhidas com base nas reclamações dos leitores.

O Sindicato das Empresas do Transporte Coletivo (Setransp) reconhece que o problema nos horários tem acontecido “de forma generalizada e em todos os terminais”. No caso das linhas alimentadoras, aquelas que apenas levam as pessoas aos terminais, a situação é mais dramática e, segundo o sindicato, não tem adiantado nem “toda uma ginástica” para remanejar os veículos e suprir o aumento da demanda nos horários de pico. “Nos últimos cinco anos, houve aumento de 32% no número de veículos e, ao mesmo tempo, houve redução de 29% na velocidade média dos ônibus, ou seja, um ônibus que antes fazia 12 viagens agora faz 9 e algumas linhas acabam sendo suprimidas”, justifica o gestor de relacionamento do Setransp, Marcos Villas Boas.

A presidente da CMTC, Patrícia Veras, ressalta que os três problemas se relacionam e, com isso, se agravam. “Uma viagem não sai gera maior tempo de espera que, em seguida, causa superlotação”, afirmou. Desde fevereiro, a companhia intensificou as operações de fiscalização nos terminais. Apesar de não ter fechado um balanço da atividade, a CMTC afirma que foram constatados casos de descumprimento da planilha e superlotação.

DRAMAS URBANOS

O descumprimento da planilha atrapalha a vida de pessoas como o estudante Hyan Felipe Parreira Soares, de 18 anos. No dia 26, ele chegou ao Terminal Bandeiras às 18h20. Precisava pegar o ônibus 027 para ir à aula, que começa às 19h15. Mas, por conta de atraso nos ônibus, desistiu após esperar por cerca de uma hora.

“Saiu um ônibus às 18h23, mas estava lotado demais e decidi esperar o próximo. Ele costuma passar entre 18h40 e 18h45”. Mas as duas viagens seguintes previstas na planilha não ocorreram. A linha 027 (Terminal Bandeiras/T. Praça da Bíblia) passa pela Avenida T-7. Antes de chegar ao eixo que liga a Região Sudoeste ao Centro da capital, ela se subdivide em dois caminhos: um que passa pela Rua Luis de Matos, no Setor Sudoeste, e outro que passa pela Avenida C-8, na Vila dos Alpes. Para ir à escola, Hyan precisa descer na Rua Luiz de Matos.

Na planilha de viagens disponível no site do consórcio Rede Metropolitana do Transporte Coletivo (RMTC), entre as 16 horas e 19 horas, os ônibus da linha 027 devem sair do Terminal Bandeiras em um intervalo de no máximo 12 minutos. No quadro de horários detalhado, a ser cumprido pelas empresas, depois das 18h23, o ônibus que passa pela Rua Luís de Matos deveria partir às 18h41 e às 19 horas. Se uma dessas duas viagens tivesse acontecido, Hyan não teria perdido a aula. Mas o coletivo que ele precisava só saiu às 19h36. “É uma absurdo isso aqui. Sempre tem atrasos e quando chove ficar ainda pior”, reclamou o jovem.

No dia seguinte, a reportagem acompanhou a linha 027 na outra ponta, no Terminal Praça da Bíblia. Nesse dia, entre às 18 horas e 20 horas, o coletivo passou sem grandes atrasos, em relação à planilha apresentada no site da RMTC. É comum dois veículos chegarem juntos, indicando que o atraso provavelmente se deu por conta do trânsito. O mesmo acontece na linha 028.

Após às 18h40, percebe-se um espaçamento maior entre as a viagens. A vendedora Ana Cristina Aguiar, de 46 anos, sempre chega na Praça da Bíblia depois por volta de 19h e reclama do longo tempo de espera para embarcar no 027 (via C-8). “Tem dia que demora 40 minutos. Depois das 20 horas é pior ainda. Acho que deveria ter mais ônibus”, reclama.

SEMPRE SUPERLOTADO

Chama a atenção, no Terminal Praça da Bíblia, o embarque nos ônibus da linha 020. Apesar de passarem, na maioria das vezes, dentro do intervalo previsto, os veículos saem superlotados no horário de pico. tumulto é generalizado. No mesmo ponto, há o embarque e o desembarque das linhas 020 e 612. Os passageiros que precisam descer acabam imprensados pelos que querem entrar. “É sempre essa bagunça. Chega a passar até três ônibus de uma só vez, mas esse ponto está sempre lotado nesse horário”, disse o vendedor Mauro Silva Filho, de 42 anos.

No dia 28 de fevereiro, a reportagem acompanhou o embarque em veículos das linhas no horário de pico, no Terminal do Cruzeiro, em Aparecida de Goiânia. Não houve atrasos nas linhas 020 e 612, diferentemente do que foi visto nas mesmas linhas, no dia anterior, na Praça da Bíblia. Até o problema de superlotação foi menor, mas, segundo os usuários, foi um dia atípico, por conta da véspera do feriado de Carnaval, quando o trânsito da cidade contava com um número menor de carros.

Mas os usuários das linha 526 (T. Cruzeiro/Bairro Hilda) reclamavam da longa espera. O encanador Elmir dos Santos Cruz, de 25 anos, saiu do trabalho, no Setor Marista, por volta das 18h. Pegou um ônibus para o Terminal Cruzeiro, de onde sai a condução para o Bairro Hilda, onde mora. O veículo parou no ponto de embarque às 19h45, mas Elmir não conseguiu entrar. “Nesse horário, está sempre lotado. Acho que reduziram os ônibus porque no ano passado não era assim”, reclamou.

No terminal, há telas onde aparecem uma contagem regressiva do tempo de espera. Elmir olhou no aparelho e viu que o próximo ônibus demoraria 42 minutos. “Vou chegar em casa por volta das 21 horas. Como é que a gente não acha esse transporte péssimo?”

“Ninguém consegue cumprir mais o horário”

Tanto o Sindicato das Empresas do Transporte Coletivo (Setransp) como a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) admitem que os problemas constatados pelo POPULAR existem, mas, pelo menos conforme argumentos do Setransp, a solução não está perto de se concretizar. “Ninguém está conseguindo cumprir mais o horário. A causa disso não é o ônibus, está do lado de fora, na falta de infraestrutura para transporte público”, argumenta o gestor de relacionamento do sindicato, Marcos Villas Boas.

Villas Boas alega desequilíbrio do contrato, sem reajuste há quase dois anos e com aumento das gratuidades. “Não tem como fazer plano de contingência, ou seja, não tem ônibus nem motoristas reserva. Muitas linhas não estão saindo porque, se o motorista não aparece ou fica preso no trânsito, não tem outra pessoa para substitui-lo.”

A presidente da CMTC, Patrícia Veras, diz que o balanço de multas aplicadas durante as operações de fiscalização no mês de fevereiro ainda não está fechado, mas o objetivo dessas ações é realizar um diagnóstico do problema e discutir soluções. “As cidades brasileiras não foram pensadas para priorizar o transporte coletivo. A prioridade sempre foi o carro particular. Essa crise que Goiânia está vivendo, muitas capitais do País também estão enfrentado, como é o caso de Curitiba”, diz.

Para debater a crise no transporte, a Câmara Deliberativa de Transporte Coletivo (CDTC) se reúne hoje com integrantes do Conselho Municipal de Transporte e Mobilidade. No encontro, a CDTC deverá discutir, com entidades de classe e representantes sociais, as medidas deliberadas na reunião do dia 25 de fevereiro.

Fonte: Jornal O Popular