20 de março de 2014

O futebol goiano morreu, só não sabe disso ainda


A queda do Vila para a Série B estadual é só um sintoma da verdadeira doença, que é muito mais grave. Serra Dourada lotado na década de 80 e palco de brigas de torcida em 2014: sintoma do ocaso do futebol goiano.

Todo mundo falando do rebaixamento do Vila Nova como se fosse uma grande novidade. Na verdade, lá no fundo, todos sabiam que era questão de tempo: os dirigentes do Tigrão logo logo iriam alcançar a meta a que se propuseram há vários mandatos, como escreveu o meu colega Anderson Milhomem, vilanovense, em outro artigo aqui no Jornal Opção. Nunca houve uma orquestração coletiva tão harmônica para promover a derrocada de uma equipe.

Mas a queda do Vila para a Segundona goiana — que uns chamam de “Divisão de Acesso” para ficar menos feio — é só um detalhe. Ou melhor, um sintoma. A verdadeira doença é muito mais grave.

Ela se chama “falta de planejamento” e está matando não só o clube do Setor Universitário (aliás, tem gente que dizia que “o dia em que o Vila se organizar, acaba”; pois bem, está acabando exatamente porque não se organizou): é todo o futebol goiano e tudo que o cerca que estão entrando no buraco negro. E é uma obra coletiva, não só do grupo de cartolas lá do Onésio Brasileiro Alvarenga.

Goiás não estar no ostracismo do futebol nacional foi um acaso do destino. De fato, o que salvou o Estado de se transformar em um Mato Grosso da vida em termos de futebol tem um nome: Luvanor. Com ele, o Goiás construiu uma estrutura física capaz de fazê-lo permanecer entre os grandes do País — pelo menos nesse item. Em outros Estados, times que até aquele momento (corria o ano de 1983) tinham certa similaridade com o alviverde da Serrinha ficaram para trás. Foi o caso do Operário (MS), que durante a meia década anterior tinha sido 3º colocado no Brasileiro de 1977, 5º em 1979 e 7º em 1981. Sem ter estrutura para se manter entre os dez melhores times do País, o clube sul-mato-grossense afundou e sumiu do mapa do futebol. Assim aconteceram com outros clubes também medianos de Estados periféricos — Rio Negro (AM), Mixto (MT), Remo (PA): acabaram na sarjeta.

Puxado pelo Goiás, que entrou para o Clube dos 13 e assim se manteve na elite nacional, o futebol goiano sobreviveu razoavelmente bem durante essas décadas. Mas os clubes rivais do Verdão ficavam cada vez menores: no decorrer dos anos, o Vila Nova esteve sempre mais próximo da Série C do que da A; o Atlético amargou a Série B do Goiano e se reergueu surpreendentemente até chegar à 1ª Divisão Nacional, mas, endividado e sem categorias de base, já ensaia um retorno ao que era. O Goiânia finge que ainda existe, disputando a Segundona. Do interior do Estado surgem apenas times de verão, nada mais.

E o Goiás? Bom, o Goiás nunca quis ser nada mais do que o maior clube do Estado — ou do Centro-Oeste, tanto faz. É isso o que pensa sua diretoria. Talvez tenha lógica: como continua dirigido pelo mesmo comandante, Hailé Pinheiro, que o salvou do rebaixamento no Estadual de 1965 quando era o clube era o menor da capital, é até natural que ter o título de “Gigante do Cerrado” seja algo de que se orgulhar. Pra que mais?

Agora, falando existencialmente: de que adianta ser o maioral sem concorrência? O Goiás hoje é como o cachorro nanico, mas único, da casa: como não tem outro, é o cão de guarda. Quem não tem rottweiler caça com pincher. E o Goiás, por usar somente esse tipo de comparação, está muito satisfeito em ser o dono do pedaço — aqui, mesmo sendo pincher, é o único que late.

Acaba não percebendo que isso é terrível para si mesmo. Em médio prazo, sem rivais e sem maiores ambições, o que será do Goiás? O poderoso rei de Lugar Nenhum. Que torcedor quer um time assim? Que patrocinador investiria em algo tão insosso? Então, sem apoio humano nem financeiro e já com uma grande dívida nas costas (falam que, só com a União, é algo superior a R$ 60 milhões), a tendência será a de também entrar em uma espiral que, aí sim, o impedirá no futuro até mesmo de ser o que é hoje.

E fora das quatro linhas o que há de perspectiva? Goiânia está fora da Copa; O Estado de Goiás não receberá nem a seleção de Honduras para estadia durante o Mundial; o Serra Dourada, sucateado e sem Copa, nunca esteve tão decadente e desconfortável; as arquibancadas foram tomadas de vez pelas torcidas organizadas que o Ministério Público extinguiu — uma medida que se confunde ao mesmo tempo com piada do ano e realismo fantástico, diga-se; a torcida de verdade fugiu, não se sabe ainda se mais pela violência das gangues ou pelo horror do que vê dentro de campo; a PM exibe sua truculência no trato a quem ainda resiste e vai ao estádio; a Justiça não pune os arruaceiros; a Federação Goiana de Futebol não faz nada para que seu torneio pareça pelo menos “assistível”; e a imprensa esportiva pensa, pergunta e comenta da mesma forma que 30 anos atrás.

De um conjunto de gente tão despreparada, não se poderia esperar outra coisa: o retorno ao amadorismo. Não houve qualquer tipo de planejamento para que o Estado crescesse, coisa que Santa Catarina soube fazer com esmero. O resultado são cinco clubes (Criciúma, Figueirense, Chapecoense, Avaí e Joinville) nas Série A e B do futebol, um número inferior somente a São Paulo.

Quem gosta de piada fala que o Vila vai acabar disputando o torneio da várzea. O que não sabem é que a várzea já está aí: na verdade, o Vila foi rebaixado no campeonato da várzea. O futebol profissional goiano acabou e está como o dr. Malcolm Crowe, personagem de Bruce Willis em “Sexto Sentido”: morreu, mas não sabe disso.

Fonte: Jornal Opção