26 de março de 2014

Goiânia: Violência gera gasto de R$ 31 milhões no SUS


Valor referente às chamadas “causas externas” representa 13,6% do gasto total de internações na rede na capital

O aumento da criminalidade tem impacto direto na rede pública de saúde. Assim como a polícia, o sistema de saúde está na linha da frente da situação e consegue mensurar a evolução dos índices de violência, a partir da quantidade de procedimentos realizados. Só no ano passado, quase R$ 31 milhões foram empregados na saúde de Goiânia para custear internações motivadas pelas chamadas causas externas, ou seja, violência e acidentes em geral. A quantia equivale a 13,6% de tudo que foi gasto para pagar todas as internações realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) na capital, em 2013.

No comparativo com as demais motivações, as causas externas ocupam a primeira posição em números de internação, a segunda em impacto financeiro e a terceira em números de óbitos. Entre os pacientes residentes em Goiânia, 1.054 pessoas morreram nas unidades públicas de saúde, no ano passado, vítimas de violência e acidentes. Ao incluir os pacientes de outras cidades que são transferidos para a capital, esse número sobe para 1.781 registros, dos quais o principal motivo é o homicídio.

A diretora de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Flúvia Amorim, informa que, desse total de 1.781 mortes, 799 foram motivadas por assassinato. Elas correspondem a 44,8% de todos os óbitos motivados por causas externas e são 60,1% maior que o total ocasionado pela segunda principal causa de morte da categoria, que são os acidentes de trânsito. Em 2013, a rede de saúde de Goiânia registrou 499 casos de morte em decorrência de acidentes de carro e moto.

“O que a gente percebe é que tanto os homicídios como os acidentes de trânsito vêm aumentando de ano para ano. A curva é ascendente, e destacamos esses dois casos, porque o mesmo não acontece com a motivação que vem em terceiro lugar, que é o suicídio. Nos últimos 10 anos, o índice de mortes por suicídio, na rede pública, está praticamente estável”, afirma a diretora. Ela informa, ainda, que a maioria das vítimas de assassinato que passam pelas unidades do município são homens da faixa etária entre 15 e 44 anos.
Flúvia explica que ao analisar os índices de natalidade de Goiânia, percebe-se que a quantidade de nascimentos de homens e mulheres é praticamente a mesma. A diferença entre um gênero e outro se dá na adolescência e fase adulta, justamente, por causa da mortalidade maior entre os homens no decorrer da vida. E ela pontua, ainda, outro motivo de preocupação em relação a esse fenômeno, porque os homens estão sendo assassinados na fase economicamente ativa, o que pode gerar consequências futuras não só sociais, mas também econômicas.

COMPLEXIDADE

O impacto na saúde se dá de diversas formas. Além de essa situação requerer uma adaptação da rede pública para melhor atender e absorver a crescente demanda desses pacientes, exige-se ainda um investimento grande. O elevado custo é reflexo da complexidade dos casos, dos exames e dos procedimentos realizados. Conta-se, ainda, a necessidade de garantir o pós-cirúrgico, com oferta de reabilitação e reversão de possíveis sequelas e o tempo de internação desse tipo de paciente nas unidades de saúde, que geralmente é grande, se comparado a outros exemplos.

No que se refere ao trânsito, a Prefeitura começou a desenvolver no ano passado, unindo ações da Saúde e da Secretaria Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (SMT), o projeto Vida No Trânsito, que, de acordo com Flúvia Amorim, tem trazido bons resultados na redução da mortalidade.

Cirurgias aumentam 48,6%

No Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), a quantidade de procedimentos também varia à medida que a criminalidade aumenta. Em 2012, foram realizadas 1.606 cirurgias em decorrência de agressão física e perfurações por arma branca e arma de fogo. No ano passado, por causa dos mesmos motivos, o total de cirurgias feitas foi de 2.387 - um aumento de 48,6%. “Realmente é assustador o aumento de violência e, além de isso impor a necessidade de uma contrapartida nossa da área da Saúde, nos preocupa também enquanto cidadãos e moradores da região metropolitana”, afirma o diretor geral do Hugo, Ciro Ricardo Pires de Castro.

Outro fator que demonstra o avanço das cirurgias motivadas pela violência é a representatividade delas em relação ao total de procedimentos por causas externas. Em 2012, das 9.250 cirurgias realizadas no Hugo por causas externas, 17,3% foram por motivos diretamente ligados à violência interpessoal - agressão e perfuração do corpo por arma branca e arma de fogo. No ano passado, esse percentual subiu para 19,3%, diante dos 11.949 procedimentos efetuados.

O diretor do Hugo destaca a adequação da Saúde estadual que tenta corresponder, de certa forma, a esse contexto de aumento dos procedimentos motivados por causas externas. Uma das ações é o projeto do governo de tentar multiplicar a quantidade de hospitais no Estado.

Fonte: Jornal O Popular