3 de março de 2014

Escola de tempo integral: Especialistas cobram qualidade


Estado segue tendência nacional de aumento do número de unidades em que alunos permanecem o dia todo.

De acordo com o último Censo da Educação Básica, divulgado na semana passada pelo Ministério da Educação (MEC), o número de alunos matriculados em horário integral nas escolas brasileiras, tanto da rede pública quanto da rede particular de ensino, mais que dobrou entre 2010 e 2013: de 1,3 milhão passou para 3,1 milhão, um salto de 139%. Em Goiás, a realidade não é diferente. No ano passado, o MEC verificou um total de 104,3 mil estudantes matriculados no ensino fundamental, em instituições de tempo integral, contra 48,4 mil em 2010, o que representa aumento de 115% no número de matrículas nesse tipo de estabelecimento de ensino, no Estado.

Com a elevação desses porcentuais, Goiás e Brasil caminham rumo a alcançar uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE), que está em análise no Congresso Nacional e estabelece a política educacional para o decênio 2011-2020. A proposta é de que 50% das escolas públicas de educação básica desenvolvam suas atividades em jornada ampliada – para um período mínimo de sete horas – até 2020. É preciso, contudo, compreender melhor o que significa esse esforço pela ampliação da jornada nas instituições de ensino e pela diversificação das atividades educativas oferecidas a meninos e meninas do 1º ao 9º ano.

Embora se trate de uma prática comum em países desenvolvidos, para alguns especialistas a jornada ampliada pode não significar uma melhoria automática do sistema educacional. “É preciso que esse tempo a mais seja utilizado de forma integrada com o projeto pedagógico, que tenha um significado no aprendizado da criança”, argumenta a gerente da Área Técnica do Movimento Todos Pela Educação, Alejandra Miraz Velasco. “Vemos de forma positiva esse crescimento, mas aguardamos maiores detalhes sobre os dados para avaliar de que forma isso está sendo feito.”

FORMAÇÃO INTEGRAL

“Não basta aumentar o tempo. Até porque, se você aumentar o tempo de funcionamento de uma escola em que as condições são muito precárias, você está aumentando o tempo de uma aprendizagem precária; não resolve”, completa a coordenadora do Programa de Educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, Maria de Salete Silva. Na avaliação das especialistas, apesar de o conceito de educação integral ainda estar em construção, ele pode ser entendido como um ensino que possibilita uma formação mais completa para o aluno enquanto ser humano e não apenas como estudante.

Trabalhar com essa perspectiva significa conciliar os conteúdos didáticos com outros aspectos da vida. Ou seja: as crianças devem ser incentivadas a desenvolver diferentes formas de expressão, como a artística, física, intelectual, digital e social, mas, tudo, de forma integrada com os conteúdos escolares tradicionais, com o ensino regular. “E o que é mais importante: essa integração em jornada ampliada não deve se traduzir apenas em assistência, como, muitas vezes, podemos observar”, acentua Alejandra Velasco.

Atualmente, das 957 escolas da rede pública de Goiás que oferecem o ensino fundamental, 141 são de tempo integral, seguindo os parâmetros do Projeto Escola Estadual de Tempo Integral, conforme informa a superintendente de Ensino Fundamental da Secretaria da Educação (Seduc), Viviane Pereira da Silva Melo. Só neste ano, diz ela, seis unidades passaram a oferecer o regime integral na capital – Colégios Estaduais Presidente Dutra, no Setor Leste Universitário; Eunice Weaver, no Urias Magalhães; Visconde de Mauá e Dom Abel, no Setor Pedro Ludovico; Francisco Dantas, no Residencial Mansões Paraíso; e Edmundo Pinheiro de Abreu, no Bairro São Francisco.

Segundo Viviane, das 141 escolas de tempo integral existentes, hoje, na rede pública, 80 atendem alunos do 1º ao 5º ano; 51, do 6º ao 9º ano; e, 10, do 1º ao 9 ano. Nessas unidades, os estudantes têm aulas do currículo básico pela manhã e permanecem na escola no horário do almoço, acompanhados por professores da rede em atividades de convivência, hábitos higiênicos e alimentares. À tarde, durante a semana, 20 horas semanais são dedicadas a atividades em quatro campos temáticos: apoio à alfabetização e letramento; apoio à matemática; atividades artísticas e culturais e atividades práticas esportivas e corporais.

“Letramento e matemática não são aulas de reforço; são atividades específicas, planejadas, assim como a prática de modalidade esportiva não é aula de educação física. Tudo é feito e registrado dentro de uma proposta pedagógica”, pondera Viviane Melo, lembrando que, ao final do dia, os alunos do tempo integral terão contabilizado um período de nove horas e meia dentro da escola, “mais do que as sete horas mínimas estabelecidas pelo PNE”.

O POPULAR visitou, na sexta-feira, uma dessas unidades – o Colégio Estadual Genesco Bretas, no Setor Recanto do Bosque – e conversou com alguns alunos. A maioria relatou preferir passar todo o tempo na escola a ficar em casa ou na rua. Eles também acreditam ter melhorado o desempenho escolar. O último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica da unidade de ensino ultrapassa a média nacional: 4,7, contra 4,1. 115 é o porcentual de aumento das matrículas nas escolas de tempo integral de 2010 a 2013 104 mil. É o número de alunos matriculados nas escolas goianas de tempo integral

Experiência chega ao ensino médio

Em Goiás, a experiência de atender alunos em tempo integral extrapola os limites do ensino fundamental e chega ao ensino médio. Implantado em 15 escolas da rede pública estadual no ano passado, o Programa Novo Futuro chega, em 2014, a outras sete unidades, atendendo, com uma grade de 45 horas semanais e 3 refeições diárias, um total de 6 mil estudantes. Pouco, ainda, se considerado o universo de 260 mil adolescentes matriculados em 627 escolas.

“Ainda estamos só começando, mas, o que já foi feito até aqui, mostra que esse pode ser um bom caminho para minimizar os efeitos do grande gargalo da Educação, que é o ensino médio”, destaca o superintendente do Ensino Médio da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), Fernando Pereira.

São nove aulas diariamente, das 7h15 às 17 horas, incluindo disciplinas como Protagonismo Juvenil e Projeto de Vida, além de aulas de reforço para o vestibular e espaços opcionais, na grade, para teatro, esporte e música. O custo, segundo Fernando, é alto: envolve gratificação de aproximadamente R$ 2 mil para uma média de 30 professores por escola, em regime de dedicação exclusiva.

Um dos exemplos, na capital, é o tradicional Colégio Lyceu de Goiânia, onde estuda a jovem Taynara Derci Mesquita, de 18 anos, que, depois de um ano estudando por apenas um turno no Colégio Estadual Jardim Europa, vibrou ao conseguir vaga na escola do Centro. “Aqui, o acompanhamento é mais individual e a gente tem maior interação com os professores e colegas”, conta Taynara, responsável pela percussão na banda do Lyceu.

Promessa era mudar todas as unidades

Apesar do crescimento apontado pelo MEC no número de matrículas em escolas de tempo integral em Goiás, o porcentual está bem distante do prometido pelo governador Marconi Perillo durante o período eleitoral: o compromisso era transformar 100% das unidades de ensino fundamental existentes em escolas de tempo integral. O governo alega que aderiu ao Programa Mais Educação, da União, que amplia atividades e tempo de permanência das crianças nas escolas, alcançando outras 730 unidades, mas elas não podem ser consideradas escolas de tempo integral.

“O que temos são prédios, em sua maioria velhos, mal adaptados às necessidades físicas dos alunos, com profissionais não preparados para atender à demanda específica. As escolas de tempo integral, nos moldes existentes, buscam atender aos alunos não priorizando o cognitivo, cuja maior responsabilidade seria da instituição escolar, mas, em detrimento deste, fazem o que seria papel da família, diz a especialista em Gestão Escolar e Orientação Educacional graduada pela Universidade Federal de Goiás, Joana D’Arc Moreira Alves.

Fonte: Jornal O Popular