18 de fevereiro de 2014

Transporte público: Muitos protestos e pouca ação








Enquanto manifestações se tornam cotidianas, poder público fica 5 meses sem discutir tema

A crise do transporte público da região metropolitana de Goiânia se acentua a cada dia e, da mesma forma, as reclamações, as dificuldades enfrentadas pelos usuários e as manifestações de populares, assim como a que ocorreu ontem no Terminal Praça da Bíblia. O terminal ficou fechado pela manhã por três horas e meia depois de usuários impedirem a saída de veículos devido ao atraso de ônibus.

A manifestação, mais uma vez, terminou em confronto com a polícia. A dinâmica das reclamações e revolta dos usuários, no entanto, é oposta à velocidade com a qual o problema é tratado pelo poder público. O assunto não é tema de discussão entre as autoridades desde setembro do ano passado, quando aconteceu a última reunião da Câmara Deliberativa de Transportes Coletivos (CDTC). Já se vão cinco meses de incertezas, indecisões, promessas não cumpridas e aumento da revolta da população que sofre diariamente com atrasos, ônibus velhos e superlotação.

De um lado, o poder público que mais se caracteriza pela inércia, falta de iniciativa e soluções. Do outro, as empresas concessionárias que alegam crise financeira e afirmam, abertamente, terem deixado de manter o sistema de transporte da maneira adequada, desde que ocorreu o congelamento da tarifa em R$ 2,70, no ano passado. E no meio disso tudo, desse impasse que se prolonga e sacrifica justamente os mais frágeis, está o trabalhador comum, o estudante, o morador de cidades próximas, homens e mulheres que, imbuídos de revolta, estão demonstrando nas últimas semanas, com uma série de manifestações, a expressão do cansaço.

“Chegou no limite? Sim, chegou no limite”, reconhece o secretário estadual de Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos, João Balestra. Ele, que também é presidente da CDTC, anunciou ontem que a primeira reunião do ano, depois do hiato de cinco meses, vai ocorrer na próxima semana. Provavelmente, na segunda-feira (24). “Conversei com alguns prefeitos e pedi sugestões concretas para serem apresentadas na reunião. Esse é um caminho sem volta. Precisamos discutir e colocar a cara para bater. Eu, como presidente da câmara, apenas delibero. Eles, enquanto representantes, precisam trazer para a reunião uma pauta proativa”, expõe.

De antemão, Balestra afirma que pretende inserir novos atores na discussão. O principal deles é o governo federal. A ideia é fazer uma audiência pública, com presença de representantes da União, para discutir uma proposta que já vem sendo iniciada entre o Estado e os municípios, que é a criação do Fundo de Transporte das Regiões Metropolitanas. A concentração de verba e de subsídios é uma forma de financiar as gratuidades do sistema, embutidas no preço da tarifa e, da mesma forma, segundo o secretário, criar uma expectativa positiva das empresas em relação à disponibilidade de dinheiro para financiar e sustentar o transporte.

O governo federal entraria porque Balestra acredita que uma parte do financiamento também deve partir da União, uma vez que diversas leis que afetam o transporte público partem do Executivo nacional. Além disso, no pacto federativo, 70% da receita arrecadada vai para os cofres da presidência e a distribuição desse “bolo” é um argumento defendido pelo secretário. “É um ator indispensável. O governo federal precisa entrar. O problema hoje é que tudo está caindo sobre o ombro do usuário. Ele sozinho está arcando com tudo.”

Procurado pela reportagem, o prefeito Paulo Garcia (PT) indicou a presidente da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), Patrícia Veras, para falar sobre o assunto. Ela também não se dispôs a falar e a assessoria de comunicação informou apenas que o agendamento de novas reuniões depende da CDTC e que o objetivo, neste momento, está na melhora do serviço, com reforço das fiscalizações e pedidos à Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) para que as linhas sejam normalizadas.

Impasse também quanto ao reajuste

É previsto no contrato de concessão do sistema de transportes o reajuste tarifário anual e o tema, provavelmente, será levado à discussão nas próximas reuniões da Câmara Deliberativa de Transportes Coletivos (CDTC). Com o congelamento da tarifa, aumento do valor do combustível, aproximação da data base dos motoristas e necessidade de renovação e manutenção da frota, a possibilidade se reforça a cada dia. Se isso não ocorrer, adianta a Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC), o contrato terá que ser readequado e exigências de manutenção canceladas para que se atinja novamente o equilíbrio contratual.

O secretário estadual de Infraestrutura, Cidades e Assuntos Metropolitanos, João Balestra, disse que está aguardando um estudo da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) para ver se tem ou não a necessidade de reajuste. “Existe um contrato e temos que cumpri-lo. Não podemos levar a situação à Justiça, porque todos perdem com isso.” Em contrapartida, a CMTC diz que ainda não foi iniciado nenhum estudo sobre o reajuste e que não há previsão para isso.

Atraso deixa terminal sem funcionar

A manhã de ontem foi de tumulto no terminal da Praça da Bíblia, em Goiânia, causando mais um início de semana complicado para milhares de usuários do transporte coletivo. O atraso de 50 minutos de um ônibus que faz a linha 019, que liga os terminais Cruzeiro do Sul e Praça da Bíblia, provocou a revolta de passageiros que decidiram impedir a passagem do veículo. A manifestação dos trabalhadores atraiu para o local estudantes que integram a Frente de Luta Pelo Transporte. Os manifestantes e policiais, chamados para conter a situação, entraram em confronto, com o lançamento de spray de pimenta e bala de borracha. Três pessoas foram detidas.

Genilson Rodrigues, motorista da linha 019, contou ao POPULAR que saiu do terminal Cruzeiro do Sul às 6h20 na primeira viagem do dia e chegou à Praça da Bíblia às 7h40. “Tinha uma fila enorme aqui, não cabia todo mundo no ônibus, por isso as pessoas se revoltaram”. Quéssia Silva, funcionária de uma empresa de serviços gerais, chegou ao terminal às 7 horas e conseguiu uma vaga, mas de nada adiantou. “O ônibus estava lotado demais e agora tenho de ficar aqui até essa manifestação terminar porque meu patrão disse que vai cortar o meu dia”.

No Eixo Anhanguera, cujo serviço é da responsabilidade da Metrobus, havia três veículos articulados de cada lado, e pelo menos sete das linhas alimentadoras. Nenhum ônibus saiu ou entrou das 8 às 11h30. Do lado de fora e dentro do terminal cerca de 20 viaturas da Polícia Militar.

Em pouco tempo a região da Praça da Bíblia ficou bastante tumultuada. Na Avenida Anhanguera, rumo ao Jardim Novo Mundo, manifestantes conseguiram atear fogo em pneus, mas, em direção ao Centro foram impedidos por policiais militares. A SMT enviou agentes para o local para controlar o tráfego nas Ruas 261, 256 e Avenida Universitária, para onde os ônibus das vias alimentadoras foram desviados. Na saída do terminal, operadores do sistema, com o crachá escondido, orientavam os passageiros.
CMTC

“Essa molecada só quer fazer bagunça, prejudicando a população que precisa de ônibus. Por que não fazem manifestação diante da Companhia Municipal de Transporte Coletivo (CMTC) que é responsável por esse serviço ruim?”, questionou Queiti Xavier, que voltava para casa pelo Eixo Anhanguera.

Luiz Alves trabalhou a noite toda e chegou às 7 horas na Praça da Bíblia. “O governo é cúmplice disso tudo aqui. A empresa de transporte coletivo apoia o político que é eleito e depois massacra o povo. Nós também somos responsáveis por não saber votar”, disse Luiz.

Para RMTC, problema é falta de prioridade

Responsável pela fiscalização do sistema, a CMTC informou que diante dos atrasos nas linhas que atendem o terminal Praça da Bíblia, acionou a CMTC para que a operação voltasse à normalidade, sem prejuízos aos usuários. A CMTC garantiu que seus fiscais estavam acompanhando o sistema nas plataformas.
O consórcio que forma a Rede Metropolitana de Transportes Coletivo (RMTC) informou que não há problemas na linha 019. “A origem do problema tem sido o trajeto no trânsito. A solução são os corredores exclusivos. Se o ônibus não tiver prioridade, não chega”, afirmou a Assessoria de Comunicação da RMTC.

Segundo usuários, normalmente a linha 019 tem ônibus deixando o terminal Praça da Bíblia às 6h45, às 7h15, às 7h30 e às 7h40. Ontem, depois que saiu o primeiro, só apareceu o das 7h40, revoltando os passageiros. Um motorista que não quis se identificar confirmou que veículos foram retirados da linha.

Porta-voz da Polícia Militar, o coronel Divino Alves lamentou o desenrolar dos acontecimentos na Praça da Bíblia. “Cada vez que tem uma manifestação em algum lugar, alguém está ficando sem policiamento porque temos de deslocar um grande efetivo. E a maioria das vezes isso ocorre por inércia dos órgãos competentes”, afirmou.

Fonte: Jornal O Popular