11 de fevereiro de 2014

Art déco: um símbolo que a população pouco conhece

Goiânia possui um importante conjunto arquitetônico nesse estilo, mas grande parte dele está coberta e espera por restauração
Fernando Leite/Jornal Opção
Relógio da Av. Goiás: um dos principais símbolos de art déco da
cidade representa também a passagem de tempo para uma possível
restauração
Marcos Nunes Carreiro
A arquitetura é uma arte. Quem há de dizer que não? Afinal, ela provém de duas das mais antigas necessidades do homem: habitar e admirar. Sim, a admiração é também uma necessidade, um modo de saber ver e sentir. Ninguém quer morar em um local desagradável –– ou talvez haja alguém? É sempre complicado generalizar. Mas o fato é que, obstante da vontade geral ou alheia, a arquitetura é uma arte que, ao contrário de muitas outras, nunca conheceu paralisações e está em constante evolução. As pessoas param na rua para admirar um prédio bem desenhado, ou uma casa com um traçado singular de arte.
É claro que esse tipo de atitude não acontece quando a arte arquitetônica está escondida ou difusa em meio à grande quantidade de informação do Centro de uma grande cidade. Em Goiânia, por exemplo, ainda é possível ver algumas raras pessoas repararem nas obras de arte que estão nas fachadas dos prédios antigos que ainda se mantêm de pé.

Monumentos arquitetônicos que formam um conjunto importante e que reconta a história da capital de Goiás, pois fazem parte de um único projeto e da influência sofrida por seu arquiteto.
Goiânia foi uma cidade planejada para ser a capital. Logo, reteve uma estruturação influen­ciada, à época, pelas mais recentes teorias de planejamento urbano. Atílio Correia Lima havia voltado a pouco de Paris, onde estudou urbanismo, quando desenhou a cidade. Advém daí os conceitos usados em grande parte dos edifícios que compõem, hoje, o centro da capital: art déco. A importância desse estilo que predominou a arquitetura da nova cidade está no fato de o art déco ter sido transitório, isto é, um estilo que fez a passagem do art nouveau para o modernismo. Durou pouco mais que uma década, mas o suficiente para colocar Goiânia em seu mapa de abrangência.

Passear pelo Setor Central de Goiânia atentando-se para os detalhes significa ter uma vasta noção de história. Ao sair da chamada Praça Cívica –– uma vez que seu nome é Praça Doutor Pedro Ludovico Tei­xei­ra — em direção à Avenida Goiás, é possível passar pelo Coreto, com suas formas geométricas e que de­monstram uma característica do art déco: a modernidade nos traços somada à composição clássica de base, corpo principal e coroamento. Mes­mo estilo seguido pelo relógio que está logo abaixo dele, o início da Avenida Goiás.
Porém, o relógio irá de­monstrar ainda mais proeminentemente o principal fator do art déco: o rigor geométrico e a presença de linhas verticais, com o objetivo de tornar, à vista, as construções mais altas. Os edifícios em que se pode ver com mais facilidade essa técnica são o Teatro Goiânia e a Estação Ferroviária –– localizada na Praça do Trabalhador. Duas construções capazes de fazer parar quem lhes olha com atenção. O teatro é musa para fotógrafos que à luz da manhã de um sábado, por exemplo, deixam suas casas apenas para vê-lo através da lente da câmera.

Inicialmente chamado de Cine Teatro Goiânia, o local não apenas é capaz de desanuviar o pesado cenário proposto pela atual Avenida Anhanguera, marcada pela frenética e afobada pressa do dia a dia, que impregna a sociedade nos dias de hoje. Surge daí um novo conceito de arte. Aquilo capaz de reter a compenetração do obrigatório e levar seus admiradores a um estado mais sensato, que não o estresse habitual do sistema socioeconômico atual. Dessa forma, vemos algo antigo, porém atual e por dois motivos: um prédio com suas funções originais –– afinal o Teatro Goiânia é um dos principais locais de concentração da vida cultural goianiense; e uma obra de arte que alivia o avanço irrefreável da insanidade humana no século XXI.
Nesse sentido, todas as outras construções artísticas –– e não apenas as de art déco — deveriam servir para esse propósito. Porém, é difícil que as obras sirvam a esse propósito se não se pode vê-las, se estão escondidas pela modernidade. Se você, caro leitor, conseguir, na correria diária –– uma vez que o Setor Central, além de histórico, é também o centro comercial e financeiro da cidade –– parar e ver aquilo que narro aqui, é possível que deseje, num exercício contínuo de imaginação, voltar ao passado para estar ali.

O estilo art déco 

Márcia Metran de Mello, em seu livro “Goiânia: cidade de pedras e de palavras”, classifica o estilo art déco como sendo uma manifestação do início do século XX. Uma linha divisória entre o art nouveau e o modernismo. Porém, o art déco teria surgido para contrapor o primeiro, que se inspirou “na natureza para produzir o seu repertório de formas”. Já o art déco –– termo cunhado na década de 1960 e a forma diminutiva de art décoratif –– “recorreu a fontes heterogêneas e pré-existentes (enquanto elaborações humanas), embora o resultado tenha sido um arranjo inédito”.
O art déco nasceu das artes decorativas, diferentemente da maioria das expressões artísticas ocidentais. Devido a isso, houve certo preconceito do meio acadêmico ao estilo, o que fechou as portas para estudos a respeito dele. “Vale lembrar que no primeiro plano focal da intelectualidade, até meados do século XX, estava o modernismo, principal fonte de pesquisa e debates: uma bandeira a ser defendida. Em conseqüência dessa atitude, conjuntos e mais conjuntos de edifícios art déco foram postos abaixo, sem uma avaliação qualitativa prévia, mínima que fosse”, aponta Márcia.

O interessante é que, apesar de ter nascido no centro das manifestações modernistas dos primeiros anos do século XX, o art déco trouxe consigo o ecletismo do século XIX, uma manifestação do romantismo na arquitetura, que buscava elementos do passado para compor a fisionomia dos edifícios. Vem daí a concepção de zigurate, por exemplo, vista em algumas construções do estilo déco. Zigurate é uma forma de templo criada pelos antigos povos sumérios, mas bastante comum para babilônios e assírios. Isto é, o art déco resgatou aspectos da antiguidade, dando-lhes nova roupagem.

“Em 1922, Howard Carter descobriu a tumba de Tu­tankhamun no Vale dos Reis, fato que suscitou grande encantamento na população mundial. Em decorrência desse impacto, vários edifícios e objetos déco apresentaram decoração feita com motivos egípcios, fazendo uma espécie de retorno à onda de orientalismo do século XIX”. Depois, o estilo tomou contornos mais modernistas, contornos estes que predominam nas construções goianas.

Uma nova vida para o centro da cidade 



Beatriz Otto, coordenadora técnica do Iphan: “A preservação não impede o uso. Pelo contrário: o uso é fundamental”

Desde 2003, os traçados urbanos originais do centro de Goiânia e do núcleo pioneiro do bairro de Campinas, além de 22 prédios e monumentos públicos art déco, foram tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o que os protegem, de certa maneira. Mas qual a real importância de um conjunto arquitetônico como o de Goiânia?

Primeiro, o fato de terem sido tombados pela esfera federal aglomera o valor a esses patrimônios de Goiânia, uma vez que, ao ter a iniciativa, o Iphan entendeu que esses edifícios e monumentos tinham valor histórico associado ao processo de ocupação do território nacional, ou seja, que eram a representação material de um contexto histórico pelo qual o país passou, de ocupação do centro-oeste brasileiro, de construção de novas cidades, alinhadas aos novos conceitos de salubridade e urbanidade. Isso não significa que os demais edifícios construídos naquele período –– comerciais e institucionais particulares que também adotaram o art déco, as habitações “casas-tipo”, etc. ––, assim como os construídos posteriormente, como o importante conjunto modernista presente na cidade, também não tenha valor ou mereçam ser preservados.

Pelo contrário. Porém, para que houvesse a preservação desse conjunto em específico foi feito um recorte: a arquitetura institucional e oficial do primeiro período de ocupação da capital. Logo, o conjunto de Goiânia é importante por um motivo em especial: o fato de ter sido o estilo arquitetônico adotado como oficial para a construção dos edifícios institucionais da nova capital. O art déco que foi adotado nos edifícios públicos serviu como modelo para grande parte dos edifícios institucionais particulares, isto é, comerciais, hotéis, escolas, etc., embora pouco utilizado em residências, em um primeiro momento.

E se é importante, além de ter uma função –– como já expresso anteriormente –– é necessário que esse conjunto arquitetônico seja preservado, por que não restaurado? Isso nos leva a uma discussão mais profunda e técnica. Assim, a partir deste ponto, será necessário o parecer de Beatriz Otto de Santana, coordenadora técnica do Iphan, afinal nem todos os prédios que dariam nova vida ao Setor Central estão sob a tutela do poder público, mesmo que tenham sido tombados como “patrimônios históricos”. Assim, o que os donos poderiam fazer a respeito e que incentivos teriam para fazê-los?
–– A responsabilidade de manter e zelar por um patrimônio é de seu proprietário, diz Beatriz. O tombamento não tira essa responsabilidade do proprietário. No caso dos bens tombados pelo Iphan em Goiânia, todos eles são de responsabilidade dos órgãos públicos neles instalados. Para os edifícios particulares, mesmo os não protegidos pelo tombamento, existem instrumentos previstos no Plano Diretor que podem (e devem) ser implementados, tais como isenção ou redução do IPTU, transferência do direito de construir, etc. O Iphan, através do PAC das Cidades Históricas, irá disponibilizar uma linha de crédito especial para os imóveis particulares tombados ou localizados em áreas de entorno (para cada bem tombado, existe uma área envoltória que também é necessário proteger). No caso de Goiânia, aqueles imóveis localizados no entorno desses bens poderão ser contemplados. Será um empréstimo, através da Caixa Econômica Federal, com taxa de juro quase 0%, significativo prazo de carência e amortização da dívida, que será disponibilizado àqueles proprietários que tiverem o projeto arquitetônico aprovado pelo Iphan. Certamente, o projeto deverá atender às diretrizes de preservação do bem.

Aqui temos um ponto. A importância está em dois fatores: preservar e restaurar. Neces­sariamente nessa ordem, pois não se pode construir aquilo que não existe mais, certo?
–– Qualquer intervenção em um bem que é consagrado como “patrimônio histórico” é sempre mais criteriosa, pois deve partir de uma rica pesquisa histórica que entenda seus diversos momentos (as intervenções pelas quais ele já passou), seus sistemas construtivos e as principais patologias (danos) nele identificadas. Por isso deve ser feito por um profissional devidamente habilitado. A coordenação desse processo é de um arquiteto urbanista, mas, geralmente, são formadas equipes multidisciplinares, incluindo profissionais de diversas áreas de engenharia, restaurador de bens artísticos, historiador, paisagista, dentre outros, a depender do tipo da intervenção e do objeto a ser restaurado. Um processo de restauro, nada mais é que solucionar todas as patologias identificadas no edifício (inclusive, suas causas), reconstituir (no que for possível) sua originalidade e dotá-lo de condições para o uso atual. O processo de restauração sempre implica eventuais perdas. Isso se deve à própria vida útil dos materiais. Além disso, alguns elementos construtivos não são possíveis mais de ser feitos. Assim, como qualquer bem material, sempre devemos adotar como princípio as ações de manutenção e conservação preventivas para não deixar o monumento entrar em processo de perda/arruinamento. Muitas vezes um edifício cai porque uma simples telha não foi trocada e gerou um ponto de infiltração de tal maneira que causou um abalo estrutural. Nesse sentido, o uso é o melhor “remédio” para dar maior longevidade a um bem. Aqueles edifícios que são utilizados no dia a dia, naturalmente, possuem uma manutenção. O simples fato de “abrir as janelas” todos os dias é importante para preservar um bem, pois faz com que um eventual acúmulo de água se evapore.

Grande parte dos prédios do Setor Central está ocupada e a maioria deles escondida por trás de marquises ou anúncios, o que pode significar que pouco se mexeu ali. Ademais, como diz Beatriz, esses edifícios são a materialidade da ocupação do território nacional, impulsionada pela “Corrida para o Oeste” –– programa regido pelo então presidente Getúlio Vargas ––, e dos desejos “modernizantes” de se construir um novo país naquele contexto de Estado Novo. Ou seja, é a consolidação do que se pretendeu construir da ideia de nação brasileira. Uma cidade tem várias camadas históricas.

— O estilo art déco, em Goiânia, é apenas uma dessas camadas. Outras vieram e são de fundamental importância também, como nosso valioso acervo modernista que está se perdendo dia após dia, impulsionada pela retomada do processo de verticalização de bairros centrais (Centro, Oeste, Sul, Marista, etc.) que já estavam “congelados” há anos. O valor do terreno em ascensão fez com que a maior parte desses bens fosse demolida para ceder lugar aos novos edifícios multifamiliares. Uma cidade sem essas camadas históricas é uma cidade sem identidade, é uma cidade igual a qualquer outra, em que o cidadão não se reconhece como parte.
Nas palavras dela, isso significa que uma cidade é sempre mais agradável se possui qualidade urbana e arquitetônica. E atualmente, atrás das marquises dos edifícios comerciais ao longo das Ruas 3 e 4, Avenidas Araguaia, Goiás, To­cantins e Anhanguera, por exemplo, ainda é possível encontrar os adornos e elementos em massa característicos do art déco escondidos pela publicidade em excesso. Poluição visual. Dessa forma, se esses elementos fossem revelados, Goiânia seria mais bonita e agradável para viver. “A preservação não impede o uso”, diz Beatriz. “Pelo contrário: o uso é fundamental para preservar um bem”. Vejamos um exemplo a seguir.

Reconstituição por conta própria atrai atenção 


Farmácia Artesanal da Rua 4, no Setor Central, antes e depois da restauração da fachada: faturamento do estabelecimento aumentou 20% após a recuperação do prédio

Já havia algum tempo que a Farmácia Artesanal tinha ido para a Rua 4, no Setor Central. O prédio é locado, mas como é antigo, houve a necessidade de passar algumas mãos de tinta, quem sabe alguma reforma. Porém, curioso, Evandro Tokarski, presidente da Artesanal, quis saber o que havia por trás das placas que cobriam a parte superior do sobrado e já sujas devido ao tempo de uso. Contudo, deficiente físico, Evandro não poderia ir verificar com seus próprios olhos, então pediu a um funcionário que subisse e tirasse algumas fotos. Foi quando descobriram que, por trás das placas, havia uma sacada anexada a um cômodo com janelas praticamente intactas.

Eis o que fez: Evandro mandou tirar as placas e deixou o prédio descoberto. Não era uma construção como as atuais, pois o prédio foi construído na década de 1940. Era art déco. Assim, veio a ideia de restaurar aquela fachada. Evandro foi a alguns bancos à procura de financiamento para a obra. Porém, em 2012, não havia nenhuma linha de crédito especial para esse tipo de serviço. Então, como a loja estava “feia”, Evan­dro mandou contratar uma arquiteta para fazer o serviço de restauração. Encontrou Janaína de Cas­tro, arquiteta urbanista ligada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Nós sentimos que devíamos restaurar o prédio”, diz Evandro. “Não só pela questão empresarial, mas principalmente pelo fator ambiental e cultural”. Assim, Janaína saiu à procura de fotografias que mostrassem o edifício à época em que foi construído e encontrou duas que conseguiam mostrar bem como era o prédio. Baseada nessas informações, além de depoimentos e outros documentos, a arquiteta fez o projeto que levou à restauração do imóvel e não apenas no que diz respeito à estrutura. Embora as fotos conseguidas fossem em preto e branco, Janaína descobriu as cores que predominavam na época.

“As cores da época, aquelas que predominavam”, relata Evandro, “eram cinza claro com um barrado mais escuro. E também recuperamos a calçada. Isso tem chamado a atenção não só de outros empresário como das escolas de arquitetura da PUC [Pontifícia Universidade Católica de Goiás] e da UFG [Universidade Federal de Goiás], que têm acesso livre a tudo lá.”

A restauração demorou aproximadamente sete meses e o empresário investiu cerca de R$ 80 mil na obra. Porém, Evandro costuma dizer que “esse investimento já voltou várias vezes. Ademais, contribuímos com a sociedade, não é verdade?”

E os comerciantes, eles querem restaurar? 


Presidente da Artesanal, Evandro Tokarski; presidente da Acieg, Helenir Queiroz; e secretário de Desenvolvimento 
Sustentável da Prefeitura de Goiânia, Nelcivone Melo: a restauração dos prédios depende de uma parceria público-privada

Com o exemplo da Farmácia Artesanal, ficam algumas perguntas: os comerciantes querem restaurar os prédios em que possuem seus negócios? Que incentivos há para isso? E que motivos? Evandro Tokarski diz que, a seu ver, falta informação aos empresários. “Acho que falta informação, porque a restauração dos prédios que possuem comércio é benéfica não apenas para a população em geral, mas também aos próprios negócios. Por exemplo, antes da restauração do prédio, nós éramos mais um comércio em meio à grande poluição visual do centro da cidade. Hoje, nós somos diferentes e essa loja aumentou seu faturamento em cerca de 20% ao mês após a obra”.

Ao que concorda, em partes, a presidente da Associação Comercial Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg), Helenir Queiroz, para quem o centro passa por um processo de deterioração. Por telefone, ela contou:
–– Esse processo de deterioração ocorre nas maiorias das cidades do mundo. E são duas as alternativas: ou há investimentos para que o centro fique não apenas bonito, mas se transforme em um ponto turístico, ou assinam sua condenação para que ele morra de inanição com seus prédios velhos e abandonados e um comércio de terceira linha.

Nós, comerciantes, torcemos para que haja sua revitalização para atrair as pessoas para o setor. Afinal, grande parte dos goianienses não vai ao centro, a não ser que tenha algo para resolver. E quando se trata de um projeto em parceria com a iniciativa privada, é preciso conversar e organizar tudo junto, pois há custos e impactos que precisam ser indicados àqueles que lidarão diretamente com eles. Haverá uma boa oportunidade em breve com as reformas realizadas em função do VLT, que irá mudar o cenário da Avenida Anhanguera. Seria uma excelente oportunidade para planejar essa reestruturação ou restauração desses prédios.

Diálogo. É essa a palavra da qual depende uma intervenção no Setor Central, especialmente no que diz respeito aos edifícios característicos de art déco. Diálogo esse que está nos planos da Prefeitura de Goiânia. Em um encontro com o secretário de Desenvolvimento Urbano Sustentável, Nelcivone Melo, descobriu-se que existe um projeto para esse serviço de restauração e não apenas dos prédios públicos. Em sua sala no Paço Municipal já no fim da tarde, Nelcivone –– na companhia de dois diretores da Pasta, Sérgio Wiederhecker (planejamento e gestão sustentável) e Marta Horta (parcelamento) –– explicou que atualmente há, por meio do PAC das Cidades Históricas, uma linha especial de crédito para os empresários que querem investir nessa restauração.

A prefeitura entrou, diz Nelcivone, com dez projetos no PAC das Cidades Históricas e um deles tratava da restauração dos prédios característicos de art déco e previa também fazer com que a fiação de energia elétrica fosse subterrânea. Porém, dos dez, apenas dois foram aprovados: os que visam a restauração da Praça Cívica e da Estação Ferroviária. Esses dois juntos somam aproximadamente R$ 22,5 milhões. “Terminados esses dois, recebemos a certeza de que poderemos buscar recursos para os outros oito, inclusive o de art déco. Mas isso não significa que estamos parados. Estamos buscando outros recursos para um projeto que está sendo viabilizado e que trata de uma intervenção geral no Setor Central.

O que os arquitetos acham 


Arquitetos urbanistas Janaína de Castro e Renato Rocha: restauração depende de outros fatores

O leitor há de se lembrar de Janaína de Castro, a arquiteta urbanista responsável pela restauração da Farmácia Artesanal. Pois bem, segundo ela, o resgate histórico é necessário em qualquer cidade. E em Goiânia não deve ser diferente.

–– Vemos hoje no centro da cidade fachadas encobertas por placas e propagandas, o que é péssimo para a cidade.

Uma restauração traria mais harmonia ao ambiente, além de qualidade arquitetônica. Eu acredito que por trás dessas placas e propagandas os prédios estão muito bem conservados, o que facilita a restauração e não é um trabalho muito complexo. É simples. E por ser simples não acarreta em um custo alto para o proprietário. Mas é fato que muitos desses empresários têm medo de investir nessa proposta.

Em relação a quem está habilitado a fazer a restauração, Janaína corrobora as palavras da Beatriz Otto, do Iphan, no sentido de que é necessário experiência para se fazer uma obra nesse sentido. Formada na Uni­versidade de São Paulo (USP), ela trabalhou na área de Patrimônio Histórico durante mais de dez anos e, hoje, trabalha com restauração. Tem um projeto de recuperação da Estação Ferroviária e já restaurou o local onde era a Chefatura de Polícia, na Praça Cívica, onde hoje se encontra a Secretarial Estadual de Cultura (Secult).

Renato Rocha é doutorando em arquitetura e urbanismo pela Universidade de Brasília e participa de vários projetos de restauração, inclusive do grupo responsável pela restauração da parte histórica da cidade de Goiás. Ele, que tem muitas ideias para o Setor Central de Goiânia, diz que o primeiro passo para uma restauração dos prédios do local é o diálogo com os moradores da região. Enquanto coordenava uma obra no Setor Sul, Renato analisou:

–– O centro de uma cidade é seu símbolo cultural. Quando não há um símbolo como em Paris, que tem a Torre Eiffel, ou o Rio de Janeiro, com o Cristo Redentor, geralmente, é algo no centro que marca a cidade. Se mostrarmos, por exemplo, a foto do Setor Bueno para alguém de fora, ela certamente não saberá de que cidade se trata. Porém, se mostrarmos uma da Praça Cívica, é bastante provável que a pessoa reconheça Goiânia.
Então, o conjunto art déco, o Palácio das Esmeraldas, o Teatro Goiânia, etc. são únicos no mundo. Não existe em nenhum lugar igual a Goiânia. Então, é impossível mexer em algo assim sem antes ouvir a população, principalmente os moradores da região, que mesmo poucos, são os interessados diretos na situação do local.
–– Mas não é só por isso que realizar obras no Setor Central é complicado.

–– Certamente que não. Há uma série de fatores a serem levados em conta. O local deve continuar ativo como é hoje, mas deve também ser um lugar agradável e que leve as pessoas para lá, como é o centro de Curitiba e São Paulo. Essas duas cidades mantiveram seus centros históricos, mas atraíram as pessoas para lá. E isso leva a outras discussões, como estacionamento, etc.