Transporte público: Veículos antigos e sucateados

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Motoristas relatam restrição a manutenção de veículos, alguns fabricados ainda em 1997

Mais do que as discussões de gabinete sobre a situação financeira das empresas e a responsabilidade de cada parte envolvida, ônibus velhos nas ruas, relatos de motoristas sobre a falta de manutenção dos veículos, a fiscalização deficitária admitida pelos próprios agentes da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) e o gradual envelhecimento da frota mostram a real crise pela qual passa o sistema de transporte coletivo da região metropolitana de Goiânia. Atualmente, 51 ônibus que atendem a capital e municípios vizinhos são ainda da década de 90, alguns com até 17 anos de uso, segundo planilha apresentada à reportagem pela CMTC.

O POPULAR foi às ruas verificar a situação dos ônibus e ouvir motoristas sobre a rotina de trabalho. Segundo eles, existe uma dificuldade em conseguir realizar consertos, como no caso de embreagens, além de admitir que a renovação de parte da frota conforme previsto pode não ocorrer neste ano. Embora negue que a vida dos usuários esteja em risco, o Sindicato das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de Goiânia (Setransp) confirma que as empresas estão limitando o serviço de manutenção devido ao congelamento das tarifas. Além disso, a fiscalização, que tem 5% do efetivo que seria necessário para acompanhar todo o sistema, estaria focada em identificar carteirinhas falsificadas ao invés de verificar a situação dos veículos.

Dados da Gerência de Cadastro e Vistoria da Diretoria de Fiscalização da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) mostram que ainda existem ônibus com mais de 15 anos circulando na capital (veja quadro). A informação se opõe ao que foi divulgado em nota técnica pelo Sindicato das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de Goiânia (Setransp), em agosto do ano passado. Na época, afirmou-se que 978 ônibus estavam com 5 anos e outros 328 com 10 anos. Os de 1997 já vão completar 17 anos de tráfego.

Se a análise fosse individual, esses carros já deveriam ter sido retirados das ruas, mas o parâmetro utilizado pela companhia e previsto no edital de contratação das empresas é a idade média de toda a frota. Enquanto existem ônibus de 1997, têm também aqueles que foram inseridos no sistema recentemente. Dessa forma, a média de idade oscila, hoje, em 5,37 anos, considerada aceitável, mas próxima de atingir o limite de seis anos.

É previsto, contratualmente, para 2014, uma nova renovação da frota, mas o impasse entre poder público e setor privado que caracteriza a crise do transporte em Goiânia, desde que a tarifa paga pelo usuário foi mantida em R$ 2,70, deixa incerta essa possibilidade. De qualquer forma, o diretor de Fiscalização da CMTC, Eduardo Cruvinel, alerta para a necessidade de cumprimento dessa exigência até o final do ano, caso contrário os fiscais da Companhia não poderão fazer a vistoria anual dos veículos e fornecer o selo que autorizaria a circulação deles em 2015.

Os ônibus mais antigos estão, segundo Eduardo, fazendo o transporte nas chamadas linhas alimentadoras, aquelas que desembarcam os passageiros nos terminais, em especial os do Padre Pelágio, Recanto do Bosque e Jardim Novo Mundo. Todos, em locais periféricos e que fazem a ligação com outras cidades da região metropolitana. A idade elevada de parte dos veículos está ficando mais evidente, à medida que a suposta crise do sistema se prolonga, já que o corte de gastos feito pelas empresas está atingindo, inclusive, a parte de manutenção.

CMTC tem 40 fiscais enquanto deveria ter 800

Parte dos veículos que compõem a frota do transporte público de Goiânia, principalmente os da Viação Reunidas, ainda não foi vistoriada e está circulando com o selo de 2013. O selo é renovado anualmente e o ônibus precisa dele para trafegar.

Dessa vez, o trabalho começou a ser feito no final de outubro e ainda não tempo de concluir. A previsão mais otimista da Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC) é que a integralidade das vistorias seja atingida no final de fevereiro. Conforme o diretor Eduardo Cruvinel, a fabricante do adesivo especial não conseguiu entregar o produto na data estipulada e isso provocou o retardamento.

Cruvinel pondera ainda que a companhia não tem a quantidade suficiente de fiscais e que é impossível acompanhar a realidade de todos os veículos da rede. Hoje, são em torno de 40 servidores, enquanto o suficiente, de acordo com o diretor, seriam pelo menos 800 para trabalhar ininterruptamente .

Um dos fiscais da Companhia, que pediu para não ser identificado, contou que a fiscalização realizada hoje está muito focada em identificar e apreender carteirinhas irregulares. Ou seja: focada na atitude do usuário e para evitar um prejuízo ainda maior para o sistema. Com isso, a visita de terminais e inspeção dos ônibus estaria acontecendo no máximo duas vezes por semana.

“Quem recusa sair, leva suspensão”

Anonimamente, temendo represálias, motorista do transporte coletivo que tem seis anos de profissão e já trabalhou em duas empresas aceitou contar ao POPULAR os obstáculos enfrentados no dia a dia e ressaltou a falta de segurança.

As empresas estão cortando os gastos mesmo?
Estão. Onde eu trabalho, eles (superiores) ]não compram peça mais. A garagem é um grande cemitério de ônibus. Eles tiram a peça de um e coloca no outro. Vão tirando e colocando. Nunca é peça nova, sempre peça usada.

Ônibus fica parado na garagem por causa de problema no freio?
Fica nada, vai para a rua também. Ontem, tinha um colega aqui que estava num carro (ônibus) mais velho que o meu e chegou dizendo, quase chorando, que não sabia mais o que fazer, porque todo dia está pegando um carro sem freio. Ele disse que os supervisores obrigam a sair e que já levou duas advertências e uma suspensão por recusar. O meu mesmo acabou o freio comigo no meio da rua há dois meses. Ele é de 2005.

Se vocês se recusam a sair com carro estragado, são punidos?
Sim. Eu já perdi a conta de quantas suspensões eu já peguei. Esses dias, fiquei cinco dias parado. Hoje, como já sou mais antigo, não aceito mais. Eu não vou trabalhar com carro com porta quebrada, pneu careca. Não faço isso. Agora, um motorista sem experiência, novato, entra e não dá conta. Acaba saindo.

Qual é a orientação da empresa?
Nenhuma. Eles querem ver o carro rodando. Vou te explicar como funciona: você chega para trabalhar e liga para os supervisores falando que o carro está com problema, que não dá para rodar. De imediato, eles argumentam que o motorista da manhã rodou normalmente, sem problema nenhum. Se você continuar recusando, e dentro da garagem, você leva suspensão. Só não é punido se você sai no carro e recusa lá do lado de fora, depois de andar um pouco. Aí é outra história. Aí não é você que recusou. Ele deu problema na rua, entende?

Relato de embreagem estragada há 3 meses

Durante a semana, O POPULAR visitou os terminais e ouviu relatos dos motoristas que expressam a dificuldade para conseguir, nas garagens, que os ônibus sejam consertados, quando estragam. A situação chega a um ponto em que a segurança do usuário estaria ficando comprometida. No Terminal Recanto do Bosque, um motorista declarou estar há três meses trabalhando com a embreagem estragada e que toda vez que faz o relatório para conserto, o supervisor fala que não tem como arrumar e que é para continuar circulando assim mesmo.

No Padre Pelágio, outro motorista denunciou que problemas no freio não são motivos para manter o veículo parado, pelo contrário: “Roda do mesmo jeito”, afirmou anonimamente, depois de estacionar e encerrar o expediente. Situações envolvendo pneus carecas, portas quebradas, elevador de acessibilidade que não funciona, vidros há mais de mês sem serem repostos, falta de limpeza dos ônibus durante a semana e ameaça de punições, caso o motorista se recuse a sair com o carro, foram relatados por outros integrantes da categoria

Até mesmo um fiscal da CMTC reforçou a denúncia de veículos com vazamento de óleo, pneus carecas e ônibus que não eram para rodar, mas que continuam circulando pelas ruas.

Empresas negam risco à segurança de passageiros

O Sindicato das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de Goiânia (Setransp) admitiu que as empresas estão limitando o serviço de manutenção. Antes, o consórcio criado para gerir o sistema recebia das empresas a verba destinada para realizar reparos e consertar os ônibus. Havia toda uma sistemática que controlava, inclusive, o tempo de vida útil de um pneu, de um motor, etc. “Fazia-se a manutenção de forma até preventiva, antes mesmo da data de invalidação da peça. Hoje, com o desequilíbrio contratual, cada empresa faz em separado e da maneira como dá”, afirma o gestor de relacionamento do Sindicato, Marcos Villas Boas.

O gestor nega que as empresas estejam deixando a situação chegar ao ponto de colocar em risco a segurança do usuário, porque, segundo ele, isso é prioridade máxima nas garagens. Pneus carecas e freios com defeito seriam motivos, sim, para manter o carro parado, até mesmo porque, segundo ele, se a fiscalização da CMTC flagra, é o suficiente para autuação. A assessoria do Setransp nega, também, que ônibus com mais de 10 anos continuam circulando. Informado das denúncias, o diretor Eduardo Cruvinel propôs cautela quanto ao relato dos motoristas, porque muita coisa não é procedente. Na última sexta-feira, havia 14 veículos proibidos de circular por causa de problemas mecânicos.

Fonte: Jornal O Popular

2 comentários

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27 de janeiro de 2014 21:20 delete

"A assessoria do Setransp nega, também, que ônibus com mais de 10 anos continuam circulando." Mentira isso, eu que conheço posso afirmar que todos os dias ando em um Caio Alpha Volkswagen 16.210 ano 97 da Rápido Araguaia, caindo aos pedaços na linha 614 - T Goiania Viva/ T Bandeiras - Direto (http://onibusbrasil.com/foto/2186597/) e não é a única linha q eles rodam, em dia de chuva eles molham mais do lado de dentro que do lado de fora, sem falar quando estragam no meio do caminho, o que nao é raro (50151 50152 50153 50154 50995 50996 50997 50998 50999) tambem rodam na 613 T Maranata/ T Bandeiras - Direto

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Carlos Júnior
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27 de janeiro de 2014 23:44 delete

40 anos de exploração do Transporte de Goiania, que entregaram de mãos beijadas para as mesmas empresas que rodam a mais de 50 anos. E mais, isso que estão passando são ÁLIBIS para convencer de vez o Poder Publico a passar a passagem para 3,10 como querem e se não chegar a 3,25. O papo mesmo é : "Vamos deixar sucatear até ficar na roda bamba, pois ae não tem jeito - a CDTC, CMTC, Setransp etc), convence facilmente o Poder publico com fotos e fatos e concedem o que nós queremos'. A JOGADA é essa.

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