29 de janeiro de 2014

Clima de insegurança na T-63


Moradores, comerciantes e trabalhadores apontam assaltos e presença intimidadora de usuários de droga

Endereço nobre de Goiânia e uma das avenidas com maior aglomeração de comércio e serviços da capital, a T-63 está se tornando um lugar perigoso. Moradores das ruas próximas da via nos Setores Bueno e Nova Suíça reclamam de assaltos e aumento da presença de moradores de rua e usuários de drogas. Para minimizar os problemas de segurança na região, a Polícia Militar (PM) desencadeou uma série de operações para inibir a ação de criminosos. A primeira delas, há duas semanas, teve como objetivo o combate ao roubo de veículos, um dos principais problemas da região.

Na T-63 é possível encontrar praticamente todo tipo de comércio e serviços, tanto de dia quanto à noite. Supermercado, lanchonetes, bares, panificadoras, drogarias, locadoras de vídeo e de veículos, postos de combustível e distribuidoras de bebida que funcionam 24 horas atraem até moradores de bairros mais distantes. Por conta do adensamento comercial, a população local tem o hábito de circular a pé, o que tem chamado a atenção de criminosos.

A reportagem do POPULAR percorreu a via, entre o Viaduto da Avenida 85 e a Praça da Nova Suíça, durante uma tarde e uma noite. Ouviu relatos de comerciantes e moradores, que contaram episódios de violência e reclamaram do aumento da sensação de insegurança no último ano.

“A insegurança aqui está insustentável”, diz a autônoma Vera Lúcia Amorim, de 60 anos. Moradora da um prédio na Avenida T-5, próximo da T-63, ela reclama da grande quantidade de pedintes, moradores de rua e adolescentes usuários de drogas. “Eles perturbam os moradores daqui. Desde o começo do ano passado, ir ao supermercado virou um transtorno”, relata.

No supermercado ao qual Vera Lúcia se refere, que prefere não ser identificado, confirma que mendigos e adolescentes abordam os clientes do local de forma agressiva. “Eles pedem esmola, se a pessoa não dá, fazem ameaças”, diz.

Empregado do supermercado há oito anos, ele conta que de dois anos para cá o aumento de pedintes ao redor do estabelecimento comercial foi assustador. Segundo o funcionário, eles colocam colchões na calçada, ocupam as escadas e o estacionamento do local. “A sociedade alimenta isso, dá esmola. Muita gente dá por medo, outros porque têm pena, mas se ninguém desse nada, não teria essa quantidade de mendigos aqui”, reclama.

Mas escapar da ação dos pedintes não é tarefa fácil. Algumas vezes, adolescentes coagem clientes do supermercado. Em uma tarde, a reportagem observou a ação de um trio de jovens que bloqueava a saída do estacionamento. Quando um carro se aproximava, eles fechavam um pequeno portão de acesso e pediam dinheiro. Em seguida, liberavam a passagem até a chegada do próximo veículo a ser abordado.
Segundo o funcionário, o supermercado tem seguranças terceirizados para coibir a ação dos moradores e adolescentes de rua e, sempre que precisa, liga para a Polícia Militar. Mas durante o tempo em que a reportagem observou a entrada e saída de veículos, os adolescentes agiam livremente, sem serem abordados. Um deles aparentava estar drogado.

Delegado do 4º Distrito Policial, Everaldo Vogado da Silva diz que o uso e tráfico de drogas não é um problema registrado nesse trecho da avenida. Mas a reportagem viu pontos onde moradores de rua se reuniram para acender cachimbos de crack. Um dos mocós fica embaixo da marquise de uma revistaria desativada, no Setor Nova Suíça. Outro ponto fica embaixo do viaduto da Avenida 85 com a T-63. O delegado Everaldo Vogado da Silva diz não ter dados específicos da T-63, mas aponta o furto e o roubo a pessoas e de carros como os principais crimes da região.

Trabalhadores reclamam de assaltos

Para o gerente de uma lanchonete que funciona 24 horas na Avenida T-63, que preferiu não ser identificado, os pedintes são um problema secundário. Segundo ele, o que mais causa insegurança no local são os assaltos a mão armada. “Os mendigos perturbam, mas não são o problema maior. A T-63 é perigosa por causa dos assaltos. Já vi vários. Os assaltantes chegam de carro ou moto, descem armados, roubam as pessoas e fogem em seguida”, relata.

O gerente conta que notou um aumento do efetivo policial durante o período das festas de fim de ano, mas que, no início de janeiro, o patrulhamento diminuiu.

A Secretaria de Segurança Pública informou não ser possível divulgar o índice de criminalidade específico da Avenida T-63 no ano passado. Segundo a assessoria de imprensa da pasta, o trabalho de estatística é feito apenas por setor e não por via.

Para se ter uma ideia, as quatro drogarias situadas nos dois quarteirões entre a T-4 e a T-15, no Setor Bueno, foram assaltadas no ano passado. Uma delas, inaugurada em fevereiro de 2013, sofreu cinco roubos em menos de um ano, em horários variados.

Policiamento em bicicletas deve começar ainda este mês

Novo comandante da 9ª Companhia Independente da Polícia Militar (9º CIPM), o capitão Allan Pereira Cardoso aponta o roubo de carros e caminhonetes como o crime com maior número de registros neste início de ano na Avenida T-63. Responsável pelo policiamento dos Setores Bueno e Nova Suíça, ele conta que, de 1º a 15 de janeiro, cinco veículos foram roubados na região. Um deles ocorreu na Praça da Nova Suíça e os outros quatros em ruas adjacentes, próximo à via.

Para coibir a ação dos criminosos, a PM iniciou uma operação focada na prevenção desse tipo de crime. Nos próximos dias, a ação será repetida durante o dia. “Notamos que a maior parte dos roubos não acontece mais à noite. Muitos ocorreram pela manhã. Por isso, também vamos concentrar o trabalho ostensivo nas primeiras horas do dia”, diz capitão Cardoso.

Outra medida adotada pelo 9º CIPM será o policiamento ciclístico. Segundo o capitão Cardoso, cerca de 20 policiais vão atuar de bicicleta, em duplas, na ciclovia da T-63, Praça da Nova Suíça e Parque Vaca Brava.

O programa está previsto para ter início no fim deste mês. Os PMs serão divididos por turnos, entre as 6 e às 23 horas. Cardoso diz que a polícia já tem as bicicletas e está esperando a entrega dos novos uniformes, feitos especialmente para os militares ciclistas. Para o trabalho sobre rodas, os PMs vão vestir farda mais leve, composta de bermuda, tênis e uma camisa manga-longa com o mesmo tecido usado nas roupas de ciclistas. Denúncias, reclamações e sugestões pelo e-mail 9cipm.comunitario@gmail.com e pelos três celulares que atendem a área do Setor Bueno: 9628-9530, 9628-9524 e 9983-3045.

Assaltantes miram carros, tênis e até cachorros de raça

Os assaltantes não miram apenas o comércio. Moradores relatam os mais diversos tipos de crimes, que vão do roubo de veículos, tênis de adolescentes e até animais. As ruas adjacentes à T-63 são formadas basicamente por prédios residenciais e é comum as pessoas descerem para passear com cães de raça. Devido ao alto valor de mercado, os bichos se tornaram alvo dos criminosos.
Dona de um cão da raça pug, a professora Lorena Ferreira Meira, de 29 anos, conta que foi vítima de uma tentativa de assalto em outubro do ano passado. Ela passeava com o animal na T-5, em direção à T-63, quando percebeu que estava sendo seguida por um carro com quatro homens.

“Eles estava em um Gol e ficaram me olhando, eu andando e eles me acompanhando de carro. Como uma amiga já tinha me falado que havia gente em um carro com as mesmas características roubando cães na área, quando um deles fez uma movimentação de descer eu corri para a porta de um prédio próximo. Eu conhecia o porteiro e ele me deixou entrar”, relata a professora. “Tenho medo, não saio mais sozinha para passear com o cachorro”, lamenta.

Esse não foi o único episódio de violência que assustou Lorena no ano passado. No mês de agosto ela teve o carro arrombado. O veículo estava estacionado na T-3, pouco abaixo da T-63, próximo à escola onde leciona. “Quebraram o vidro e roubaram o estepe e o som”, afirma.

Fonte: Jornal O Popular