15 de dezembro de 2013

Chuvas: Urgência por plano de drenagem


Especialistas dizem que substituição de sistema é fundamental para evitar alagamentos

O sistema drenagem nos bairros centrais de Goiânia, onde são registrados os maiores problemas quando há chuvas fortes como a da última quinta-feira, precisa ser redimensionado. Isso significa substituir a rede atual – que em alguns pontos, como os setores Central e Oeste é formada por tubos de 30 centímetros de diâmetro – por canais subterrâneos fechados, galerias retangulares com capacidade maior e mais eficiente. Trata-se de uma obra cara, antipática – demorada, implica em abrir grandes buracos em toda a região – e que, por não ser visível, não tem grande apelo eleitoral, mas que não pode mais ser protelada, sob pena de a cidade entrar em colapso a cada chuva forte.

O alerta é de especialistas em drenagem urbana e meio ambiente ouvidos pelo POPULAR para apontar soluções para a cidade, que sofre com o alto índice de impermeabilização do solo. A água da chuva, não encontrando pontos para infiltração, escorre superficialmente, com força e velocidade, arrastando consigo o que estiver no caminho: lixo, que vai parar nas bocas de lobo e, quando não as entope, segue para as galerias e, de lá, para os cursos d’água. “Mais cedo ou mais tarde, o problema iria aparecer. Apareceu agora”, constata o engenheiro civil Jonício Alves de Almeida, especialista em drenagem urbana.

“As redes de drenagem são subdimensionadas, foram projetadas quando a cidade era pequena e hoje são insuficientes. Elas têm de ser refeitas”, observa o engenheiro ambiental Antônio Pasqualetto, coordenador do Mestrado em Desenvolvimento e Planejamento Territorial da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG). Ele acrescenta que há bairros centrais, como o Setor Bela Vista, que foram construídos e asfaltados sem a rede de drenagem. “O dinheiro investido nesse tipo de obra não é capitalizado em forma de voto, ao contrário do asfalto”, justifica.

É justamente nos bairros centrais, onde as redes de drenagem são antigas e insuficientes, que ocorrem os alagamentos. Sem ter onde infiltrar e sem obstáculos naturais, a água arrasta carros e até pessoas, como o casal que desapareceu no Córrego Botafogo na noite de quinta-feira, levado pelas águas enquanto passava por um ponte estreita. Entre os setores mais problemáticos estão o Centro, Sul, Oeste, Campinas, Bueno, Jardim América e Pedro Ludovico, todos surgidos na época da fundação da capital, na década de 30 (Campinas é ainda mais antiga e já existia quando foi escolhido o lugar de Goiânia).

Jonício, que é servidor da Secretaria Municipal de Obras de Goiânia (Semob), observa que em Salvador, onde não houve o boom de crescimento populacional verificado em Goiânia, a substituição da rede de drenagem começou a ser feita há cerca de dez anos. Ele conta que em Goiânia já foi feita a proposta de substituição da rede tubular por canal fechado na Avenida 85, passando pela Avenida Universitária até a altura do Córrego Botafogo, mas o projeto não foi executado. “São galerias muito mais eficientes que as redes tubulares”, diz.

Ele acrescenta que, em função do crescimento da cidade e da formação de bolsões de calor, em decorrência da combinação de concreto e asfalto, a tendência é de ocorrência de mais chuvas fortes. “Além disso, a Prefeitura não investe em campanhas educativas”, observa. O professor Pasqualetto concorda: “É preciso haver um trabalho educativo junto à população, começando pelo acondicionamento correto do lixo que é dispensado e é a Prefeitura quem tem de gerenciar isso”, diz.
O POPULAR tentou ouvir o secretário municipal de Obras, Luciano de Castro, mas ele não atendeu o telefone.

Lei municipal é rígida, mas não há cumprimento

Previsto no Plano Diretor de Goiânia de 2007, o Plano de Drenagem Urbana deveria justamente apontar os pontos vulneráveis, onde devem ser realizadas as intervenções, não só de engenharia – como a feita na baixada do Clube Oásis, que minimizou um ponto crítico de alagamento –, mas também de prevenção. O professor Antônio Pasqualetto alerta que não há uma única solução, mas várias ações que devem ser feitas, como a recuperação das áreas de preservação permanente, como nascentes e matas ciliares.

Ele pondera que a legislação municipal – que prevê a preservação de um raio de 100 metros nesses locais – é mais rígida que a federal, mas vem sendo descumprida ao longo das décadas. Sem matas ciliares e nascentes protegidas e sem infiltração de água no solo, a consequência será a ocorrência de períodos ainda mais secos na época de estiagem. Pasqualetto informa que o volume de água do Rio Meia Ponte diminui 84% da época de chuva para o período seco, enquanto a quantidade de dejetos despejada continua a mesma ou até aumenta. “Isso mostra que a água que deveria infiltrar no solo está diminuindo”.

Para ele, é preciso também multiplicar iniciativas inteligentes, como o poço invertido, instalado no Clube de Engenharia para receber essas águas, sugere. Ele acrescenta que os parques urbanos têm um papel fundamental nesse aspecto e considera Goiânia bem servida deles.

ALERTAS

As chuvas continuarão nos próximos dias. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alerta ontem para a o acumulado significativo de águas. Para hoje, há novo alerta, para a ocorrência de chuvas fortes, com descargas elétricas, rajadas de vento e acumulado significativo de chuva. Para Goiânia, a previsão é de dia nublado, com chuva isolada.

Mulher continua desaparecida

A boliviana Luz Marina Vargas Moreno, de 35 anos, que desapareceu junto com o marido, o goiano Ediarlei Ramos, de 43, durante forte chuva que caiu na noite de quinta-feira em Goiânia, ainda não foi encontrada pelos bombeiros, que ontem realizaram buscas nos córregos Botafogo e Cascavel, além do Rio Meia Ponte. O casal arrastados com a moto em que estavam no córrego Botafogo, perto do Setor Pedro Ludovico. O corpo de Ramos foi encontrado na manhã de sexta-feira.

Ao todo, 32 homens trabalham nas buscas, entre bombeiros e mergulhadores. Além da grande área de busca e do difícil acesso, os profissionais reclamam do excesso de lixo nos locais, o que atrapalha as bucas.
Ontem de manhã, o corpo de Ramos foi enterrado no Cemitério Vale da Paz, em Goiânia.

Fonte: Jornal O Popular