4 de novembro de 2013

UFC: Goiânia se prepara para ser a capital mundial do MMA por uma noite


Esportes que mais cresce no planeta terá noite de gala na capital com o brasileiro Vitor Belfort enfrentando o norte-americano Dan Henderson. Rede hoteleira, bares e restaurantes se preparam para faturar alto com torcedores que devem invadir a cidade.

O Ultimate Fighting Cham­pionship (UFC), o maior evento de Artes Marciais Mistas (Mixed Martial Arts-MMA) do mundo chega a Goiânia no dia 9 de novembro, quando terá na luta principal o combate entre o brasileiro Vitor Belfort e o norte-americano Dan Hen­derson. Para o delírio dos fãs do esporte que mais cresce no País e no mundo, esta será uma oportunidade ímpar de assistir de perto, mais especificamente no Goiânia Arena, o duelo entre duas das maiores estrelas do esporte. Visando receber um fluxo acima da média, composta por torcedores que virão do exterior e de demais Estados da federação, a rede hoteleira da capital, bares e restaurantes estão se preparando para lucrar alto em noite de várias lutas dentro do octógono.

Desde que foi fundado, em 1993, o UFC vive o seu melhor momento, promovendo noites de eletrizantes combates nos Estados Unidos e em outros países. Rivalizando com o boxe e disputando audiências dos campeonatos de beisebol e futebol americano, na venda de pay-per-view, a marca é avaliada em bilhões de dólares. Um evento costuma lotar ginásios e estádios e arrasta uma multidão de torcedores que, a cada dia, tem aumentando consideravelmente, graças à pesada promoção midiática de lutadores, que se tornaram verdadeiras celebridades mundiais. O surpreendente disso tudo é que o Brasil tem e teve papel fundamental na popularização do esporte. O próprio UFC tem o DNA brasileiro.

Nos primeiros eventos, idealizado pelo brasileiro e faixa-preta de jiu-jítsu Rorion Gracie, tinha como intuito descobrir o melhor lutador do mundo, não importando o estilo de artes marciais praticado. Para se sagrarem campeões do UFC, os competidores deveriam ganhar três lutas, numa única noite, usando como palco uma espécie de ringue de oito lados fechado por grades, que veio a ser hoje o octógono.

O primeiro evento, realizado em 1993 em Denver, cidade localizada no Estado americano do Colorado, foi vencido pelo brasileiro Royce Gra­cie, irmão de Rorion, também especialista em jiu-jítsu. O magro e es­guio carioca, que hoje mora nos Es­ta­dos Unidos e tem o nome eternizado no hall da fama do UFC, en­fren­tou e derrotou oponentes do kung-fu, caratê, boxe, judô e os te­midos wrestlers americanos  – atletas da luta olímpica/luta greco-romana.

A luta mais épica vencida por Royce Gracie foi a final do UFC 4, ocorrido no dia 16 de dezembro de 1994, no Expo Center Pavilion em Oklahoma, nos Estados Unidos. Após 15 minutos ininterruptos de combate, Royce derrotou com uma chave de triângulo — tipo de estrangulamento feito com as pernas, mas que também pode ser feito com os braços — o americano Dan Severn, conhecido como “A Fera”, um lutador duro, que pesava 30 quilos a mais que Royce, e que costumava arremessar os adversários de costas no chão numa técnica de luta greco-romana conhecida como suplê.

Um esporte que atrai multidões

Os irmãos Rorion e Royce são ascendentes de um clã de escoceses que imigraram para Belém (PA). O jiu-jítsu japonês foi apresentado à família Gracie em 1914, por Mitsuyo Maeda, também conhecido como Conde Koma. Maeda era campeão de judô e discípulo direto de Jigoro Kano, fundador da arte marcial olímpica que mais rendeu medalhas ao Brasil. Em 1914, Maeda teve a oportunidade de viajar para o Brasil, como parte de uma grande colônia de imigração japonesa. No Pará, tornou-se amigo de Gastão Gracie, empresário influente que ajudou Maeda a estabelecer-se.

Para demonstrar sua gratidão, Maeda prontificou-se a ensinar o jiu-jítsu japonês tradicional a Carlos Gracie, filho mais velho de Gastão. Carlos aprendeu por alguns anos e, depois, passou seu conhecimento aos irmãos. No entanto, foi Hélio Gracie — pai de Rorion e Royce —, o irmão mais novo de Carlos, quem foi o maior responsável pelo refinamento técnico da arte japonesa, o que o levou a ser conhecido como o “criador do jiu-jítsu brasileiro”. Hoje, a arte marcial brasileira utiliza técnicas e golpes de alavancas, torções e pressões para derrubar e dominar um oponente. O esporte veio a preconizar o MMA moderno.

Nas décadas de 50 e 60, as proeminentes faixas pretas da família Gracie desafiavam lutadores de outras artes marciais no intuito de provar a supremacia do jiu-jítsu frente às demais modalidades de luta. Os combates, verdadeiras batalhas sangrentas sem tempo determinado para terminar, quase não havia regras e ficaram conhecidos como vale-tudo. Com o passar dos anos, com a internacionalização e modernização do esporte, o vale-tudo tornou-se uma compilação de técnicas e golpes de jiu-jítsu, boxe, judô, muay thai, caratê e wrestling, tornando-se assim o atual MMA, cujo maior evento promotor do esporte é o bilionário UFC.

Atualmente, o UFC segue as regras unificadas do MMA. Os lutadores devem usar luvas de dedo aberto fornecidas pelo evento, além de ser obrigatório o uso de coquilha — equipamento de proteção genital — e protetor bucal. É proibido arremessar o adversário de cabeça no chão ou atirá-lo para fora do ringue. Cabeçada, dedo no olho, morder, puxar cabelo, beliscar, arranhar e cuspir no adversário também são impedidos pelas regras. Ataques à coluna, chutar ou atingir com o joelho a cabeça do adversário que está no chão, golpear de cima para baixo usando a ponta do cotovelo, qualquer tipo de ataque à garganta e agarrar a clavícula estão terminantemente proibidos. Caso houver desobediência da regra o atleta é desclassificado e pode vir a ser banido do evento.

Atualmente o UFC têm oito classes de peso masculinas — mos­ca, galo, pena, leve, meio-médio, médio, meio-pesado e passado — e uma feminina. O CEO do evento é Dana White, enquanto Frank Fertitta e Lorenzo Fer­titta administram a companhia Zuffa, LLC, dona da marca UFC. Com sede em Las Vegas, cidade americana do Estado de Nevada, a empresa vem se expandindo globalmente e hoje possui escritórios em Pe­quim (China), Cinga­pura, Lon­dres (Inglaterra), Toron­to (Cana­dá) e São Paulo (Brasil). O UFC pro­duz anualmente mais de 30 eventos e mais de 400 horas de programação, com um acervo de mais de 50 mil horas de conteúdo.

Maior provedor de eventos pay-per-view do mundo, o UFC também é transmitido por televisão aberta, por cabo e por satélite em mais de 145 países, para quase 800 milhões de lares ao redor do mundo, em 28 idiomas diferentes. Líderes em distribuição digital, o UFC se conecta com dezenas de milhões de fãs pela sua própria página na internet, no Youtube, além das plataformas de games XBOX, Sony Playstation, assim como pelas redes sociais Twitter e Facebook, nas quais já ultrapassou a marca de 10 milhões de seguidores.

As estrelas

Em um esporte em que os atletas são praticamente “super-heróis” e arrebatam milhares de corações de fãs no mundo inteiro, não se pode deixar de falar nos principais responsáveis pelo espetáculo. O Brasil tem o “Pelé” do esporte, e ele se chama Anderson Silva, 38 anos, também conhecido como “Spider” (Aranha). O paulista radicado em Curitiba é considerado o melhor do mundo por várias publicações especializadas no assunto.

O ídolo conseguiu o feito de 17 vitórias seguidas e 10 defesas de título consecutivas, um recorde no esporte. Porém na última luta, ocorrida no dia 6 de julho deste ano, no UFC 162 em Las Vegas, Silva perdeu o cinturão dos médios após ser nocauteado pelo americano Chris Weidman. O brasileiro terá a chance de derrotar o algoz no dia 28 de dezembro, data da revanche que fechará a noite de gala do UFC 168. Além de Anderson Silva, outros brasileiros também brilham no escalão de elite do esporte, dentre eles o campeão da categoria peso pena, o amazonense José Aldo, e o campeão interino da categoria galo, o potiguar Renan Barão.

Há também vários outros bons representantes do MMA nacional, dentre eles a estrela que fechará a noite do UFC Goiânia, o carioca Vitor Belfort, o baiano radicado em Belém Lyoto Machida (Dragão), e os paranaenses Maurício Ruas, o Shogun, e Wanderlei Silva. Na categoria pesados o Brasil é representado pelo catarinense Júnior dos Santos (Cigano), o paraibano Antônio Silva (Pezão), o gaúcho Fabrício Werdum e Minotauro. O mineiro Glover Teixeira vai disputar o cinturão dos meio-pesados em fevereiro do ano que vem, contra a sensação do momento, o americano Jon Jones.

Capital será “Las Vegas” por uma noite

Como parte da estratégia de difusão e massificação do evento no Brasil, o UFC vem promovendo lutas em diversas capitais e cidades brasileiras. No dia 9 de novembro será a vez de Goiânia. Mas será que a infraestrutura hoteleira da capital tem condições de receber toda a equipe do UFC, além de jornalistas do mundo todo e uma legião de fãs? Claro que a cidade não tem hotéis do porte de um MGM Grand Hotel & Casino de Las Vegas, local que abriga o MGM Grand Garden Arena, que costuma ser palco das mais homéricas batalhas do UFC. A cidade tem uma boa rede de hotéis que comporta facilmente a demanda da semana que antecede o dia do evento.

De acordo com o censo 2012 realizado e divulgado pelo Sindicato dos Hotéis de Goiânia (Sihgo),  existem hoje na capital cerca de 16 mil leitos distribuídos por 153 hotéis — 129 hotéis, 14 pousadas e 3 flats/apart-hotéis —, divididos entre categorias luxo, superior, turístico e econômico. Se contabilizados por hierarquia, são 86 hotéis com 5.189 leitos na categoria simples, 37 hotéis com 4.200 leitos no econômico, 13 hotéis com 2.584 leitos na turística, 13 hotéis com 2.945 leitos na superior e dois de luxo com 594 leitos disponibilizados.

Fazendo um comparativo entre os anos de 2008 e 2012, a oferta hoteleira de Goiânia cresceu. Em 2008 havia 13.215 leitos, já em 2012 são 16.181, um aumento de 2.966 leitos em apenas quatro anos. Isso representa um crescimento de 22,44%. O hotel do UFC em Goiâ­nia será o Mercure, que na semana que antecede o evento ficará praticamente exclusivo para os organizadores, árbitros, jurados, convidados e atletas. A hospedaria também servirá de local para entrevistas coletivas e pesagem, procedimento de verificação do peso dos lutadores, que é um show a parte, por conta das encaradas entre os oponentes que horas mais tarde se digladiarão no octógono.

O Mercure têm 177 apartamentos e suítes com alto grau de conforto, numa das melhores áreas da capital. De acordo com a gerência do hotel, não há mais vagas para a data do evento, pois todas as reservas se esgotaram no início de outubro. A maioria dos visitantes virá dos Estados Unidos, Rio de Janeiro, Distrito Federal e São Paulo.

Quando o locutor oficial do UFC, Bruce Anthony Buffer, gritar o seu famoso jargão “It’s time!” (está na hora), para anunciar a luta principal da noite, provavelmente o Goiânia Arena virá abaixo de emoção e ansiedade pelo supercombate que encerrará a noite. É que a última batalha a ser travada no octógono goiano será entre duas lendas do esporte: o brasileiro Vitor Belfort e o norte-americano Dan Henderson.

O “Fenômeno”, como também é conhecido o carioca Vitor Belfort, de 36 anos, é faixa preta de judô e jiu-jítsu e domina muito bem o boxe. Aos 19 anos, o aluno de Carlson Gracie tornou-se o mais jovem lutador da história a vencer no então vale-tudo. Do outro lado do corner, vai se  posicionar outro “casca-grossa”, Dan Henderson, 43 anos. O californiano, ex-integrante da seleção americana de luta olímpica, foi campeão em duas categorias do Pride, extinto campeonato de MMA realizado no Japão, nos pesos meio-médio (até 84 quilos) e médio (até 93 quilos), e campeão dos meio-pesados do Strikeforce — evento americano, também extinto, comprado pelo UFC.

Vitor Belfort é dono de um cartel com 23 vitórias e 10 derrotas, e o americano Dan Hender­son tem 29 vitórias e 10 derrotas. Atualmente o número dois do mundo no ranking da categoria dos pesos médios, Belfort subirá uma divisão de peso para buscar a revanche contra Henderson — classificado na sétima posição do ranking meio-pesado. Os dois se enfrentaram pela última vez em 2006, no Pride. Naquele encontro Belfort foi derrotado por decisão unânime dos jurados.

Na batalha co-principal, o vencedor peso médio do reality show The Ultimate Fighter (TUF) Brasil 1, o lutador mineiro Cezar Mutante (sete vitórias e duas derrotas) vai enfrentar o finalista da mesma temporada, o paulista Daniel Sarafian (nove vitórias e três derrotas). Os pesos médios deveriam ter se enfrentado na grande final do programa, numa edição do evento (UFC 147), realizado em Belo Horizonte em julho de 2012. Mas uma lesão forçou Sarafian a se retirar do card. Cezar, então, lutou contra o semifinalista Sergio Moraes e, após três rounds, foi coroado vencedor da temporada por decisão dos jurados. Ambos vêm de vitórias por finalização — luta vencida mediante aplicação de chave, torção ou estrangulamento — no primeiro round.

Além dos dois confrontos principais da noite, os fãs poderão acompanhar também os únicos representantes do Centro-Oeste no card principal da edição goiana do UFC: o mato-grossense Rafael Feijão e o brasiliense Paulo Thiago. O primeiro é ex-campeão meio-pesado do Strikeforce, que vem em busca de sua reabilitação, depois de estrear no maior campeonato de MMA do mundo com um nocaute sofrido em luta com o também brasileiro, Thiago Silva, na final do TUF 2 ocorrido em Fortaleza (CE). O meio-pesado cuiabano, discípulo de Rodrigo Nogueira, o Minotauro, uma das lendas do esporte, encara agora o croata Igor Pokrajac.

Paulo Thiago é soldado do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Distrito Federal. O brasiliense, especialista em jiu-jítsu, vai encarar o americano Brandon Thatch. Uma coisa é certa: o brasileiro contará com grande torcida que virá da capital vizinha.

MMA em fase de crescimento em Goiás

Por enquanto não há nenhum representante de Goiás no UFC, mas em Goiânia é possível encontrar uma boa oferta de academias que promovem aulas de MMA. Hoje, os maiores expoentes do esporte em Goiás são: Ismael de Jesus, 33, atual campeão do peso médio (até 84 quilos) do evento brasileiro de MMA Shooto Brasil. “Marmota”, como o goiano é conhecido, foi forjado na academia do faixa preta de jiu-jítsu e campeão brasileiro de luta olímpica Fernando Boi. Na mesma competição, o peso leve (70 quilos) Geraldo Ferro, goiano de Paraúna, também é destaque. O atleta, que já foi campeão de sua categoria, é oriundo da Academia Contato, comandada pelos faixas preta de jiu-jítsu Féfeu e Conrado Bucker.

Outro grande atleta do MMA de Goiás é Leandro “Batata” Silva, que já foi o primeiro do ranking da categoria até 84 quilos no Shooto japonês. Não se tem um número exato de quantos lutadores vivem profissionalmente do esporte em Goiás, mas, segundo Nelson Luís de Oliveira, faixa preta de caratê, kick-boxing e demais modalidades, é difícil um atleta se manter apenas de MMA em terras goianas. “Aqui ainda não se oferece estrutura adequada, os lutadores tem que sair da cidade para se manter da luta, mas muitos não tem condições de irem embora”, afirma o lutador, que embarcará para Ancara, capital da Turquia, para mais uma competição do K-1, o maior evento de artes marciais de lutas em pé.

Marcos Nakamura, da Aca­demia Nakamura Top Team, afirma que a vinda do UFC para Goiânia poderá melhorar o nível do esporte em Goiás. O faixa preta de judô e jiu-jítsu promove um evento regional chamado Nakamura Fight Cham­pionship (NFC) que está em sua nona edição. “O público do MMA na capital tem aumentado junto com patrocinadores e do interesse da mídia. Por isso sou otimista e vejo com bons olhos o futuro do esporte em Goiás.”

 O professor de artes marciais que comanda uma equipe de 20 atletas de MMA é empresário do atleta Victor Hugo, de 18 anos, considerado uma promessa do esporte, com cartel de nove lutas, oito vitórias e uma derrota. “Em breve poderemos fechar contrato com o Bellator — evento americano de MMA — ou com o próprio UFC.”

Fonte: Jornal Opção