8 de novembro de 2013

Meio ambiente: Frutos típicos do Cerrado sob ameaça


Espécies podem desaparecer em questão de anos com a devastação acelerada.

“Cajuzinho quem quiser, é só ir buscar na serra”... Assim dizia aquela canção tão familiar às nossas raízes goianas. Composta por Hamilton Carneiro e Genésio Tocantins, a música Frutos da Terra faz ode a uma das principais riquezas do Cerrado: a sua gama de frutos de imensas propriedades nutritivas e valor imaterial incalculável, imbricados de significados da cultura popular. Marca da identidade de nossa gente, os frutos do Cerrado fazem parte do imaginário coletivo do goiano. Seja como ingredientes de receitas típicas, ou mesmo em nossa memória afetiva. Muitos têm ou tiveram o privilégio de preservar lembranças daquela avó que, aos domingos, reunia a meninada para chupar fruta no pé do quintal de casa. Ou aquele avô que sossegadamente se sentava à sombra de um frondoso exemplar de jatobá.

As reminiscências são reconfortantes por trazerem de volta uma época cada vez mais distante e, ao mesmo tempo, tão discrepante de nossa realidade atual. A ação humana cada vez mais destrutiva coloca em xeque não somente a serra, mas veredas, as áreas campestres, campos de altitude, as ‘pindaíbas’... Nada vem escapando da escalada galopante da degradação. “Goiânia era um Cerrado. Tudo que você plantava, ele dava. Veja agora: não restou nada e continuam limpando tudo”, compara Bariani Ortêncio, com um quê de nostalgia  misturada à uma preocupação bastante plausível.  O último relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), divulgado em setembro deste ano, prevê que 40 mil quilômetros quadrados serão desmatados por década até 2050.

De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente, estima-se que 20% das 11.627 espécies de plantas nativas e endêmicas já não ocorram em áreas protegidas. A expansão da fronteira agrícola do país, orientada principalmente para monoculturas como a soja, cana-de-açúcar e o algodão, além da pecuária leiteira e de corte, provocou alterações ambientais drásticas, principalmente nas últimas três décadas. No que tange especificamente os frutos do Cerrado, não há registros científicos anteriores com os quais seja possível estabelecer um comparativo com a distribuição populacional da flora atual. No entanto, o deprimente prognóstico de que muitas espécies podem simplesmente desaparecer em poucos anos advém da constatação empírica daqueles que, por razões díspares, mantêm uma relação estreita com o Cerrado e podem analisar este cenário preocupante de uma perspectiva privilegiada.

Terra em transe

“A natureza vai cobrar do homem”. O tom ameaçador é do empresário Clóvis José de Almeida, fundador da Frutos do Brasil, que se tornou referência por fabricar picolés e sorvetes a partir de frutas típicas do Cerrado. “Absolutamente tudo está sendo devastado. A primeira coisa que acontece quando alguém consegue um pedaço de chão é derrubar a mata nativa”. A constatação é respaldada pela vivência empresarial de quem atua no ramo desde 1996 e depende economicamente da preservação do bioma. Segundo conta Clóvis, a matéria prima para os produtos está cada vez mais rara. A escassez afeta principalmente as espécies adaptadas às regiões de planície, mais adequadas para a ocupação humana. As queimadas também tem um efeito deletério inquestionável. “Espécies como o jatobá e o pequi são as mais sensíveis. Elas levam cerca de três anos para se recuperar e voltar a produzir frutos, quando não morrem”, explica o produtor.

Atribuir aos frutos do Cerrado a condição de espécies em risco de extinção ainda é prematuro. Quem afirma é o geógrafo e doutor em Desenvolvimento Regional e Planejamento ambiental pela UFG, Marcelo Rodrigues Mendonça. No entanto, ele faz questão de frisar que a diminuição da população de espécies vegetais nativas é sim significativa. “Às vezes você anda centenas de quilômetros e não encontra mais nada. Apenas remanescentes em áreas pouco propícias”. O problema já é evidente para os entendidos, o que não necessariamente se converte em medidas efetivas de preservação. “O estudo e a pesquisa não conseguiram acompanhar o ritmo acelerado do desenvolvimento. Assim, está cada vez mais difícil de encontrar os frutos, principalmente espécies como a gabiroba, o cajuí, bacupari rasteiro e o fruta-de-ema, típicos de regiões campestres ou chapadões, áreas que foram densamente ocupadas pelo ser humano”, explica o professor Roberto Malheiros, pesquisador do Instituto do Trópico Subúmido da Pontifícia Universidade Católica (PUC-GO).

Mais que o prejuízo ambiental, as perdas em relação ao patrimônio imaterial seriam igualmente incalculáveis.  Conclusão do escritor e folclorista Bariani Ortêncio, profundo conhecedor da culinária e cultura goiana. “O cerrado é tão rico, que em um espaço de 9m quadrados você vai achar duas frutas e duas ervas medicinais. É uma riqueza tamanha. Antigamente, as bolas eram feitas de bexiga de boi, revestida com leite da mangaba. Era o plástico daquela época. Está acabando tudo. A soja está chegando e está limpando tudo, não fica nenhum pé. Isso é o progresso. Tudo pronto, tudo fácil, e ninguém vai mais atrás destas coisas (os frutos típicos)”.

Plantando a sementinha

Dona Raimunda é uma senhora sábia e muito ativa. Além de psicóloga, arteterapeuta e poetisa, a simpática “Rai”, como é mais conhecida, tem boa parte de as atribulada rotina aos afazeres da floricultura que possui no Setor Sudoeste. O local é mais um dentre tantos estabelecimentos do tipo na capital, se diferenciando pelo zeloso trabalho de preservação desenvolvido pela proprietária. “Meu principal objetivo é preservar as plantas semiextintas”, afirma. Pequi, gabiroba e mangaba estão entre as mais cultivadas, principalmente pela facilidade de germinação. A adoração pela natureza local vem de berço. “Meus pais sempre foram preocupados com a preservação e conservação da flora”, lembra Rai. A floriculturista acredita que se houvesse maior preocupação por parte das autoridades, o comportamento da população seria outro. “Nas escolas deveria haver um incentivo para colher sementes em campo. Não creio que haja resistência das pessoas em cultivar e se interessar pelas espécies, mas sim um desconhecimento, uma falta de oportunidade de receber este conhecimento ecologicamente correto”, analisa.

O empresário Clóvis José de Almeida também faz questão de mostrar que vale a pena preservar e investir no Cerrado. Em sua propriedade rural no município de Palestina de Goiás, na região sudoeste do Estado, são cultivadas frutas como mangaba, cagaita, araçá, araticum, murici e jatobá. Todas mantendo sua relação genuína com a fauna local. “Lá não coloco nem espantalho. Os pés de murici, quando brotam, ficam repletos de papagaios. Nós, os homens, destruímos sua fonte de alimentação e eles precisam das frutas para comer. A mim, só resta ficar com a sobra. Que neste caso, me rendeu 70 kg da fruta de um único pé”, conta. As sementes colhidas são encaminhadas para entidade como Embrapa e Emater, de modo a contribuir para a produção demudas a serem utilizadas em áreas de reflorestamento.

A chácara, no entanto, acaba servindo apenas como uma vitrine, uma vez que a produção necessária para demanda provém de uma cadeia de pequenos produtores articulada pelo empresário.  “O caju é produzido em uma propriedade em Padre Bernardo, e a cagaita eu busco em Abadia de Goiás. Mas possuo aquela terra apenas para poder mostrar que vale a pena produzir as espécies nativas. Uma plantação de mangaba, por exemplo, é muito mais rentável que uma cultura de soja ou algodão”, diz Clóviz. O doutor Marcelo Rodrigues corrobora a hipótese: “Um hectare cultivado com frutos de Cerrado (mangaba, gabiroba etc) rende mais que um hectare de soja em renda monetária”. Sem contar que essa plantação exige o uso de agrotóxicos, que contaminam o meio ambiente e os lençóis freáticos. “Não sou contra o cultivo destes produtos. Ao contrário, nós precisamos deles também para viver. Mas acho o que acho totalmente desnecessária essa degradação tão grande, principalmente das áreas de nascentes”, reflete Clóvis.

O professor Roberto Malheiros apoia a exploração econômica dos frutos do Cerrado. Ele acredita que a preservação só será possível com a popularização e agregando valor econômico às espécies. “Ainda hoje os frutos são absolutamente desconhecidos da população. O pequi só foi preservado por o produto tem valor econômico”. Para que essa popularização seja possível, ele defende uma educação alimentar que promova a inclusão de espécies nativas, principalmente nas escolas, para que as crianças se familiarizem com as frutas. “Hoje a garotada só conhece o gosto da maçã, da uva, da goiaba. É preciso fazer com que eles conheçam o cajuzinho, a mangaba. Tem que haver um incentivo para que os jovens conheçam e peguem gosto pelos sabores do Cerrado”.  A inciativa é muito comum em eventos gastronômicos regionais, mas afirma Bariani Ortêncio, a ação é pontual e efêmera. “O baru você vê muito em festivais, e como condimento. Nunca vi uma coisa destas! E é só. Se você for depois procurar em um restaurante, não acha”.

É de comer?

Segundo o professor Roberto Malheiros, existem 50 espécies catalogadas de frutos típicos do Cerrado que são comestíveis. Veja abaixo as principais características de algumas delas:

Buriti: A palmeira ocorre nas áreas úmidas de veredas e produz em grande quantidade, principalmente no mês de dezembro. Do fruto se aproveita a polpa, que pode ser consumida in natura ou transformada em doces, geleias, sorvetes, picolés, pães e outras quitandas. Através do cozimento, é extraído da polpa um óleo de excelente qualidade.

Pequi: Legítimo representante do Cerrado, é pequi é altamente apreciado na culinária regional, em receitas com arroz, frango, e até mesmo, licores e picolés. A polpa de amarelo intenso e sabor adocicado e bem característico reveste o caroço duro, com muitos espinhos no interior.

Baru: Fruto de árvore de grande porte , que pode atingir 10 metros de altura e 70 cm de diâmetro. Fruto castanho com amêndoa e polpa comestíveis, que amadurecem de setembro a outubro. Apesar do potencial econômico da fruta, foi a semente que se popularizou. É conhecida como "Viagra do Cerrado", pelo alto valor energético: cem gramas de amêndoas de Baru fornecem 617 calorias e 26% de proteína.

Jatobá: No cerrado existem espécies de jatobá que ocorrem nas matas e também em cerrado stricto sensu, os da mata apresentam frutos maiores, mas guardam o mesmo cheiro e sabor. O macaco prego e o guariba gostam de comer o jatobá antes que ele fique totalmente maduro (de vez), neste estágio a polpa tem um gosto que lembra muito o abacate e é menos fibrosa. Quando maduro o jatobá tem um cheiro forte e bem característico. Pode ser consumido in natura ou processado para fabricação, principalmente de quitandas(pães, bolachas,roscas). As pesquisas já demonstraram que a farinha de jatobá tem três vezes mais propriedades benéficas como alimento do que a farinha de trigo, portanto é uma espécie que merece ser preservada para as futuras gerações. A casca do fruto quando triturada pode servir de adubo para outras plantas.

Araticum: Espécie arbórea que ocorre no ambiente de cerrado stricto sensu( cerrado propriamente dito), possui um cheiro intenso que perfuma o cerrado no mês de fevereiro, é o ultimo fruto de grande porte a madurecer no cerrado. O fruto tem um formato arredondado de cor marrom e casca grossa, mas a polpa é suculenta e muito doce, assim como a mangaba é considerado por muitos como o fruto dos deuses do cerrado, que por este motivo foi feita uma canção chamada “Araticum” de composição do mestre Arnaldo. Hoje a polpa do fruto tem diversas aplicações como alimento que vai desde pães, bolachas, doces, licores,sorvetes etc. Nas feiras de Goiânia um fruto do Araticum chega a ser vendido por R$ 30,00, durante a safra. Esta espécie também corre serio risco de extinção, pois não existe em grande quantidade no cerrado e o seu manejo ainda é pouco conhecido pela ciência. A taxa de germinação em viveiro é baixa, devido a dormência das sementes.

Mangaba: A mangabeira é uma planta lactescente (produz látex), típica do ambiente de cerrado stricto sensu (cerrado propriamente dito), no passado o látex da mangabeira foi utilizado pela industria na fabricação de borrachas finas, principalmente para materiais hospitalares. O fruto da mangaba é considerado o manjar dos deuses do cerrado, quando coletado no chão torna-se ainda mais saboroso e adocicado, pois completou todo o seu ciclo de maturação na planta mãe. Estes frutos são transformados em sorvetes, picles, doces, cremes, balas etc.., atualmente existem cooperativas de catadores de mangaba, o fruto garante a sobrevivência de várias famílias. É uma espécie que não ocorre em grandes populações, portanto a destruição do cerrado coloca esta espécie em risco de extinção.

Gabiroba: A gabiroba é uma planta herbácea (pequeno porte) que ocorre em áreas campestres do cerrado e brota em grande quantidade em novembro. Diz a lenda que, durante este mês, muitas mulheres ficavam grávidas, pois saiam para catar gabiroba com os namorados e se perdiam no Cerrado. O fruto é parecido com uma pequena goiaba e muito saboroso. Esta espécie corre serio risco de extinção em função da intensa ocupação das áreas planas de campo, com a implantação das monoculturas.

Cagaita: Típica do chamado ‘cerrado stricto sensu’ ou cerrado propriamente dito. A maturação ocorre no mês de outubro e se estende até novembro. O fruto pode ser consumido ainda verde, quando a polpa está mais firme e com sabor mais agradável. Quando madura, adquire uma cor amarelada e ligeira acidez. O consumo do fruto maduro em grande quantidade pode causar desarranjo intestinal e embriaguez. O fruto da cagaita também é muito consumido pelos canídeos, principalmente pelo lobo Guará e cachorro – do- mato.

Fonte: Jornal O Popular