20 de outubro de 2013

“Os grandes investidores mundiais querem ouvir falar sobre Goiânia”


Paulo Garcia chegou à sede do Jornal Opção, na sexta-feira, 18, com uma vistosa camisa verde. Um jornalista foi logo perguntando se era homenagem ao Goiás — o clube goiano havia vencido o Vasco na noite anterior, pelo Campeonato Brasileiro. De pronto, o prefeito confirmou: “É, sim. Sou torcedor do Atlético, mas torço também pelo futebol goiano e fiz minha parte pelo Goiás ontem.”

O petista é assim: mesmo em meio a problemas mais agudos na administração — foi uma semana delicada em relação à greve na rede municipal de ensino — consegue manter sua linha de comportamento. Paulo concedeu entrevista para fazer um balanço sobre os 80 anos de Goiânia, data em que entrega uma obra de importância para a mobilidade urbana: o túnel da Avenida Araguaia, fundamental para ligação do Centro às regiões norte e leste da cidade. Essa é uma das obras que leva o prefeito, dentro do conceito de sustentabilidade de sua gestão, a crer em um futuro promissor para a capital. “O mundo civilizado e desenvolvido e os grandes investidores mundiais querem ouvir falar sobre Goiânia”, garante.

A política também compôs boa parte da conversa. Antes de se sentar à mesa para responder as questões, o prefeito atendeu ao telefone. Do outro lado da linha estava seu antecessor e guia na política, Iris Rezende (PMDB). Mais um sinal de que a ligação entre os dois continua firme e forte como sempre. Não por acaso, Paulo Garcia reafirmou: “Aqueles que sonham que o PMDB e o PT ficarão separados mais uma vez vão cometer um equívoco de avaliação.”

Euler de França Belém — Nesta semana Goiânia completa 80 anos, no dia 24 de outubro. É considerada uma das cidades mais novas do Brasil e até do mundo. Em termos de cidade, 80 anos é uma infância. Como o prefeito da cidade a vê hoje?

Eu acho que Goiânia é uma belíssima cidade. É, sem sombra de dúvidas, a capital brasileira com melhor qualidade de vida, mesmo que alguns não admitam. Isso não significa que não tenhamos problemas, que vivamos em um mundo perfeito. Não é isso, mas dentro dos parâmetros nacionais e internacionais, somos muito bem avaliados. Temos um espaço urbano agradável para viver e que fomos construindo muito rapidamente. E eu penso que essa construção é coletiva, com a contribuição de cada homem e mulher que nasceu, que vive, que passou, que ocupou cargo público na cidade e também com a participação de outros 245 municípios que nos ajudaram a formatar Goiânia como ela é hoje, porque a capital sempre recebe manifestações e influências das cidades do interior. É uma cidade muito agradável, que, lógico, precisa avançar em alguma áreas. E ela é nacional e internacionalmente co­nhe­cida como tal. Eu fui convidado, recentemente, a ir a Tóquio falar em uma mesa coordenada pelo presidente mundial do BID [Banco Interamericano de Desenvolvimen­to]. Não é pela minha capacidade ex­cepcional, não sou ninguém fora do co­mum, sou igual a todos, tenho mi­nhas virtudes, meus defeitos. Eu te­nho certeza de que o convite se deu em razão do que é Goiânia. O mun­do civilizado e desenvolvido e os grandes investidores mundiais querem ouvir falar sobre Goiânia. Se eles querem ouvir, é porque alguma coisa interessante está sendo feito aqui. Cingapura, por exemplo, que é uma cidade-estado e já esgotou sua possibilidade territorial de investimento, quer investir aqui, na nossa cidade. Eles se organizaram para ir ao Japão para ouvir falar sobre Goiânia e nos mostrar o que eles podem fazer aqui. Então penso que nossa cidade tem um futuro muito interessante.

Euler de França Belém — E como o sr. acha que vai ficar na história? Pedro Ludovico foi o gestor que fundou a cidade, por mais que não tivesse feito muita coisa. Iris Rezende fez os mutirões, as obras, os asfaltos. Nion Albernaz fez a urbanização, Hélio de Britto, o saneamento. Qual acha que será sua imagem para a posterioridade?

Na verdade, eu não sei. A única excepcionalidade que eu tenho é ter sido o primeiro prefeito nascido na cidade eleito pelo voto direto. As outras características minhas são comuns: um homem sério, trabalhador, não tem nada de excepcional.

Patrícia Moraes Machado — Mas como o sr. procura caracterizar sua gestão?

Uma administração ágil, moderna, transparente, séria, idônea e que procura ser contemporânea com o momento em que vive, e que projeta o futuro como uma cidade que prioriza o desenvolvimento urbano sustentável. Agora, essa questão de desenvolvimento urbano sustentável é muito ampla, as pessoas têm uma tendência a restringir essa caracterização a aspectos diretamente ambientais e não é só isso. Não é só arborizar, aumentar e preservar as áreas verdes, cuidar dos nossos recursos hídricos. Óbvio que isso tudo é muito importante, mas não é só. Na verdade, é basicamente a construção de uma área urbana fraterna, solidária, colaborativo, democrática, onde cada um gosta de viver e sinta orgulho de viver ali. É isso que eu gostaria de deixar marcado na minha administração.

Euler de França Belém — O sr. ganhou a eleição falando de sustentabilidade. Agora, com dez meses de seu segundo governo, o que foi feito, realmente, na área da sustentabilidade?

Foi feito coisa demais, até me assustei. Têm áreas que já cumprimos quase todo o nosso compromisso. Tudo é sustentabilidade desde que a ação, programa ou projeto leve a melhorias na qualidade de vida das pessoas. Por exemplo, nós fizemos o compromisso da criação de estruturas que atendessem a segmentos sociais que ocasionalmente não tivessem uma organização da política pública direcionada a eles. Na área de deficiência, criamos uma secretaria e diversas medidas que estão sendo implantadas para atender às necessidades nesse sentido. Essa é a nossa bandeira fundamental, que é muito atual. Você tem de administrar a cidade tendo como plano de fundo a sustentabilidade, não há outra opção que não seja essa. Eu tenho algumas convicções: século 19 foi dos impérios; século 20, das ações; o século 21 será, inexoravelmente, das cidades. É onde a pessoa vive, as concentrações urbanas serão cada vez maiores e é bom que sejam. Há estudos científicos comprobatórios que quanto maior é uma cidade, quanto maior a aglomeração e adensamento, que seja maior também o desenvolvimento sustentável, há uma redução do uso dos recursos naturais. E nós temos, no Brasil, um momento de opção. Tem de ser feita uma escolha definitiva. A Consti­tui­ção de 88 deu toda a condição necessária para a consolidação da democracia para o Estado fiscalizador, que são as instituições como o Ministério Público, a Procuradoria, os Tribunais de Conta. E podem observar que eles têm toda a estrutura física e de recursos humanos necessários. É a área mais bem remunerada, inclusive. O Estado que faz, que trabalha e que produz riqueza, seja ele público ou privado, trabalha sempre nas condições que nós temos, sempre em dificuldade. Com recursos insuficientes para todas as nossas demandas. Então, precisamos refazer nosso pacto cooperativo, para que nós possamos investir na cidade de forma que o desenvolvimento se dê de maneira sustentável.Então para falar sobre o que nós já fizemos: implantamos políticas e programas que dão sustentabilidade aos diversos segmentos sociais, alguns deles que não tinham nem elaboração de políticas públicas do ponto de vista do organograma da estrutura administrativa da cidade. Estamos implantando na saúde todos os projetos com os quais nos comprometemos. Afirmamos na época da eleição que faríamos 6 Caps [centros de apoio psicossocial] em quatro anos. Já inauguramos dois em 10 meses, o Caps na região noroeste e o Caps Novo Mundo, que já abriga 687 usuários. Um deles dedicado ao acolhimento de pessoas que tenham transtornos mentais e o outro que atua também na dependência de álcool e drogas. Isso é sustentabilidade. Nós falamos que iríamos fazer três UPAs [unidades de pronto atendimento]; uma já foi inaugurada, a outra está em obras e para a terceira estamos prontos para dar as ordens de serviço. Já entregamos a da região sudoeste de Goiânia, bem montada, equipada, com capacidade para atender 300 mil pacientes. Estamos reestruturando toda a saúde com o projeto Mais Trabalho, Mais Saúde, para humanizar e dar dignidade ao atendimento, que é o que falta nos serviços, um acolhimento digno para as pessoas. Mas nós temos de conviver com o problema de superlotação das nossas unidades, por falta de uma política de regionalização do Estado de Goiás. Isso é fato consumado, querer esconder isso é tapar o sol com a peneira. Nos cadastros na Secretaria da Saúde nós temos 6 milhões de pacientes cadastrados que alegam morar em Goiânia. Aí existe um contrassenso. Ou o IBGE errou e nossa cidade não tem apenas 1,5 milhão de habitantes ou nem todos os cadastros são de gente que realmente mora aqui. É claro que nós sabemos que muitos não moram aqui, que eles se cadastram para utilizar os serviços e sobrecarregam nossas unidades. Na área de mobilidade urbana, nós estamos desencadeando a construção dos corredores, o BRT já está com a licitação em curso.

Euler de França Belém — E o que significa a licitação está em curso? Em quanto tempo o BRT estará funcionando, completamente disponível para o uso da sociedade?

Por se tratar de uma obra vultosa, nós tivemos 12 consórcios nacionais e internacionais que se pré-qualificaram. Agora vêm aquelas fases de verificação aos preceitos contidos no edital, depois a questão de menor preço e maior qualidade. Então, não dá pra ter uma precisão nessa previsão.

Euler de França Belém- E quais são as obras que devem ser feitas no BRT?

São muitas, porque são quase 40 quilômetros de extensão. Existem as obras estruturais, desde o próprio leito, a construção de dezenas de pontos de acesso e saída e grandes estações. Temos muitas dessas previstas. Na região entre o Setor Pedro Ludovico e a divisa com Aparecida de Goiânia vai ter uma estação. Teremos outra na Goiás Norte e mais 34 estações. Esse projeto requalifica, do ponto de vista urbanístico, todo o trajeto, para não ficar uma obra visualmente desagradável.

Frederico Vitor — O BRT vai ficar semelhante ao sistema integrado de Bogotá?

Sim, será bem semelhante. Porque em Bogotá há o eixo exclusivo, com condições de cortar a cidade de norte a sul. É o que teremos, um trajeto exclusivo, feito de forma moderna e adequada e, principalmente, com rapidez de percurso. Esses são os grandes problemas do transporte público, e todos eles vão ser contemplados com o BRT.

Euler de França Belém — E qual será o trajeto do BRT?

O trajeto sai da confluência das avenidas Rio Verde e São João, perto do Terminal Cruzeiro, vem pela própria Rio Verde, desce até a Quarta Radial, corta a Circular no Setor Pedro Ludovico e chega ao Terminal Izidória. De lá pega a Avenida 90, depois a 84, chega à Praça Cívica, desde a Avenida Goiás, corta a Perimetral Norte, segue na Goiás Norte e termina no Setor Recanto do Bosque, na região noroeste. É enorme, corta a cidade inteira. Esse é o trecho de Goiânia, porque ele ainda faz intersecção com o BRT de Aparecida.

Euler de França Belém — Os ônibus do BRT serão parecidos com os do Eixo Anhanguera?

Ainda não dá para saber, porque não sabemos qual empresa vai ganhar a licitação, qual modelo será proposto, mas basicamente a característica geral é ter acessibilidade completa e capacidade para recepcionar um grande número de usuários, porque serão articulados; terão ar-condicionado, bancos apropriados, locais adequados para idosos, gestantes e deficientes. Serão pequenas locomotivas sobre rodas.

Patrícia Moraes Machado — Se todos os prazos forem cumpridos, a população de Goiânia vai contar com os benefícios do BRT a partir de quando?

A previsão de cumprimento do projeto é de 15 meses. Digamos que até dezembro consigamos dar as ordens de serviço, até o fim de 2014 teremos um grande trecho pronto já.

Patrícia Moraes Machado — Ainda sobre sustentabilidade, qual outra atuação da Prefeitura nessa área?

Pensando na sustentabilidade e na mobilidade, nós vamos entregar agora, dia 24 de outubro, o complemento do chamado Complexo Bo­tafogo, onde o Mutirama se insere, que é o túnel da Avenida Araguaia. As obras estão em ritmo avançado e em seis dias conseguiremos entregar. O túnel vai reunificar e integrar as duas margens do Córrego Botafogo. Estamos restaurando a parte direita da avenida Araguaia, no sentido norte. Fizemos novas trilhas, nova iluminação, áreas de convivência com praças, quadra poliesportiva, pista de skate, recuperamos o lago na região.

Patrícia Moraes Machado — Essa vai ser a maior obra para o aniversário da cidade?

Eu creio que sim, porque o Complexo Mauro Borges — que é o viaduto entre a Marginal Botafogo e as avenidas A, E e 88 — sofreu um atraso em suas obras de 30 dias, por conta de uma linha de alta tensão que não foi retirada pela Celg a tempo e nos impediu de trabalhar lá. Mas, ainda assim, a intenção é entregar até o fim do ano. Houve um atraso também em um dos pilares de sustentação e nas rampas de acesso, porque a linha de alta tensão passava pelo local.

Euler de França Belém — Vão ocorrer outras inaugurações até o dia 24?

Foram inauguradas também duas novas avenidas. Na região sudoeste da capital, uma pista dupla, bem extensa, muito importante e que criou um novo corredor, que é a ligação das avenidas Independência e Nadra Bufáiçal. Ela faz parte do Projeto Macambira-Anicuns, com recursos próprios, enquanto o Macambira está paralisado. A outra é uma avenida que liga a GO-010, na região leste, ao conjunto habitacional Irisville.

Euler de França Belém — Por que a obra da ciclovia que iria da Praça Universitária a Campus foi paralisada?

É que a gente tem prioridades, os recursos são muito limitados. De todo orçamento, mais de 50% vai para a folha; 25% é da educação; e 15%, da saúde. Os 10% que sobram têm de atender a todos os demais setores: cultura, esporte, lazer, obras. É muito pouco. Essa é a realidade de todo município brasileiro, trabalhar sem dinheiro. Eu acho até que fazemos muito, a maioria das coisas que estamos fazendo é com recurso próprio.

Euler de França Belém — Quanto a Prefeitura arrecada anualmente? Qual é o montante total?

Para 2013 está prevista uma arrecadação de R$ 3,5 bilhões.

Patrícia Moraes Machado — E por que não buscar o endividamento, não trazer dinheiro, como nós vemos todo gestor executivo fazendo?

Eu acho que tudo tem limites, principalmente nessa questão. Porque, às vezes, o endividamento é tão grande que cabe aos sucessores, ao próximo mandato, só pagar folha salarial e empréstimos, com toda a renda comprometida só para isso durante décadas. Nós temos hoje, a maior capacidade de endividamento entre todas as capitais do País, e estamos fazendo opção para alguns financiamentos. As obras do Macambira-Anicuns são financiadas, o BRT também, e nós buscamos verba no governo federal também. É que é muito moroso tudo isso, os municípios não têm as mesmas tratativas dos Estados. Para eles, a legislação permite que eles se endividam de maneira mais direta, é uma legislação diferente. Recentemente eu estive na Secretaria do Tesouro Nacional, que é o órgão que regulamente essas questões, propondo ao secretário uma maneira de financiamento para os municípios semelhante à dos Estados, porque têm cidades com orçamentos maiores do que o de alguns Estados.

Frederico Vitor — Pensando novamente na questão da região norte. A Perimetral, que vai levar ao novo shopping, não está totalmente iluminada. É responsabilidade da Prefeitura?

O problema da Perimetral Norte, e que muitos não sabem, é que ela é continuação da BR-060, então, tudo que é federal, tem de ter aprovação do Dnit, porque é o órgão que tem o domínio daquele local, que é uma área de domínio federal. É de responsabilidade da Prefeitura, mas é difícil de atuar lá. É o mesmo caso da BR-153, entre Aparecida e Goiânia. É área do Dnit, não podemos fazer uma obra sem autorização federal, pode até resultar em ação de improbidade.

Fonte: Jornal Opção