23 de setembro de 2013

Mauro Faiad: “Goiás virou um canteiro de obras, tanto físicas quanto sociais”

Secretário de Ciência e Tecnologia apresenta números positivos do Bolsa Futuro e outros programas e diz que chance de o governador não buscar a reeleição é “infinitesimal”
Fernando Leite/Jornal Opção
Foco total na gestão. Esse é princípio do economista Mauro Faiad, titular da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia (Sectec) que, de bate-pronto, já descarta. “Não sou candidato a nada, de forma alguma.” A pergunta é cada vez mais frequente por conta de sua pasta ser uma das mais visadas em termos de capital eleitoral. Afinal, é nela que se concentra o Bolsa Futuro, programa social destinado a melhorar o nível da mão de obra em Goiás e que pretende qualificar 500 mil goianos até o fim do atual governo de Marconi Perillo.

O programa abriu 50 mil vagas em 2012. Formaram-se mais de 42,7 mil alunos, dos quais 5,6 mil fizeram um curso específico extra. Ao todo, foram mais de 47,4 mil qualificações pelo Bolsa Futuro. São números expressivos, mas que sofreram contestação nas últimas semanas. O secretário também rechaça outro boato: o de que faria muitas viagens ao exterior. “É um absurdo. Fico surpreso, já que fui apenas duas vezes e ambas [uma para a Espanha e outra para a Itália] para buscar parcerias para a Sectec. Vou agora tirar alguns dias de minhas férias do ano passado”, responde.

Na questão política, Mauro Faiad mostra convicção total de que o governador será não só candidato, mas reconduzido ao Palácio das Esmeraldas. A justificativa? “Marconi é o único cuja visão transcende os limites territoriais goianos. Ele olha para fora do Estado. Não vejo outro candidato com a capacidade de conduzir um processo dessa amplitude, a não ser ele.”
Elder Dias — O sr. está à frente da Sectec desde o início do governo Marconi Perillo. O que é mais importante no trabalho desenvolvido até agora pela secretaria?
Há um dado que considero relevante para entender as ações da secretaria: o hiato que existe entre a participação do nosso Produto Interno Bruto (PIB) no ranking nacional e a participação da renda per capita goiana no ranking nacional também. Enquanto ocupamos a 9ª posição no tamanho do PIB, nós ocupamos apenas a 12ª posição no ranking de renda per capita. Existe um hiato entre a importância da economia goiana e o rendimento médio. Diminuir esse hiato é a grande missão da secretaria. Esse hiato significa que a produtividade da economia goiana, em diversos setores, ainda deixa um pouco a desejar. Na Sectec, temos de trabalhar para dar produtividade à economia goiana. E eu só conheço duas formas de aumentar a produtividade: qualificando a mão de obra ou aumentando a base tecnológica da economia. Ou, melhor ainda, a conjugação dos dois fatores. A secretaria trabalha nessas duas vertentes: na capacitação do trabalhador goiano e na ampliação da nossa base tecnológica.

No que diz respeito à capacitação, temos hoje em Goiás o maior programa de qualificação profissional do Brasil, o Bolsa Futuro. Não sou eu quem diz isso. O jornal “Valor Econômico”, a mais prestigiada publicação sobre economia do País, trouxe recentemente uma grande reportagem sobre o Bolsa Fu­tu­ro, considerando-o o mais extenso programa estadual de qualificação profissional de todo o Brasil. E no que diz respeito à inovação tecnológica, temos uma série de ações, como fomento a parques tecnológicos. Lembro que Anápolis acaba de credenciar o primeiro parque tecnológico do Centro-Oeste brasileiro. Também imprimimos ações nos APLs [arranjos produtivos locais], no sentido de estimular o aumento da base tecnológica por parte dos pequenos e médios produtores. Ou seja, estamos trabalhando muito nas vertentes da qualificação profissional e aumento da base tecnológica.

Elder Dias — Goiás é um Estado periférico e para se sobressair tem mesmo de ter diferencial na ciência e na tecnologia. O governo tem dado à Sectec a prioridade necessária para que se faça um trabalho a contento?
Sem sombra de dúvida. Primei­ramente lembro que Goiás ficou cinco anos praticamente sem uma pauta no que se refere a ciência e tecnologia. Exemplo disso é que o Conselho Estadual de Tecnologia ficou cinco anos sem se reunir. Isso mostra a falta de importância que o governo passado deu à questão tecnológica. Com o apoio do governador Marconi Perillo, nós trouxemos essa pauta para a ordem do dia. Tanto que temos um número interessante de parques tecnológicos, reforçando que Anápolis abriu o primeiro do Centro-Oeste, um espaço onde vão conviver o setor produtivo e o setor acadêmico. As ações junto aos APLs vão ajudar a acabar com o estigma de que a academia não pode se aproximar do setor produtivo. Esse estigma atrapalha muito, mas estamos conseguindo acabar com ele ao lançar os parques tecnológicos onde, no mesmo espaço físico, vão conviver a academia, o setor de pesquisa e o setor produtivo. Outro estigma é o de que o pequeno e o médio produtor não podem ter acesso às inovações tecnológicas. Temos acabado com isso também por meio da Fapeg [Fundação de Amparo à Pesquisa em Goiás], que está sendo muito bem conduzida pela professora  Maria Zaira Turchi, e pelos APLs. Estamos com ações em todo o Estado, no sentido de aumentar a base tecnológica no setor lácteo, e no setor moveleiro. Estamos agora também com um trabalho com as cerâmicas do Norte goiano. No setor de TI [tecnologia da informação], vamos lançar em 60 dias o maior programa nacional de fomento, pegando a região metropolitana de Goiânia e Anápolis. É um conjunto de ações que buscam colocar Goiás na pauta da renovação tecnológica. Devo reconhecer que estamos apenas engatinhando, mas um passo já foi dado não só nas sinalizações, mas nas ações que foram implantadas, apesar de os resultados demorarem um pouco a acontecer. A questão da renovação tecnológica tem de ser tratada junto com a questão da qualificação profissional — não se tem renovação tecnológica sem mão de obra capaz com essa nova base tecnológica. Daí a conjugação de capacitação profissional e renovação  tecnológica.
Cezar Santos — Para que o setor avance tem de haver recursos. O que o governo estadual destina para a ciência e tecnologia é suficiente?
Temos uma vinculação orçamentária que não é suficiente. Por isso o governo tem feito suplementações e também temos recorrido a verbas do governo federal.

Cezar Santos — Pelo que consta, Estados mais ou menos do porte de Goiás, como Pernambuco, por exemplo, têm dotações maiores.
Não se pode considerar somente a vinculação da Sectec, é preciso somar também a dotação da Fapeg e da UEG que vão para pesquisas, extensões etc. Além disso, outros setores do governo têm trabalhado na questão da pesquisa, como a Emater [Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária]. Se somar tudo, dá um número não desprezível. E cabe a nós buscarmos recursos no governo federal, o que temos conseguido bem satisfatoriamente.

Elder Dias — Não seria interessante, até simbolicamente, como mostra de vontade política do governo com o setor, um aumento nessa dotação da Sectec?
Seria interessante, claro, mas mostro um dado que revela que as verbas necessárias estão vindo. A secretaria, até 2010, se não me engano, tinha ações em 20 municípios. Hoje são 110 municípios no Estado. Essas ações precisam de recursos que têm sido suficientes para fazer um bom trabalho.

Elder Dias — Temos em Goiás 110 municípios com ações da Sectec. Mas ao mesmo tempo, 100% deles têm asfalto, de alguma forma. Não seria um indicativo das prioridades do Estado, de que se valoriza mais o “concreto” (pavimentação) do que o “abstrato” (pesquisa)?
A pauta rodoviária é antiquíssima, diferentemente do que ocorre com ciência e tecnologia. E essas 110 cidades correspondem seguramente a 90% da população de Goiás. E mesmo nas cidades que não contam com ações da Sectec, elas são próximas a polos da secretaria que podem servir aos municípios circunvizinhos. O fato de não estarmos nos 246 municípios não significa que não alcancemos os cidadãos.
Frederico Vitor — A Sectec tem uma meta de qualificar meio milhão de goianos. A meta vai ser alcançada? Afinal, já estamos no terceiro ano de governo?
Acho que ultrapassaremos essa meta. Além de termos o Bolsa Futuro, fizemos um convênio com o governo federal para o Pronatec [Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego]. Com esse programa, só em 2013, vamos qualificar 14 mil goianos. E vamos dobrar isso em 2014. Se somar o Bolsa Futuro — com o qual, por si só, chegaremos a essa meta, não tenho dúvida —, com outros programas em que somos conveniados com o governo federal, a gente bate com facilidade a meta de meio milhão de goianos beneficiados.

Elder Dias — Confere que até agora só foram qualificados 30 mil, ou seja, menos de 10%?
Não sei de onde surgiu esse número, que é totalmente equivocado. Fico tranquilo, porque todo certificado (de conclusão dos cursos) é reconhecido pelo Minis­tério da Educação (MEC), tem validade. Em 2014, qualquer pessoa poderá entrar no Sismec [Sis­tema Integrado de Monito­ra­men­to Execução e Controle] e verificar. Já atingimos, se é que não ultrapassamos, 200 mil goianos qualificados.

Cezar Santos — E a questão de evasão dos cursos?
Nosso nível de evasão é muito baixo, se comparado a programas de outros Estados. Nossa evasão é de apenas 12%, um nível muito pequeno, ainda se se considerar que o Bolsa Futuro, nessa modalidade, com ensino gratuito e repasse mensal, os cursos são semipresenciais . Dou um exemplo: a Sectec tem um convênio com o governo federal chamado  Rede e-Tec Brasil, cursos também semipresenciais, que têm em todo o País. Neles, os índices de evasão chegam à casa dos 40%. Já o do Bolsa é de 12%, baixíssimo.

Cezar Santos — Por quê?
É um cuidado muito grande o que temos com o aluno. Enten­demos que eles são provenientes de famílias de baixa renda, há uma heterogeneidade educacional muito alta e muitos nunca ligaram um computador na vida. Por isso, temos essa prudência ao lidar com esse aluno. Procuramos fazer um nivelamento com todos os alunos ao ingressarem — em disciplinas como matemática, redação, informática básica etc. —, ou seja, nós preparamos os alunos para que eles consigam acompanhar as aulas do Bolsa Futuro. Em segundo lugar, o aluno monta seu horário. Isso é importante. Ele estuda no horário que lhe é mais conveniente, o que facilita para ele. Em terceiro lugar, devo reconhecer, o repasse mensal de 75 reais é condicionado à presença dele, o que também segura o aluno. O programa é um sucesso em todos os aspectos, no número de alunos matriculados e na baixa evasão. Tenho certeza de que em 2014 teremos cadastrados no MEC mais de meio milhão de diplomas do Bolsa Futuro.
Foto: Divulgação


Cezar Santos — E a busca pelos cursos? Num um curso de Corte e Costura, as vagas não foram preenchidas, mesmo com o governo passando o valor de 160 reais para os participantes, para despesas com transportes. Tem esse problema no Bolsa Futuro ou outros programas tocados pela Sectec?
Não temos esse problema no Bolsa Futuro. O Pronatec, especificamente, está tendo dificuldades em preencher suas vagas. Recentemente eu estive no MEC [Ministério da Educação] acompanhado do secretário Thiago Peixoto [da Educação] para buscar recursos em conjunto e ouvi reclamações de que estaria havendo certa dificuldade em preencher as vagas do Pronatec. Eu fui franco e disse que essa dificuldade advém de já existir o Bolsa Futuro, que tem uma capilaridade e uma facilidade para o aluno muito maiores do que as do Pronatec. Talvez seja essa a razão. Mas a Sectec é a segunda maior ofertante do programa em Goiás e não estamos tendo dificuldade em preencher nossas vagas. O que é preciso analisar nessa questão é a relevância do curso para a região em que está sendo instalado. Os cursos precisam ter pertinência em relação ao local em que são implantados. Vou dar o exemplo dos CEPs [Centros de Educação Profissional], espalhados em diversas cidades de Goiás. Havia CEPs no Estado pelos quais passam 200 alunos por ano e conseguimos, na maioria, quintuplicar esse número. Em Goianésia, por exemplo, há cerca de 600 alunos no curso de Destilador de Álcool. Por quê? Porque é um curso relevante para Goianésia e região, onde há inúmeras usinas instaladas. Temos um olho focado no aluno e o outro, na pertinência do curso para a região em que ele é ofertado. Talvez seja esse um dos motivos mais claros do sucesso do Bolsa Futuro. Estamos andando em Goiás de ponta a ponta agora e, em muitas cidades onde estamos entregando certificados já houve preenchimento de todas as vagas ainda na pré-matrícula.
Elder Dias — Podemos então dizer que o Bolsa Futuro tem futuro? É um programa que merece e deve ser continuado além da gestão de Marconi Perillo?
Vou lhe repassar um dado que me deixou perplexo e mostra a relevância do programa: dados de 2009 e 2010, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a que tive acesso, mostravam que Goiás era a 9ª economia do País, mas o porcentual de goianos com alguma qualificação profissional era tão baixo que nos deixava apenas com a 17ª colocação no ranking nacional nesse item. Isso com Goiás crescendo acima da média nacional. Ou seja, a soma não fechava. O que o governador Marconi fez, então? Lançou o Bolsa Futuro, para qualificar, em um espaço muito curto de tempo, meio milhão de goianos em todas as áreas da economia. Essa é a meta básica: formar em três anos um contingente muito grande goianos. Alcançando isso, creio que o próximo governo vai dar uma remodelada no que hoje é o Bolsa Futuro. Como vai ser isso eu não tenho como dizer.
Foto: UEG
Frederico Vitor — O sr. considera que hoje a associação da UEG à Sectec atrapalha a universidade?
O que ocorreu foi que, em 2011, houve uma percepção de que era a Sectec quem geria a UEG, por conta da quase ausência do então reitor [Luiz Arantes], que tinha uma vida muito pouco intensa para a universidade. A secretaria teve, quase que obrigatoriamente, de assumir a dianteira na discussão dos problemas da UEG. Com a eleição do professor Haroldo Reimer, as coisas já estão se encaixando como devem ser. Tanto é que o governador mandou recentemente à Assembleia Legislativa um projeto dando total autonomia à UEG. Temos de observar que o ano de 2011 foi atípico, por isso talvez a população tenha tido essa impressão de ingerência da Sectec na UEG. Mas não houve isso: o que de fato ocorreu é que, pela ausência do reitor, às vezes tivemos de conduzir alguns processos, que hoje são levados a cabo pelo atual reitor.
Elder Dias — Esse passado da UEG, com uma ligação um tanto forçada pelas circunstâncias à Sectec, não influencia mais nos destinos da universidade nem a atrapalha?
Não nego que em 2011 dispendemos muita energia da Sectec com a UEG. Criamos uma comissão — comandada pela secretaria, mas com a participação da universidade, da Fapeg [Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado de Goiás], do Conselho Estadual de Educação e da Casa Civil — que fez o estudo mais exaustivo sobre a UEG. Disso saiu um relatório, que está sendo debatido pelo Conselho Uni­ver­sitário. Não houve atropelo, mas tomou-se muito tempo da secretaria, que hoje estão trabalhando em outras áreas. Esse gasto de energia em 2011 foi muito intenso, mas também foi válido. Esse relatório, por exemplo, servirá como base para que a universidade dirija seus destinos de agora em diante.
Cezar Santos — E como está a relação da Sectec com outras universidades? Há uma articulação boa?
Muito boa. Com a UFG [Universidade Federal de Goiás], por exemplo, temos uma relação muito estreita, principalmente por meio da Funape [Fundação de Apoio à Pesquisa]. Temos ações conjuntas diversas.
Elder Dias — Existe uma avaliação interna sobre o aprendizado e a aplicação dos currículos nos cursos tecnológicos? Outra questão: há um "feedback" do que o profissional formado está produzindo “lá fora”, no mercado de trabalho?
Primeiramente, na questão da escolha dos cursos, temos um corpo técnico de altíssimo nível na secretaria. Há mestres, doutores e PhDs trabalhando na Sectec. São pessoas com formação acadêmica tanto na área educacional quanto na tecnológica. Dessa forma, os cursos são escolhidos a dedo para atender à demanda do setor produtivo. Uma grande preocupação nossa era quanto à capacidade de aprendizagem, já que há uma considerável heterogeneidade educacional. São alunos, repito, que vêm de famílias de baixa renda, com acesso à educação muito insipiente, mas ao mesmo tempo há pessoas que fazem faculdade. É realmente muito heterogêneo, mas admito que predomine um nível de conhecimento e educacional muito baixos, realmente. São pessoas que têm famílias beneficiárias de programas sociais, que têm renda per capita de até meio salário mínimo por mês. Tínhamos, então, muito receio da capacidade de acompanhamento dos alunos, daí fizemos esse nivelamento. Temos de pensar no aluno de menor conhecimento, portanto todos têm de passar pelos cursos mais básicos. A partir daí, cada um escolhe seu curso específico. Um dado muito importante: dos alunos que não evadiram do Bolsa Futuro, cerca de 80% tiraram a nota mínima exigida para ter a certificação. É um índice expressivo, que mostra que o formato do curso é interessante. Temos instrutores presenciais e também instrutores à distância, que respondem dúvidas dos alunos a qualquer momento. Os números demonstram que tudo está caminhando no rumo certo. O que estamos fazendo agora é acompanhar os alunos durante o curso e obtido relatos muito interessantes. Há alunos que conseguem, ainda com o Bolsa Futuro, empregos novos ou promoções dentro da empresa em que já trabalham, só por estar fazendo o curso. Vamos agora, que a primeira turma concluiu seu trabalho, mapear o pós-curso, para ver de que forma o curso aumentou a empregabilidade e o nível salarial de quem o fez. Por fim a secretaria também lançou agora uma espécie de portal do emprego: todo aluno que concluir o Bolsa Futuro vai ter seu nome nesse portal, com idade, a cidade em que mora, os detalhes sobre o curso que fez. Isso vai com certeza aumentar sua empregabilidade.
“Marconi tem visão que transcende os limites de Goiás”
Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção
Cezar Santos — Ao falar em tecnologia não dá para não pensar em inclusão digital, que é fundamental. Há um programa da Sectec chamado Banda Larga Popular. Como é isso?
Só aproveitando sua informação, só o fato de 200 mil goianos de baixa renda concluírem o curso de informática básica — um dos cursos do Bolsa Futuro —, já valeu a pena o programa. São 200 mil pessoas que não tinham a oportunidade de ligar o computador. Sobre o Banda Larga Popular, Goiás foi o segundo Estado a tirar esse projeto do papel. Só São Paulo saiu na frente de nós. O governo estadual deu isenção fiscal para as operadoras que aderirem ao programa. Logicamente, há alguns requisitos para que essas empresas tenham esse benefício: a tarifa tem de estar abaixo de 30 reais, todo o equipamento (modem, cabeamento etc.) precisa ser gratuito e a velocidade da internet precisa ser de pelo menos 1 mega. Todos os municípios goianos têm hoje o Banda Larga Popular, mas as operadoras às vezes não têm como atender com rapidez à demanda dos usuários, é preciso reconhecer. Mas foi importante que esse programa precedesse o Bolsa Futuro, pelo fato de propiciar que o cidadão de menos recursos tivesse acesso à internet, para poder assistir às aulas à distância do Bolsa Futuro.
Cezar Santos — O sr. pode explicar um pouco melhor sobre quem pode ter acesso ao programa Banda Larga Popular?
É um serviço como outro qualquer: basta solicitar à operadora pelo serviço 0800. Qualquer cidadão pode solicitar, independentemente de faixa de renda.
Cezar Santos — Independentemente da classe social?
Independentemente disso. O que diferencia a banda larga popular das outras formas de acesso à internet é isto: a mensalidade tem de ser abaixo de 30 reais, vem com modem gratuito e a velocidade mínima de 1 mega. Há pacotes de velocidades mais elevadas, mas acreditamos que essa velocidade (de 1 mega) seja o suficiente para a camada mais popular. Nós temos uma operadora que está em todo o Estado de Goiás e temos outras operadoras regionais que também aderiram ao Banda Larga Popular. Temos uma em Anápolis, outra em Catalão, duas no Entorno do Distrito Federal e outra em Caldas Novas. Aos poucos, mais operadoras vão aderindo. Isso é muito bom, pois isso resulta numa melhor concorrência.
Elder Dias — Sobre os cursos, qual área tem sido mais procurada pelos trabalhadores. Existe alguma estatística?
É um pouco regional. Está mais ligada ao setor de serviços como técnicos em vendas e secretariado.
Elder Dias — E os cursos mais tecnológicos, em que se trabalha com material mais voltado a maquinário, usinas e agronegócio? Para quais as regiões a demanda é maior?
Há vários cursos. Temos alguns ligados à construção civil, manejos agrícolas e um curso interessante, que é para o manejo de gado leiteiro. Temos várias regiões de Goiás cujo gado leiteiro está presente. Os cursos são disponibilizados em várias cidades, nós não estamos disponibilizando cursos de forma que há um leque voltado para uma região e outro leque para outra. Os cursos são os mesmos para todas as cidades. Mas nós orientamos os alunos a optarem por cursos que são mais importantes na região no qual ele mora. Se pegar a radiografia do projeto, você notará que há uma correlação muito grande entre o curso mais procurado pela atividade econômica mais predominante na região.
Elder Dias — Há oferta de vagas em excesso em alguns lugares e, em outros, uma demanda que a Sectec não consegue atender?
Tem de ficar claro que o Bolsa Futuro envolve duas ações. Uma ação conjuga o repasse de 75 reais ao aluno de baixa renda. E temos outra ação que envolve 300 mil vagas, em que qualquer goiano está apto a preencher uma vaga. São mais de 80 cursos em todas as áreas. Qualquer goiano pode se candidatar desde que respeite alguns pré-requisitos, como idade, nível escolar e assim por diante. São cerca de 80 cursos espalhados por diversas unidades que temos em todo o Estado. Então, eu acho que hoje a nossa capilaridade é boa e o número de vagas é muito grande. Por isso, ouso dizer que não existe município goiano que não tenha o número de vagas necessárias para atender a demanda.
Elder Dias — Mas vagas ociosas acabam existindo em alguns lugares, não?
Na Sectec posso garantir que não, porque a gente tem um certo cuidado. Teve cidades em que a gente destinou “x” vagas que não foram ocupadas e remanejamos para outra cidade onde o número de inscrições superou e muito o número de vagas.
Cezar Santos — E sobre a criação de um polo tecnológico em Goiânia? A quantas anda esse projeto?
Lançamos o Programa Goiano de Parques Tecnológicos (PGTec), que é um programa de fomento aos parques tecnológicos, tanto públicos quanto privados. Anápolis foi preferenciado para um parque privado. Todo investimento imobiliário é do setor privado. Esse parque, para que possa vir a usufruir dos benefícios públicos, tanto estaduais quanto municipais, tem de estar credenciado no PGTec. Qualquer pessoa pode montar um parque tecnológico. Mas para ele usufruir os benefícios públicos tem de estar credenciado no PGTec. E para ele ser credenciado tem de estar de acordo com uma série de exigências. Tem de doar a área para uma universidade ou para instituições de pesquisas. Cumprido isso, ele estará credenciado no PGTec e poderá usufruir dos benefícios públicos de ordem fiscal. Brasília, há 14 anos, tenta viabilizar o parque tecnológico, mas não consegue tirá-lo do papel. Por que o parque de Anápolis será o primeiro do Centro-Oeste brasileiro? Pela sua modelagem. Todo investimento imobiliário vem do setor privado. Se ganha, é porque o setor privado segue à risca os cronogramas e calendários, que é uma grande vantagem, se diferenciando do setor público nessa questão. Em segundo lugar, porque a área ser privada dá velocidade à execução das obras e, em terceiro, permite-se que as áreas sejam dadas como garantia para levantar recursos financeiros para investimentos. O fato de a área ser privada desobriga o Estado a realizar um investimento gigantesco. O parque de Anápolis será muito parecido com o de São Carlos, em São Paulo. Será um sucesso. Temos também um projeto em Jataí, em parceria com a UFG. Itumbiara poderá ter também um parque privado, da Ulbra [Universidade Luterana Brasileira]. Aparecida de Goiânia também está trabalhando nesse sentido e o da UFG em Goiânia. Goiás terá de cinco a seis parques tecnológicos em um curto espaço de tempo.
Elder Dias — Percebe-se a olhos vistos uma mudança total no ânimo da equipe de Marconi Perillo. A roda começou a girar mais rápido no governo?
Tenho acompanhado o governador e percebo que o apoio é grande. E isso é reflexo das ações do governo. Goiás virou um canteiro de obras, tanto físicas quanto sociais. Por exemplo, o Bolsa Futuro e o Bolsa Universitária. Isso credencia o governador a ser um candidato altamente competitivo. E a imagem que foi arranhada no ano passado já foi recuperada.
Elder Dias — Embora o governador tenha deixado claro que quem está atuando é o gestor e não o político, pode-se dizer que todos estão de olho em 2014?
O fato é que 2014 está perto. A pauta do governador é estritamente administrativa, mas a robustez com que a gestão está sendo realizada, somada ao alto nível de confiança e à agilidade do governador, permite que falemos sobre política. Temos trabalhado muito e o entusiasmo cresce, pois, se a administração vai bem, a população vê o potencial político do governante. Nove entre dez goianos reconhecem que Marconi é a pessoa mais apta a dar continuidade ao processo administrativo do Estado. O governador não está falando sobre esse assunto, mas não podemos separar a gestão da sequência política.
Cezar Santos — O sr. acha que Marconi Perillo será candidato à reeleição?
Desejo muito. O governo Marconi precisa de outro mandato para consolidar Goiás como um Estado moderno e que se pontue entre os mais desenvolvidos do País, com infraestrutura e educação em níveis altos. O governador é um dos poucos a entender que o conceito de desenvolvimento supera o crescimento econômico. Ou seja, ele transcende o nível de renda e as obras físicas. Dessa forma, pode-se explicar o apoio dado à educação e às atividades culturais. Marconi foi quem incluiu Goiás no debate nacional e internacional. Poucos candidatos têm essa noção, mesmo aqueles que possuem empresas fora do País.
Euler de França Belém — Marconi Perillo bem provavelmente vai disputar o quarto mandato. Mas, do ponto de vista econômico, qual a explicação para essa nova candidatura? O crescimento econômico de Goiás é satisfatório, em nível nacional?
O governador Marconi é o único que tem visão que transcende os limites territoriais goianos, que olha para fora do Estado. O grande desafio do governador agora é inserir de vez o Estado nas linhas de comércio internacionais. E nenhum outro candidato tem essa percepção, do quão importante isso é para Goiás. O nosso Estado é a 9ª economia do Brasil e o próximo passo é a inserção nas rotas de comércio internacionais. Isso é um ponto que a gente começa a perceber, o próprio saldo de exportações já mostra que Goiás está começando a entrar nesse papel. Se o Estado quer realmente ser industrializado e moderno, com uma alta base tecnológica, ele tem de estar inserido no comércio internacional. Eu não vejo outro candidato com a capacidade de conduzir um processo dessa amplitude, a não ser Marconi.
Elder Dias — Marconi é o candidato preferido da base governista para o governo do Estado. Mesmo não sendo candidato, o sr. percebe alguém que tenha potencial para assumir uma candidatura, dentro da base governista, e levar à vitória, além do atual governador?
Na vida a gente prioriza as coisas que são mais factíveis. Como eu acho muito improvável que o Marconi não saia candidato, eu até me indisponho a pensar em outros nomes. Não vale a pena a gente ficar elucubrando sobre coisas cuja probabilidade é mínima, infinitesimal. Então, eu me recuso a pensar que haja outro candidato possível.
Cezar Santos — A pauta administrativa coloca alguns secretários em maior visibilidade. A pasta ocupada pelo sr. goza desse privilégio. Baseado nisso, o sr. pretende ser candidato?
De forma alguma. Concordo que poucos programas dão tanta visibilidade como o Bolsa Futuro. Estamos presentes em 77 cidades ativamente, fora os municípios circunvizinhos. Somados esses, os números sobem para mais de 200. Com o programa Água Para Todos, um convênio com o governo federal, será da mesma forma. Até o próximo ano, vamos focar no fornecimento de água potável para 15 mil famílias em 50 municípios goianos.
Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Titular da Secretaria de Ciência e Tecnologia, economista Mauro Faiad, em entrevista ao Jornal Opção: “As pessoas perceberam que a tecnologia serve para humanizar e facilitar a vida delas”
Elder Dias — Por que será a Sectec a aplicar esse projeto e não a Saneago, por exemplo?
É preciso tirar o estigma de que as tecnologias são coisas inacessíveis. Elas reinventam a vida a cada dia. Dessa forma, o fornecimento de água para essas famílias de baixa renda será viabilizado por meio da Sectec, que vai escolher a tecnologia mais adequada para levar água a todos. Nos locais de difícil perfuração iremos colocar cisternas de captação de águas da chuva. É uma tecnologia antiga, mas que atende às famílias. Se a estiagem for grande, o fornecimento poderá ser feito por caminhões pipa. Também podemos trabalhar com poços artesianos. Então, a Sectec é mais capacitada para entender melhor qual a melhor forma de atender a determinada situação. E vamos trabalhando. No início do Bolsa Futuro, por exemplo, o programa causou certa confusão, pois se achava que haveria perda do Renda Cidadã ou do Bolsa Família, mas costumo dizer que o programa não é uma porta de saída e, sim, de entrada para um bom emprego.
Frederico Vitor — O sr. poderia detalhar mais sobre como funciona o projeto Água para Todos?
É um programa em convênio com o Ministério da Integração Nacional que vai levar água potável para quase 15 mil famílias de baixa renda espalhadas pelas áreas rurais. Grande parte disso será via poço artesiano; onde não der para perfurar assim, vão ser construídas cisternas. Fizemos uma comissão, de que fazem parte a UFG [Universidade Federal de Goiás], UEG [Univer­sidade Estadual de Goiás], Semarh [Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos], Secult [Secre­taria de Estado da Cultura] para avaliar as cidades com maior incidência de estiagem, onde contribui também a Simego [Sistema de Meteorologia de Goiás].
Elder Dias — A que o sr. credita o fato de acharem que se candidataria ao cargo de deputado federal nas eleições de 2014?
À visibilidade que a secretaria nos dá. Antes, nós tínhamos ações em 20 cidades, agora já são mais de 100. Essa visibilidade toda causa a sensação de que o secretário vai se candidatar, cria-se aquela expectativa. Mas, observando esse cenário, eu rapidamente me reuni com todos os funcionários e gerentes da Sectec e lhes comuniquei que não seria candidato a nenhum cargo, porque eu percebi que, quando afloraram muito esses boatos [de que sairia candidato], as pessoas começaram a colocar o “pé no freio” na secretaria. Tive essa percepção, porque fica aquela história de que o secretário vai sair logo da administração, não se sabe quem vai assumir, como será o andamento dos trabalhos. Então ressaltei que não sairia candidato, que os projetos teriam continuidade. E repito agora: Não sou candidato de forma alguma. (enfático)
Cezar Santos — De volta às tecnologias, o que mais é importante de ser exposto?
Nós temos dentro da secretaria um programa de tecnologias sociais, que inclui esse projeto Água Para Todos. Eu acho muito importante dar um caráter humanístico para a secretaria. Esse termo, tecnologia, assustava muito as pessoas. Com essas tecnologias sociais, que atingem milhares de goianos, a secretaria passou a ser mais bem aceita por to­dos, passou a ter mais simpatia da po­pulação. O lado humanístico fi­cou muito patente dentro da secretaria, com a distribuição dessas bolsas. As pessoas perceberam que a tecnologia serve para humanizar e facilitar a vida delas. Até então, essa secretaria era vista como algo inacessível.
Euler de França Belém — Em Goiânia nunca houve grande incentivo às pesquisas científicas. Sempre existiu a ideia desse repasse de verba para pesquisas, mas nem sempre o dinheiro saía. Parece que neste governo a verba para os financiamentos de pesquisas está saindo mais. Mas em que realmente essas pesquisas estão contribuindo para o Estado?
A Fapeg, principalmente com a chegada da professora Maria Zaira Turchi [presidente da fundação], teve sua atuação totalmente modificada. O que ocorria antes era a diminuição de recursos, enquanto a instituição conduzia mais de 400 projetos, o que fazia com que as pesquisas não chegassem a lugar algum. O que vem sendo feito de dois anos para cá é que a FAPEG está adquirindo foco, ou seja, concentrando seus recursos em pesquisas que são estratégicas para Goiás. Esse foi o primeiro ganho. Outra coisa importante foi o fim do estigma de que o pequeno empresário não pode ter acesso às novas tecnologias. Essas medidas, tomadas agora na gestão de Zaira, beneficiaram em muito o trabalho da Fapeg. E os resultados estão aí, todos os editais da instituição são bem sucedidos. Como exemplo, temos o Pappe Integração [Programa de Fomento à Pesquisa e Inovação Tecnológica, projeto que visa estimular a capacidade de inovação das microempresas do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste]. Re­centemente estive com o pró-reitor de Pesquisa da USP [Univer­si­da­de de São Paulo], professor Marco Antonio Zago, que nos disse que São Paulo conseguiu investir apenas 65% da verba destinada ao projeto. Aqui em Goiás a Fapeg investiu 100% do dinheiro do Pappe, porque assumiu um foco e orientou as pesquisas. Deve ser levado em conta tam­bém que as pesquisas obtêm re­sultados em longo prazo. Não temos resposta imediata, mas, pensando em um crescimento sustentável, o papel da Fapeg é crucial. A instituição tem garantido que seja feito todo o repasse possível das verbas para as pesquisas e pesquisadores.
Euler de França Belém — Uma crítica que existe ao sr. — e que inclusive saiu nos jornais — é a de que tem viajado demais e que não tem trazido muita contribuição para o governo. Quantas viagens o sr. realmente fez ao exterior desde o início do governo?
Duas. Uma foi acompanhando a Orquestra Sinfônica Jovem para a Catalunha, na Espanha, evento que foi um sucesso. Fomos muito bem recebidos pelo governador da Catalunha. Por agora eu fiquei cinco dias na Itália, para tentar trazer para Goiás o Instituto Meccano, que é um dos maiores em pesquisa e certificação de produtos e que poderia certificar nossa produção goiana, credenciando-a ao mercado internacional. Foram apenas essas as viagens, nada a mais. Por isso, fico surpreso com notícias como essa.
Frederico Vitor — Recentemente a secretaria lançou as APLs [Arranjos Produtivos Locais]. No que se consiste esse projeto?
A Sectec atua como coordenadora desse projeto. Hoje, nós temos 40 APLs em Goiás. Uma APL busca dar ganho de escala para pequenos produtores, implantando um canal único de distribuição e de compra, ou um canal de formação profissional, para auxiliar os pequenos produtores, porque é mais difícil cada um trabalhar de forma isolada. Se você cria um canal único de distribuição e compra de produtos, privilegia esses produtores. Algumas áreas recebem um apoio maior, como por exemplo o setor de confecções, onde estamos trabalhando pesado, qualificando a mão de obra, montando laboratórios de produção nas principais cidades, como Jaraguá, Catalão, Pontalina, Trindade, Inhumas e algumas mais. Outro setor que vamos investir bastante é o de cerâmicas vermelhas, no Norte goiano. A situação em que se encontra os pequenos ceramistas é de dar dó. Poderiam estar fornecendo telha para o programa Minha Casa Minha Vida, mas eles não conseguem vender nada por falta de certificados. Então, além de qualificar a mão de obra, a APL vai certificar o produto, para que ele possa ter acesso ao mercado nacional. Outro aspecto importante que as APLs vão auxiliar é a produção de cachaças no Estado. Goiás possui cerca de 2 mil alambiques, dos quais apenas 15 são registrados no Ministério da Agricultura. A Sectec vai apoiar esse setor, porque grande parte da nossa cachaça é vendida para os produtores mineiros. Então, eles revendem nacionalmente e o mesmo produto volta a Goiás custando cinco vezes mais. Nós vamos promover cursos para os alambiques, buscando melhorar a qualidade dos produtos e criar um laboratório em Anápolis, para que a cachaça goiana possa ser certificada e chegar ao mercado nacional e até internacional. Também por isso a visita ao Instituto Meccano, na Itália, foi importante.
Foto: Hudson William
Elder Dias — E como ficaram as negociações para trazer o Instituto Meccano para o Estado?
Ano passado eles visitaram Goiás e agora está previsto que eles voltem em outubro ou novembro para realizar uma reunião entre a Sectec, Fieg [Federação das Indús­trias do Estado de Goiás], CNI [Centro de Formação Profissional] e Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial]. A ideia inicial é montar uma unidade em Goiânia, com escritórios em Catalão e Anápolis. As conversas estão adiantadas, por isso acredito que nessa próxima visita deles para cá já seja batido o martelo quanto à vinda do Meccano para Goiás.
Euler de França Belém — Goiás desistiu da energia eólica?
Não. Acredito que nós consigamos planejar o mapa eólico do Estado até o ano que vem, para então dar continuidade às pesquisas e projetos que trabalham com o desenvolvimento da energia eólica.
Euler de França Belém — O sr. é um economista importante em Goiás. Qual o melhor livro de economia do Brasil?
Em minha opinião é o livro de Celso Furtado “Formação Econô­mica do Brasil”. Devo ter lido mais de dez vezes esse livro e, a cada releitura, passa-se a ter visões diferentes. Eu o considero um livro pragmático. Celso Furtado foi um economista que soube enxergar ações que superavam as questões ideológicas — se é estruturalista ou neoclássico, ou seja, noções razoáveis para determinada época. Essa é a grande virtude de Furtado: ele não se preocupou com o estruturalismo ou neoclassicismo, é um economista pragmático.
Euler de França Belém — Hoje no Brasil tem algum economista de destaque?
Hoje não há um nome central no país. Teve uma época em que o Brasil virou um grande laboratório de experimentos econômicos, a maioria dos quais deu errado. Por isso, os economistas passaram a ser olhados com certo cisma pela população. Só algum tempo depois foi que o Plano Real conseguiu reaver a credibilidade da classe.
Euler de França Belém — E por que o Plano Real deu certo?
Porque teve sucesso no combate à inflação. Acredito que tenha sido esse o grande motivo para o êxito do real. Na época do Plano Cru­za­do o País tinha salário, câmbio e va­lor da moeda indexados. Além dis­so, existia uma inércia inflacionária, ou seja, a inflação do mês passado garantia a inflação do próximo mês. Nessa situação, o governo identificou corretamente o problema da inflação e rompeu com essa inércia e com a indexação dos três aspectos já citados. Só que o “pós-operatório” foi horrível. O congelamento dos preços desequilibra os preços defasados e os ajustados. O grande erro do Plano Cruzado foi engessar a economia. Já o Plano Real foi o inverso: ao invés de desindexar a economia ele indexou totalmente. E justamente por captar todas as oscilações, passou a conter o componente inflacionário e, ao lado disso, veio a austeridade fiscal. O real foi adiante, pensou no “ato cirúrgico” e o “pós-operatório”, mantendo a unidade das medidas.

Fonte: Jornal Opção