1 de setembro de 2013

305 médicos estrangeiros em Goiás


Profissionais, que fizeram revalidação do diploma, são de outros países ou se formaram no exterior

A chegada dos estrangeiros que irão atuar no programa Mais Médicos, do governo federal, e o início do treinamento, na semana passada, acaloraram ainda mais a polêmica envolvendo a vinda de tais profissionais para o País. Uma manifestação em Fortaleza, na segunda-feira, quando médicos da capital cearense hostilizaram colegas estrangeiros, principalmente cubanos, na Escola de Saúde Pública do Ceará, deu uma demonstração da animosidade envolvendo o assunto.

A presença de médicos - brasileiros ou estrangeiros- formados no exterior, no entanto, não é novidade, apesar da recente polêmica acerca da vinda de cubanos para trabalhar no país. O Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) tem registros desde 1972 de profissionais que revalidaram diplomas conquistados em cursos realizados no exterior. Atualmente, são 305 médicos diplomados em 22 países (veja quadro).

A resistência das entidades de classe médica tem sido maior contra os cubanos. Mas os naturais de Cuba não são a maioria dos “forasteiros” que revalidaram os diplomas no Brasil. Os bolivianos estão no topo da lista, com mais de quatro vezes o total de médicos formados em instituições cubanas registrados no Cremego.

REVALIDAÇÃO

De acordo com o presidente do Conselho Regional de Medicina em Goiás, o psiquiatra Salomão Rodrigues Filho, as entidades representantes da classe médica no Brasil não são contrárias à importação de médicos estrangeiros, mas exigem que estes profissionais apresentem documentos comprobatórios da formação na área e se submetam à prova de revalidação do diploma para atuarem no País. “Não há oposição à vinda de médicos estrangeiros”, afirma ele.

A cobrança de critérios para os médicos, conforme ressalta Salomão, encontra respaldo na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de dezembro de 1996, segundo a qual qualquer profissional de nível superior precisa revalidar o seu diploma e registrar-se a um conselho de classe, para exercer sua profissão no País. Ele acredita que a divulgação de casos que põem médicos brasileiros contra os estrangeiros tem “interesse eleitoreiro e ideológico.”

Se não houver cobrança de critérios estabelecidos por lei, avalia o presidente do Cremego, aumentam ainda mais os riscos de pessoas atuarem na medicina sem a devida formação, como ocorreu na Venezuela, nos primeiros anos de governo do ex-presidente Hugo Chávez. Segundo ele, ao assumir o governo, o líder bolivariano demitiu os médicos do serviço público do país, para importar 25 mil profissionais cubanos e, depois, descobriu-se que mais da metade era formada por agentes de saúde.

ESTRUTURA

O presidente da entidade goiana insiste que não faltam médicos no Brasil. “Faltam estrutura, condições de trabalho, segurança e motivação para o médico se interiorizar”, pontua, para emendar: “Não adianta colocar o médico só com estetoscópio no pescoço. São necessários raio-x, laboratórios, medicamentos, equipamentos necessários para diagnóstico da doença e para prescrição do tratamento do paciente. Segundo ele, são 10.651 médicos no Estado, o que dá uma média de 1,76 profissionais para cada mil habitantes. Na capital, a proporção é de 5,42 médicos para cada mil habitantes.
Entrevista/ Sérgio Perini

“É uma prova que não mede nada”

Sérgio Perini ficou conhecido após dar seu depoimento ao site do médico Dráuzio Varella, no qual relata a experiência de exercer a medicina em Santa Maria das Barreiras, no interior do Pará. Formado em Cuba e com passagem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em São Simão, município goiano localizado a 363 quilômetros de Goiânia, ele defende a qualidade dos médicos cubanos.

Por que decidiu estudar em Cuba?
Eu era bancário há dez anos mas meu sonho era ser médico. Como eu não tinha como parar de trabalhar para entrar em um cursinho nem recursos para pagar uma faculdade particular, surgiu a ideia de ir à Cuba. Eu conhecia algumas pessoas que estudaram lá e sabia que a qualidade da medicina no País era muito boa. Procurei a embaixada de Cuba, me informei e fui. Fiquei lá de 1996 a 2002.

Como foi sua formação acadêmica em Cuba?
Fiquei em Cuba por 6 anos. Esse era o prazo para formar um clínico geral. Depois voltei ao Brasil. A partir do terceiro ano de faculdade já estava dentro do hospital. No quinto e sexto anos tive um aprendizado muito bom em ginecologia e obstetrícia. Acompanhei dez partos normais em um ano e fiz outros dez no ano seguinte.

Existe diferença na formação de médicos no Brasil e em Cuba?
A prática médica aqui deixa muito a desejar. Aqui há um certo medo em fazer parto normal, por exemplo. No Brasil, 85% dos partos são feitos com cesariana, porque é mais cômodo para o médico. Em Cuba esses procedimentos não passam de 10%. Lá também uma orientação de aproximar a relação entre médico e paciente. Os diagnósticos são majoritariamente feitos por interrogatório, sem o arsenal de exames que são pedidos aqui.

O sistema de saúde era diferente?
Nunca vi faltar vaga em unidade de terapia intensiva (UTI) nem paciente nos corredores de hospitais de lá. Eu vi pobreza, mas não miséria. O único ponto ruim era a falta de liberdade, mas isso afetava mais os cubanos.

Como o senhor avalia o exame para revalidação do diploma de Medicina?
É uma prova que não mede nada, é feita para reprovar. Eu fiz o exame quatro vezes até ser aprovado, porque a prova é de detalhes e não do dia a dia. As questões têm um nível de especialidade que não é apropriada a um recém-formado. Eu sou a favor de uma prova justa e que todos façam, inclusive os brasileiros, assim como ocorre na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Como é o trabalho no interior do Pará?
Aqui na minha cidade somos só eu e minha mulher de médicos. O prefeito tenta há mais de um ano contratar mais médicos, oferecendo R$ 15 mil por mês e não acha interessados.

No Tocantins, código de silêncio entre profissionais

Assim como aconteceu em 1997, quando o governo do Tocantins fez um convênio com Cuba para a contratação de 96 médicos, interrompido por uma decisão judicial em 2005, o Estado vizinho vive outra polêmica com chegada de médicos de outros países.

A reportagem procurou profissionais que foram para o Estado naquele ano. Mesmo habilitados pelo Conselho Regional de Medicina (CRM), eles preferem não se manifestar. Em uma espécie de código do silêncio, não querem falar nem se identificar, temendo possíveis represálias por parte de médicos brasileiros, da população e do próprio governo de Cuba, já que muitos ainda são considerados desertores. Apenas um que atua no interior aceitou falar sobre sua jornada no Estado, desde que seu nome fosse preservado.

O médico lembra que na época o governo cubano escolheu alguns profissionais que viriam para o País. “Fui muito bem recebido. Já trabalho para o Brasil há 14 anos e sempre fiz de tudo para somar com a saúde pública desse País”, diz, ainda conservando o sotaque da língua nativa. Ele é um dos que conseguiram revalidar o diploma e seu registro no CRM.

Atualmente, segundo o Conselho Regional de Medicina do Tocantins (CRM), 221 médicos estrangeiros atuam legalmente no Estado, inclusive cubanos. Um deles, o cirurgião geral Pedro Cuellar, de Cuba, tornou-se conselheiro do CRM. Ele também preferiu não fazer comentários sobre o assunto. A reportagem tentou falar com outros 13 médicos cubanos, mas foi informada que há um acordo entre eles para que ninguém se pronuncie no momento.

Em entrevista ao G1 Tocantins na semana passada, o médico cubano Ariel Diaz Garcia, de 45 anos, contou que veio para o Brasil junto com outros médicos para atuar no Programa Saúde da Família, que estava sendo introduzido naquela época. Garcia, que é naturalizado brasileiro, inscreveu-se no Mais Médicos e foi selecionado para trabalhar em Araguaína. Ele conseguiu revalidar o diploma na Justiça em 2006, mas teve o documento cassado em maio do ano passado. Ele fez a prova do Revalida no último domingo.

JUSTIÇA

Durante nove anos, o CRM tomou medidas judiciais para impedir a atuação dos médicos no estrangeiros no Tocantins, até que em 2005 o juiz federal Marcelo Albernaz concedeu liminar ao CRM determinando a proibição. Segundo a Secretaria de Saúde do Tocantins, na sentença, o juiz teria comparado a atuação dos profissionais estrangeiros a curandeirismo. A decisão teria irritado o ex-presidente cubano Fidel Castro, que mandou um avião para buscar 61 médicos do Estado. A reportagem tentou, sem sucesso, entrar em contato com o juiz.

Goianos se trataram em Cuba

Goiás exportou pacientes para tratamento em Cuba, em 1992, por meio de um convênio firmado entre os governos estadual e cubano. Os goianos atendidos pelo sistema de saúde de Cuba eram todos vítimas do acidente radioativo do césio 137. No total, 50 pessoas ficaram por dois meses realizando exames nos hospitais cubanos.

Foram 35 crianças e 15 adultos, um deles a atual presidente da Associação das Vítimas do Césio 137 (AVCésio), Sueli Lina Morais Silva. Ela conta que fez mais de 300 exames no período que esteve em Cuba. “Mas esses exames não foram bem aceitos pelos médicos brasileiros, quando retornamos”, lembra.
O convênio que possibilitou a ida dos goianos para Cuba foi assinado durante a realização da Conferência Eco - 92. As famílias ficaram hospedadas em casas na cidade de Marina Tarará. Cuba tinha experiência acumulada com o atendimento a crianças irradiadas no acidente radioativo na Usina Nuclear de Chernobil, na Ucrânia, em 1986.

Kardec Sebastião dos Santos, de 57 anos, foi com os quatro filhos para Cuba. Vítima do césio 137, ele considera “excelente” o tratamento recebido no exterior, apesar do seu quadro de saúde não ter melhorado significativamente após a temporada em solo cubano. “Eles atendem muito bem, são educados com a gente, interessados nos nossos problemas”, afirma.

Alunos cubanos são os mais aprovados

Brasília - Médicos formados em Cuba foram os mais aprovados no Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos (Revalida) em 2011 e 2012. Dos 65 que conseguiram revalidar o diploma em 2011, 13 estudaram na Escola Latino-Americana de Cuba (Elam), assim como 15 dos 77 aprovados em 2012. A escola oferece curso de Medicina para estudantes de 113 países, incluindo brasileiros saídos de movimentos populares.

A instituição, porém, recebe críticas de especialistas e conselhos de Medicina, pois seus profissionais têm de fazer um complemento na formação, uma espécie de residência, para atuar no sistema de saúde cubano.
Para o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), Cid Célio Jayme Carvalhaes, os médicos aprovados no Revalida têm o conhecimento necessário para exercer a profissão no Brasil. “Se foram aprovados no Revalida, têm o conhecimento mínimo exigido para atuar no Brasil Eles passaram, tiveram mérito”, disse.

Fonte: Jornal O Popular