12 de agosto de 2013

Poluição: Meia Ponte, meio ruim meio péssimo



Nem inauguração de estação de tratamento de esgoto, há 10 anos, conseguiu reduzir índices de degradação do rio que atravessa 37 cidades.

A promessa era de água translúcida, livre do mau cheiro e da poluição, disponível à pesca e ao banho. Passados quase dez anos da inauguração da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Dr. Hélio Seixo de Brito, no Setor Goiânia 2, na capital, esse quadro ainda não foi revertido. E não será tão cedo. Ainda com a estrutura incompleta, o tratamento dado pela Saneamento de Goiás S.A. (Saneago) tem eficiência de 61%. Isso significa que pouco mais da metade da matéria orgânica poluente é retirada do esgoto antes da água ser devolvida ao Rio Meia Ponte. Mesmo com o tratamento parcial, não houve melhoria na qualidade da água, porque a cidade cresceu e o despejo de esgoto aumentou.

Na época em que a estação ainda estava sendo erguida, representantes da Saneago e do governo estadual destacavam que a obra despoluiria o Rio Meia Ponte. O manancial, acrescentavam os gestores da estatal, teria de volta as espécies aquáticas, poderia ser navegável e readquiria condições de balneabilidade. Seria, antes de tudo, um rio para a contemplação e lazer dos goianienses.

“A função da ETE foi mal divulgada. Não deveriam misturar política com assunto tão sério”, afirma o gerente de Tratamento de Esgoto da Saneago, Fausto Batista Alves. Ele não ilude ninguém: “dificilmente o Rio Meia Ponte terá água transparente e apropriada para beber com as mãos. Tecnologia para isso existe, mas tem um custo elevado e é improvável que vamos chegar a um patamar desses”, afirma. Embora a promessa dos idealizadores do projeto - feito há mais de uma década - não tenha se concretizado, a ETE cumpre um papel importante. “Sem ela, a situação seria calamitosa. Trabalhamos com a capacidade máxima instalada hoje e cumprimos os parâmetros legais”, completa Fausto.

Levantamentos feitos anualmente pela Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh) mostram que os índices de poluição têm variado entre ruim e péssimo no trecho urbano de Goiânia. Os registros da Semarh foram feitos entre 2001 e 2012, em sete pontos diferentes do Meia Ponte. Destes, três estão localizados na área urbana da capital.

Em 2001, o índice da qualidade da água (IQA) aferido nos pontos do Meia Ponte localizados no Setor Goiânia 2 e na ponte sobre a GO-020 na saída para Bela Vista de Goiás, era considerado péssimo (veja quadro). Nos anos posteriores, os níveis mantiveram-se muito ruins, o que caracteriza a água como imprópria ao consumo humano.

O geógrafo Sílvio Braz de Souza, pesquisador do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás, acentua que tais parâmetros indicam que a água está poluída, com baixo teor de oxigênio e, não raro, com presença de algas.

Acordo prevê rede completa só em 2018

Antes de a Estação de Tratamento e Esgoto (ETE) Dr. Hélio Seixo de Brito entrar em atividade, em agosto de 2004, apenas 8% do esgoto da capital era tratado em três outras estações, localizadas nas imediações do Bairro Cruzeiro do Sul, Parque Atheneu e Conjunto Aruanã. A nova ETE, conforme expectativas dos responsáveis pela Saneago, foi edificada com o objetivo de tratar cerca de 70% do efluente da cidade.

Enquanto, juntas, as três estações pré-ETE tinham a vazão de 120 litros por segundo, a ETE trabalha com picos de vazão que ultrapassam os 2290 litros por segundo no horário de almoço, momento em que a população mais gera resíduos. Nas madrugadas, a vazão cai para cerca de 500 litros por segundo.

Orçada em R$ 60 milhões, a ETE foi construída por etapas e inaugurada em 24 de outubro de 2003, aniversário de Goiânia, pelo governador Marconi Perillo (PSDB), então no seu segundo mandato. Os recursos foram suficientes para edificar a estrutura de tratamento físico-químico dos dejetos e montar parte da rede coletora de esgoto. Mas a verba não deu para concluir o sistema de interceptores que levam os dejetos até a estação e nem a estrutura para tratamento biológico da matéria orgânica, feito em tanques nos quais bactérias depuram a água consumindo os resíduos poluentes. “Nós aumentamos muito a capacidade, mas ainda podemos ampliar mais o atendimento”, diz Fausto Batista Alves. Sem a rede de interceptores completa, o esgoto é despejado diretamente no córrego, que desemboca no rio levando os desejos sem tratamento. As obras que faltam para interligar a rede coletora são para atender sobretudo os bairros da Região Leste da capital.

Dois termos de ajustamento de conduta firmados com o Ministério Público do Estado de Goiás estabelecem prazos para conclusão da rede de esgoto de Goiânia. Um deles determina que as obras da ETE do Parque Atheneu precisam ser finalizadas até setembro de 2015. O sistema de tratamento biológico da estação Dr. Hélio Seixo de Brito tem prazo até agosto de 2018 para entrar em operação. De acordo com a Saneago, o investimento está estimado em R$ 346 milhões, provenientes Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Saneago, do Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID), do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e da Caixa Econômica Federal. A Saneago sustenta que a eficiência do tratamento de esgoto subirá para 91% quando as obras terminarem e o sistema estiver trabalhando a pleno vapor.

Período de seca complica ainda mais a situação

A diminuição do volume vazão do Rio Meia Ponte dificulta uma melhora significativa na qualidade da água.
O nível do manancial atingiu em outubro de 2010 o valor mais baixo em relação aos dez anos anteriores, conforme registro do Serviço Geológico do Brasil (CPRM).

A cota apresentada na ocasião foi de 139 centímetros, medida na Estação Montante Goiânia, localizada próximo à ponte da Avenida Marechal Rondom, no Setor Centro Oeste.
Na ocasião, a vazão do rio era 1.398 litros por segundo.

A última vez que o índice havia sido menor que o verificado foi em 1999, com 136 centímetros registrados.
“A diferença da amplitude da vazão de água da época da chuva para época da seca chega a 84%. O volume de água entre o inverno e verão cai pela metade. Mas a quantidade de efluentes é maior ou igual no período da estiagem”, explica o pesquisador Antônio Pasqualetto, do programa de mestrado em Desenvolvimento e Planejamento Territorial da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

DEMANDA MAIOR

Durante a seca, as pessoas precisam de mais água para se lavar objetos, limpar poeira, tomar banho, usar na descarga de vaso sanitário.
E os dejetos seguem para as estações de tratamento de esgoto ou vão direto para os mananciais.
“Enquanto isso, o volume de água está reduzido e surge aquele mau cheiro, que tende a continuar e aumentar”, afirma Pasqualetto.

Rio tem, ao menos, 20 pontos de lançamento clandestino de esgoto

Técnicos da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) identificaram 20 pontos de lançamentos clandestinos de esgoto em Goiânia. Destes, nove são feitos diretamente no Rio Meia Ponte. Outros sete caem em três afluentes do manancial, o Ribeirão Anicuns e os Córregos Gameleira e Palmito. Sem entrar na rede coletora, esses dejetos não são tratados pela Saneamento de Goiás S.A. (Saneago).

O gerente de Monitoramento Ambiental da Amma, Gabriel Tenáglia Carneiro, destaca que a fiscalização sistemática nesses 20 pontos é uma das prioridades do órgão. “Pretendemos descobrir de que maneira está ocorrendo o lançamento de efluentes nos cursos d´agua, se de forma clandestina ou por grandes empresas”, pontua.

O derramamento clandestino de esgoto, prossegue Carneiro, é feito do imóvel para o córrego ou do imóvel para a galeria pluvial. Na maioria das vezes, esta conduta delituosa é difícil de ser detectada. Carneiro adianta que pretende firmar parceria com técnicos da Universidade Federal de Goiás (UFG) para a intensificação do monitoramento e desenvolvimento de um projeto para a análise da qualidade da água nos mananciais da capital. “Temos indícios de que em todos os 20 pontos a água está contaminada, mas não podemos afirmar porque a água não é submetida à análise.”

Mesmo as empresas que cumprem a legislação - tratando os dejetos que produzem - oferecem riscos ao Rio Meia Ponte. Uma indústria chega a gerar esgoto com demanda química de oxigênio (DBO) acima de 1.500 miligramas por litro. Para cumprir a resolução 357 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), esse indicador da qualidade da água precisa ser reduzidos em 80% após o tratamento. Ao atender a lei, essa indústria ainda devolve ao manancial uma água com DBO de 300 miligramas por litro, exatamente a mesma demanda química de oxigênio do esgoto recebido pela Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Dr. Hélio Seixo de Brito antes de começar o trabalho de depuração.

DEJETOS

Além das indústrias, há lançamentos indevidos de dejetos por parte de indivíduos. Parte arremessada diretamente no rio e outra parcela despejada na rede de esgoto de forma inadequada. A ETE recebe uma série de dejetos inapropriados que encarecem e dificultam o processo de tratamento.

A estação deveria cuidar somente da água suja que entra pelos ralos de pias ou saem dos banheiros das casas. Mas na primeira etapa da depuração ficam retidos todo tipo de materiais sólidos. Na última sexta-feira, a reportagem esteve na ETE e verificou as grades das tubulações repletas de bisnagas de catchup, embalagens de creme dental, absorventes, preservativos, brinquedos, plástico e até madeira. Nada disso deveria ser descartado pelo vaso sanitário. Em junho, a ETE retirou mais de 40 toneladas de lixo das tubulações de esgoto. Na segunda etapa do processo de tratamento, foram retiradas 4 toneladas de areia, de acordo com o gerente de Tratamento de Esgoto da Saneago, Fausto Batista Alves.

DENÚNCIAS

A diretora de Licenciamento Ambiental da Amma, Célia Maria Mota, aponta a necessidade de ações incisivas voltadas à educação ambiental, capazes de informar e ao mesmo tempo conscientizar a população sobre a necessidade e importância da preservação dos recursos hídricos. Ela acentua que a Amma faz o monitoramento das indústrias com o intuito de inibir o lançamento de efluentes.

Degradação avança dentro de Goiânia

Um manancial de múltiplas faces. Assim pode ser definido o Rio Meia Ponte. Com 415 quilômetros de extensão, o Meia Ponte nasce em Itauçu e deságua no Rio Paranaíba, no município de Cachoeira Dourada. Em 2006, foram descobertas outras quatro nascentes do curso d´água, todas localizadas em Taquaral. Em seu longo percurso, o rio passa por 37 municípios, incluindo Goiânia.

A série histórica com os índices de qualidade da água (IQA), aferidos por técnicos da Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh) em sete pontos, entre 2001 e 2012, mostra as diferentes nuances ao longo do rio. Nos primeiros quilômetros e nas proximidades da foz, na divisa de Goiás e Minas Gerais, o Meia Ponte manifesta-se com águas claras, límpidas e com muitas espécies. Ao passar pela capital, se apresenta com água turva, fétida, poluída, sem vida.

O IQA verificado nas imediações da nascente, na Fazenda Mato do Dentro, em Itauçu, oscila na maioria dos anos em torno de 60, índice classificado como bom. De acordo com o geógrafo Sílvio Braz de Sousa, pesquisador do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás, no nível bom a água começa a passar por um processo de degradação ambiental, mas ainda é limpa. Ela pode ser usada em atividades urbanas e rurais, entre as quais a agricultura. Porém, não é recomendada para consumo humano.

No segundo ponto do Meia Ponte monitorado pelas equipes da Semarh, na Fazenda São Domingos, na capital, um dos locais em que é feita a captação pela Saneamento de Goiás S.A (Saneago), o IQA também é classificado como bom. A gerente da Qualidade de Produtos da Saneago, Maura Francisco da Silva, informa que o ponto de captação localiza-se estrategicamente alguns quilômetros antes do adensamento urbano.

Na medida em que o Rio Meia Ponte passa por dentro da capital, o IQA diminui. Pouco a pouco, a água límpida nas proximidades das nascentes torna-se escurecida, opaca. Sílvio Braz de Sousa informa que a degradação do rio está proporcionalmente relacionada ao processo desenfreado de ocupação urbana. Goiânia cresceu 205 quilômetros quadrados nos últimos 27 anos.

“O fenômeno da urbanização causa impacto sem precedentes nos recursos hídricos”, pontua o geógrafo. Ele cita como fatores que levaram á degradação acelerada do Rio Meia Ponte a retirada da cobertura vegetal na cidade; a implantação das vias pavimentadas que alteram o escoamento natural da água, causam erosão e assoreamento; a ocupação de famílias em áreas de preservação ambiental e, principalmente, o lançamento indevido de esgoto doméstico e industrial.

Ao cair em cursos de água, o efluente alimenta bactérias que, por sua vez, aceleram o processo de demanda biológica de oxigênio, a acidez da água e a mortandade da fauna. Ele enfatiza que a poluição do rio priva a população do direito de desfrutá-lo, contribuindo para a segregação social. Além disso, gera o ambiente insalubre.

Saneago garante que água é potável

A gerente da Qualidade de Produtos da Saneago, Maura Francisca da Silva, garante que a água servida pela Saneago à população da região metropolitana da capital é potável. Ela explica que em Goiânia a estatal faz a captação em um ponto do manancial onde a qualidade da água é classificada como boa. Este ponto, explica a gerente, é localizado na Fazenda São Domingos, antes de o curso d´água chegar à capital e sofrer as intervenções e reflexos do adensamento urbano.

A Saneago também faz a coleta da água para o abastecimento urbano de Goiânia em um ponto do Ribeirão João Leite, quando o manancial passa pelo Setor Santa Genoveva. Neste local, a aferição feita pelos técnicos da Semarh revela que o índice de qualidade da água é 48,4, apontado como aceitável.

Maura Francisca assinala que a água que abastece Goiânia passa por um rígido tratamento antes de cair nas torneiras das casas e imóveis comerciais e industriais. Tal tratamento, assinala, contempla as etapas de coagulação, floculação, decantação e filtração. Além disso, são adicionados à água cloro e ácido flúor silícico para prevenção à cárie dentária. “Após estas etapas, a água atende aos parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde, quanto à potabilidade da água.”

Fonte: Jornal O Popular