23 de junho de 2013

Protestos: os motivos são muitos

O Brasil está empolgado com o momento que vive, vendo centenas de milhares de pessoas protestando. Porém, enquanto uns gostam, outros se assustam — sobretudo os políticos
José Cruz/ABr
Marcos Nunes Carreiro
Uma criança pergunta: “mãe, o que Brasil está vivendo é como uma nova Revolução Fran­cesa?”, ao que recebe a resposta “sim, é algo parecido.” “Então, vamos cortar a cabeça da Dilma?” Dadas as proporções cognitivas, é essa a visão que uma criança tem quando lê que mais de 1 milhão de pessoas que saiu às ruas somente na quinta-feira, 21, para protestar contra o aumento da passagem de ônibus, corrupção, gasto excessivo de dinheiro público com eventos como a Copa do Mundo, etc.

O que uma criança não questiona são os motivos. E eles são muitos, pois esse grande movimento que atingiu muitas cidades brasileiras, principalmente as capitais, é espontâneo, ou seja, não tem bandeira, pelo menos por enquanto. Mas ela é capaz de perceber que o país vive uma crise, que por sua vez tem gerado “perplexidade no mundo devido aos repentinos protestos que surgiram no Brasil e levaram o povo para a rua”, como afirma o diário espanhol “El País”. E essa crise foi organizada por meio das redes sociais, sobretudo o Facebook, com o objetivo de exteriorizar a insatisfação do povo.

O fato é que as manifestações estão criando um “alarme especial”, pois nem sequer em resposta aos grandes escândalos de corrupção política vividos no Brasil nos últimos anos (mensalão, CPIs, central de grampos, caso Cachoeira, etc.), o povo havia saído às ruas. Muitos especialistas pontuam que o acesso à informação é que permite às pessoas se movimentarem mais rápido e com mais força, mas foi o excesso de más notícias que despejou o povo na rua.

Há mais de 20 anos a população brasileira não via algo do tipo, pois desde o impeachment de Fernando Collor, em 1992, os ânimos haviam se estabilizado e o povo parado. Normal, pois essas manifestações populares são um fenômeno cíclico que surgem em momentos de tensão social. Cada geração instiga seu momento de catarse. Foram as “Diretas Já” em 1984, os ‘Cara-Pintadas’ em 1992, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 e agora a chamada “Revolta dos 20 centavos”.

Até o discurso é cíclico: “o Brasil acordou”, “devolve o meu dinheiro ou paramos o país”, “vamos formatar o Brasil”, etc. E é esse momento que o país vive: o rebuliço, a balbúrdia. Mas depois da onda de entusiasmo, tudo volta mais ou menos ao que era antes. É um processo lento e gradual de amadurecimento das instituições democráticas, sempre dando dois passos adiante e um passo para trás, como explica o professor e historiador Ademir Luiz. “Acre­dito que seja bom que essas ondas de entusiasmo cívico existam. Elas ajudam a sociedade a não se fossilizar”, diz.

Mas o mais interessante nessa onde de protestos atualmente é que, por ser espontânea, não existe um tema em comum, ou como dito acima, uma bandeira. O que vemos é a aglomeração de uma série de pequenos e médios grupos que se juntaram às manifestações contra o aumento das passagens de ônibus. Além disso, é importante lembrar que se trata de uma rede bem articulada, com representantes em praticamente todo o Brasil. Mas, apesar disso, não é um fenômeno brasileiro. Recentemente, surgiram movimentos parecidos na Europa e nos Estados Unidos, onde ocorreu o Occupy Wall Strett, que chamou atenção do mundo todo. Na Argentina, manifestações assim são corriqueiras.

Entretanto, segundo Ademir Luiz, em todos esses casos, a transformação desses movimentos em fenômenos populares foi motivada pelo poder mobilizador das redes sociais. “Não por acaso, quem está protagonizando as ações são membros da geração X e Y. Trata-se de um fenômeno da internet. E já está sendo cooptado pela grande mídia. Diversas celebridades estão aparecendo nas manifestações e mesmo a execrada Rede Globo está dando close em cartazes de protesto durante os jogos da Copa das Confederações”, analisa.
A surpresa de todos

Desde a redemocratização do Brasil, as pessoas perderam a referência de como se manifestar. Isso acontece porque passamos a viver em uma democracia. Por isso, as pessoas pensavam que não adiantava reclamar. Mas com o movimento atual da sociedade que sai às ruas, a sociedade começou a entender que se manifestar é possível. A lei da ficha limpa é um exemplo disso. Foram 1 milhão e 600 mil assinaturas.

E nem com as instituições democráticas aparentemente funcionando bem, o povo não se permite mais a acreditar que o país possa evoluir. Essa situação é consequência de um grande mal estar gerado pela má administração do Estado, como explica o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Goiás (OAB-GO) Henrique Tibúrcio. “Nossas instituições democráticas estão funcionando muito bem. Temos o Ministério Público [MP] atuante e órgãos civis que tem voz. Mesmo assim, a manifestação acaba tendo o sentido de exteriorizar uma grande insatisfação e deixa o recado claro de que os governos não podem fazer as coisas sem ouvir as pessoas, uma vez que o bem estar da população é o objetivo do Estado”, diz.

Mas o Estado não consegue mais se manter, nem administrar satisfatoriamente os recursos públicos. E grande carga de informações, como foi dito no início da reportagem, deixa o povo exacerbado. “Fora isso, temos a questão da efervescência, o sentimento de liberdade que faz o movimento crescer. Aí é quando vários setores da sociedade aderem às manifestações”, afirma o professor de Ciências Sociais Nildo Viana.
E mesmo sendo um movimento cíclico, o fato é que o brasileiro está, realmente, pouco acostumado a reivindicar o quer que seja, sobretudo quando o assunto é política. E com essa surpresa veio o medo, em grande parte causado pela mídia. Medo da população que não entende o movimento e medo dos políticos, afinal são eles os principais alvos dos protestos, o que é normal, pois todo cenário não previsto é motivo de alarme para os políticos em geral e representantes da ordem pública em particular.

E, nesse caso, há um agravante: os protestos acontecem durante a Copa das Confederações, um evento de destaque internacional. Por isso, os governantes fazem concessões proselitistas e temporárias, como forma de tentar minimizar o impacto desses movimentos. Vide o recuo no aumento das passagens do transporte público em todo o Brasil.

Além disso, como explica o professor Ademir Luiz, é fato comprovado em estatísticas que o brasileiro médio é conservador e teme mudanças bruscas. “A maioria dos participantes dos protestos é composta por membros da classe média letrada. Como muitos são professores ou figuras com relevo social acabam cooptando membros das classes populares por adesão”, diz.
O movimento é revolucionário ou ele pode vir a se tornar uma revolução?
Foi a pergunta feita ao doutor em História e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) Ademir Luiz. Porém, segundo ele, não há uma revolução, pois falta foco. Acompanhe a resposta:

“No livro ‘O fim da utopia’, Russell Jacoby mostrou que com a crise da grande utopia (o comunismo) o que restou foi sua fragmentação em demandas de grupos, que podem ou não se apoiar mutualmente, mas que não são uma causa única. Movimento Negro, Movimento Gay, Feministas, ambientalistas, etc. Vemos isso ocorrendo no Brasil. O pessoal do Movimento do Passe Livre salienta que o centro do problema são mesmo os 20 centavos no aumento da tarifa. Ao mesmo tempo, outros grupos defendem que ‘não é apenas isso’. Alguns fazem protestos vagos contra a corrupção. Outros protestam atrasados contra os gastos com a copa. Uns pedem a queda da presidente Dilma. Outros protestam contra quem protesta contra a Dilma. Uns querem partidarizar as ações, outros são contra bandeiras politicas. Essa falta de foco aproxima esses movimentos das reflexões de Ortega & Gasset sobre o que chamou de ‘Homem Massa’, aquele que se sente bem em ser idêntico aos demais indivíduos. Nesse caso, o valor social que deve ser reproduzido é o da indignação e o sentimento de conscientização. Isso gera o que Ortega & Gasset chamou de ‘hiperdemocraia’, no qual as massas impõem seu gosto médio, esmagando quem pensa diferente ou relativiza a questão. É característica da ‘hiperdemocracia’ que as massas tentem fazer justiça por seus próprios meios. O que explica não só o linchamento moral e o patrulhamento ideológico dos críticos das manifestações quanto seus episódios de depredação material. Como é natural, os intelectuais mais à esquerda, que são maioria no Brasil, adotaram a causa de modo entusiasmado. Desde a época da abolição, passando pela guerrilha contra o regime militar, nossos intelectuais sempre tiveram fascínio pela atuação apaixonada dos jovens. O desejo é uma reprodução do maio de 68.”
“O Brasil vive um grande mal-estar que precisa acabar”
Nascido na Bélgica, o professor de Direito Internacional na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) Jean-Marie Lambert participou de grandes momentos revolucionários vividos pelo mundo no século XX. O primeiro foi o movimento revolucionário surgido na França conhecido por “Maio de 68”, tão comentado e considerado por muitos o acontecimento revolucionário mais importante daquele século, pois mudou o rumo político da França. Depois disso, já no Brasil, Lambert esteve entre os milhares das “Diretas Já”.

Mas em entrevista ao Jornal Opção, o professor fala em tom de desabafo a respeito dos protestos que vem tomando as ruas do Brasil nas últimas semanas. As notícias que correram o país com milhares de pessoas protestando para a diminuição da passagem de ônibus deixou os políticos e muitas pessoas sem entender o que estava acontecendo. A imprensa internacional, por exemplo, chegou a escrever textos tentando explicar o “fenômeno” brasileiro.

Em um primeiro texto o espanhol “El País”, por exemplo, chegou a publicar: “Brasil, pouco acostumado a protestar nas ruas, desta vez, tem se levantado nas principais cidades do país contra o aumento das passagens do transporte público. Em São Paulo, pelo terceiro dia consecutivo, os manifestantes enfrentaram a polícia e queimaram ônibus.” Em outra matéria, o mesmo jornal pergunta: “Por que e agora, Brasil?”. E, realmente, há relevância e surpresa quando vemos milhares de pessoas saindo às ruas pelas principais cidades do país a protestar.

Mas, para Lambert, não há surpresa alguma no que está acontecendo. Ele diz que enxerga os protestos e suas motivações de forma bastante clara, pois faz tempo que algumas coisas o incomodam. Ele diz que ao ver milhares de pessoas se despejando espontaneamente nas ruas é sinal de que há um grande mal-estar, logo, não é estranho ver o que está acontecendo. “Realmente achei que isso fosse estourar mais cedo, pois estamos sendo governados por um bando de canalhas que estão rindo da gente. E se eu tivesse uns 40 anos a menos com certeza estaria na rua com bandeiras e cartazes”, declara.

Mas como já não se acha mais na idade de protestar novamente e exteriorizar sua insatisfação, o professor estuda a possibilidade de deixar o país. “Na verdade, eu e minha esposa, que já cumprimos nossa missão de criar a família, estamos nos organizando para deixar o país, possivelmente para a República Dominicana, justamente porque há alguns anos estamos incomodados com aquilo que vivenciamos no Brasil, especialmente do ponto de vista moral.”

Contudo, Lambert vibra com as manifestações, pois elas demonstram um claro momento de evolução na consciência do país. Ele diz, sorrindo, que o Brasil vive um momento em que a democracia está amadurecendo e que se não houver protestos, o povo viverá sempre atrás do biombo de uma democracia sendo governado por uma “máfia”. “Ainda não há uma reivindicação única porque não houve tempo para que ela fosse estruturada. O movimento é espontâneo e o discurso está sendo construído. Mas digo que vivemos uma evolução, pois os manifestantes não estão pedindo uma mudança de sistema, mas a moralização do atual”, relata o professor.
O Brasil precisa agora é da direita, pois a esquerda não sabe o que faz
Esquerdista declarado, Jean-Marie Lambert diz que os protestos demonstram um mal-estar social que foi gerado ao longo da história do Brasil. Um histórico de corrupção e ineficiência administrativa que vêm desde o início do neocolonialismo. Porém, o professor afirma que no momento atual o PT é um grande responsável pelo sentimento de insatisfação do povo. Segundo ele, o PT subiu ao poder há pouco mais de dez anos e transformou o Brasil em uma ditadura fiscal, onde se tira de quem produz para dar a quem nada faz.

“E isso é feito por razões eleitorais. Antigamente, o trabalhador era explorado por uma máfia política e empresarial e o PT acrescentou mais uma, que é a máfia social. Essa política é cara e pesa no custo de vida. O preço da passagem aumenta porque o governo tem que tirar de algum lugar as cestas básicas que dá para as pessoas que não produzem nada. Por exemplo, há alguns anos, eu e um grupo de colegas íamos aos assentamentos do Movimento dos Sem-Terra prestar assessoria jurídica. Sei o que vi lá e duvido que alguém mostre um desses assentamentos que seja produtivo. Se o governo não der o alimento, essas pessoas morrem de fome”, analisa.

Para ele, o PT fez tudo ao contrário daquilo que havia anunciado. “Ao invés de transformar o brasileiro em cidadão, fez com que ele fosse apenas um mero consumidor. Encheu o país de carros, mas quando se trata de hospitais e escolas, continuamos pagando caro.” Assim, vive-se em um país onde todos precisam de uma renda extra. “Eu, por exemplo, não saberia viver apenas com meu salário de professor. É preciso plano de saúde, aposentadoria extra e nós não temos segurança. Então, para o que serve esse Estado? Não entendo.”
Alto custo de vida

Continuando sua análise sobre o custo de vida do brasileiro, Jean-Marie Lambert faz um comparativo com a situação que presenciou nos Estados Unidos e na Europa. “Estive nos Estados Unidos no ano passado. Fiquei em solo americano durante três semanas e comparei: o custo de vida é menor que no Brasil. A máquina brasileira não funciona. A única coisa que funciona aqui é a Fazenda. O sistema tributário brasileiro é o mais perfeito do mundo, onde ninguém consegue passar nas malhas.

Revolução conservadora

Segundo o professor, o movimento das ruas dá sinais de que partirá para uma revolução conservadora, isto é, as manifestações podem se voltar para o resgate de valores mais tradicionais. Lambert diz que o Brasil “esculhambou” até a própria noção de esquerda. “Eu comecei minha formação política em maio de 1968 em Paris. E participei de todos os movimentos revolucionários desde então. Eu estava no Brasil durante as ‘Diretas Já’ e sei o que é um ideal de esquerda. Sei o que é um Partido dos Trabalhadores, e é exatamente o contrário do esquema montado pelo PT para sugar de quem trabalha e dar a quem não produz. Antigamente se distribuíam botinas para que as pessoas votassem. Agora, apenas institucionalizaram a situação com todas essas bolsas dadas pelo governo”, desabafa.
Fonte: Jornal Opção