3 de junho de 2013

Governo paga R$ 4 milhões em shows para prefeituras em um mês


Uma tradição nupcial consolida maio como o mês das noivas, mas para o calendário da Agência Goiana de Turismo (Goiás Turismo), as exposições agropecuárias é que são sobressalentes. Em sete publicações do Diário Oficial (DO) do Estado – dos dias 6, 7, 9, 15, 16, 23 e 28 – constam autorizações para contratação de 32 artistas, duplas ou bandas que se revezaram em 51 apresentações em municípios do Estado (ver tabela). Os cachês, somados, avizinham-se à fronteira dos R$ 4 milhões. Pelo menos 19 atrações foram encomendadas para rodeios show e exposições agropecuárias, conforme esclarecido dos despachos da Goiás Turismo. Aniversário do município, festas regionais e datas comemorativas também entraram nas razões apresentadas para a compra dos shows pelo governo.

De Gian e Giovani (R$ 100 mil) a Leonardo (R$ 160 mil), 20 nomes tiveram custos de seis dígitos que representam quase 70% dos R$ 3.989.000 gastos. Por três shows, em Anápolis, Hidrolândia e Minaçu, a dupla João Neto e Frederico recebeu R$ 450 mil reais, o maior montante destinado a um contratado nessa temporada de rodeios. As informações publicadas no DO, inclusive, informam que as apresentações de Anápolis e Hidrolândia ocorreram no mesmo dia: 1º de maio.

Hipoteticamente, se o cachê mais baixo – o pago à cantora goianiense Grace Carvalho – respondesse pelos valores dos outros 50, em vez de R$ 4 milhões, a dívida a pagar pelos cofres públicos gravitaria abaixo de 10% disso.

Barganha

Aparecido Sparapani explica que “a Goiás Turismo”, agência da qual é presidente, “é demandada pelo prefeito ou deputado” para a oferta de shows. ”O prefeito faz uma solicitação via deputado ou via governador de algum recurso para suprir um evento (no município)”. Não obstante a filtragem política declarada, Sparapani (PTB) nega acreditar que os prefeitos da base do governador tenham privilégios sobre os da oposição. “Nós levamos em consideração a importância do evento para aquele município”, diz. E para sustentar a postura equânime, defende os muitos eventos que foram e serão feitos na cidade de Goiás.

Mas espere um pouco: a cidade de Goiás, qualquer que seja a sigla de seu governante, está longe de ser crivada por ligações partidárias; a antiga capital do Estado é escudada pelo título internacional de Patrimônio da Humanidade e por todos os desdobramentos históricos que fazem-na conhecida e prestigiada. Ademais, FICA e fogaréu são meninas dos olhos do governo goiano e têm repercussão até planetária.

Coincidência ou não, cidades administradas por prefeitos da base do governo marcaram o dobro de presença no DO (durante o período analisado pela reportagem) em relação aos ínfimos nove municípios comandados por partido de oposição – considerando que a beneficiária Aparecida de Goiânia, cujo peemedebista Maguito Vilela desfruta de urbanidade com o governador, é igualmente estratégica para o Estado, à moda da cidade de Goiás.

Embora o PMDB seja líder pela conquista de 12 apresentações patrocinadas pela Goiás Turismo, mais da metade delas endereçaram-se à 5ª Aparecida é Show. Prefeitos pelo PSDB, PSD e DEM, em específico, tiveram 21 dos 51 shows, cuja partilha, no geral, foi vantajosa para aliados: 35 versus 16.

Viabilidade

O pedido de cada município é avaliado, segundo o presidente da Goiás Turismo. “Ele passa por um departamento onde analisa a viabilidade daquele evento, qual a atração de público, o que pode gerar de emprego temporário e receita para o município.” Conforme Sparapani, o primeiro crivo, porém, cabe às secretarias da Fazenda e de Planejamento, “para ver a possibilidade de ajudar com aquele recurso, se na totalidade ou se em parte”.

Os municípios contemplados com shows custeados pelo Estado não podem cobrar ingresso ou, se recolhem bilheteria, precisam prestar conta de forma a assegurar que a renda arrecada é revertida em manutenção da estrutura do próprio evento.

Fonte: Jornal O Hoje