23 de junho de 2013

Agropecuária coloca Cerrado em alerta


Especialista apresenta estudos que dizem que, se não cumprir metas de preservação, bioma poderá deixar de existir em menos.

No cenário atual brasileiro, principalmente no Centro-Oeste, as áreas de vegetação natural têm dado lugar às pastagens e às monoculturas. Aqui, onde está o coração do Cerrado, o aumento da produção de soja, por exemplo, é sinal de progresso. No entanto, em meio ao destaque econômico que isso proporciona, as espécies e a vegetação do Cerrado correm cada vez mais risco de desaparecerem.

Signatário da Convenção de Diversidade Biológica, o Brasil assumiu o compromisso de preservar 17% dos ecossistemas terrestres e 10% dos ecossistemas marinhos até 2020. O compromisso foi assumido durante a discussão sobre a Meta Global da Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas (COP 10/CDB) de Aichi, em Nagoya, firmado em 2011.

Realizando estudos na área, o professor do Laboratório de Biogeografia da Conservação da Universidade Federal de Goiás (UFG) Rafael Loyola afirma que a situação de preservação hoje é crítica no Cerrado. “A situação é ruim, mas não podemos desistir por isso. Devemos trabalhar para reverter esse quadro.”

O professor afirma que cumprir a meta de preservação assumida pelo Brasil está mais fácil nos ecossistemas terrestres do que nos ambientes marinhos. No Cerrado, a preservação já começou. De acordo com o professor, a universidade está contribuindo para apontar quais são as áreas prioritárias de preservação.

No entanto, o trabalho esbarra em uma dificuldade encontrada pelos estudiosos. Rafael explica que as mudanças climáticas constantes podem fazer uma área que hoje é apropriada para as espécies deixar de ser daqui a 50 anos. Por isso, o País deve se dedicar às Unidades de Conservação (UCs), para criar e monitorar áreas em que os ambientes sejam adequados para a manutenção das espécies que vivem na região.

Os estudos levantaram os impactos das mudanças climáticas para diferentes espécies de anfíbios e mamíferos do Cerrado e da Mata Atlântica e foram realizados em conjunto com o professor Ricardo Machado, da Universidade de Brasília (UnB).

A equipe de Rafael também investigou quais são as áreas mais críticas do Cerrado, onde não devem ser implantadas as UC’s. Segundo o levantamento, as regiões sul e sudoeste da área de abrangência do Cerrado possuem boas condições de sobrevivência para as espécies. Mas, por causa do avanço das monoculturas e das pastagens, o Cerrado deve deixar de existir na região até 2080.

Os estudos apontam que a região norte da área de abrangência do bioma deve conservar as características primárias do ecossistema. Essa área inclui a região norte de Goiás e algumas áreas no Piauí e no Maranhão.

Rafael ressalta que é importante pensar em regiões que tenham mais hábitat natural e condições favoráveis para as espécies ameaçadas. “Temos três categorias para definir espécies ameaçadas: vulneráveis, que há risco de desaparecimento, mas não é um risco iminente; em perigo, que são as espécies que estão em situação mais crítica, mas que com algumas políticas podem não desaparecer em dez anos; e em perigo crítico, que são as espécies que correm risco de desaparecerem em cinco anos.”

Para o professor, é importante que o Brasil reavalie a legislação, incluindo a lei de uso do solo, para que seja mais clara e aplicada de forma a beneficiar o meio ambiente. Segundo ele, o Código Florestal, por exemplo, da forma como foi aprovado, não é favorável ao meio ambiente. “O governo deve se preocupar também em criar cada vez mais áreas de proteção às espécies e aos biomas.’, conclui.

Fonte: Jornal O Hoje