29 de maio de 2013

Manifestação contra o aumento da passagem não é terrorismo: é democracia


Dizem que o direito de alguém termina quando começa o do outro. Mas o que fazer quando todo o direito à cidadania já foi desrespeitado?

É interessante: o povo brasileiro — e talvez o goiano em maior grau — é geralmente extremamente pacato. Compare nosso comportamento como cidadão em relação a alguns de nossos vizinhos. Os argentinos fazem panelaços e os chilenos se rebelam, por exemplo, quase que em ato de rotina quando sentem seus direitos ameaçados.

No Brasil, não. A população precisa ser espezinhada até o último grau para esboçar alguma reação. E às vezes, mesmo humilhada em intensidade máxima, não reage. Passivas, as pessoas veem seus parentes morrerem por falta de UTI ou por excesso de poder do tráfico. São vítimas cotidianas da falta de políticas públicas para a saúde e para a segurança.

Aí, de repente, um aumento do valor da passagem do ridículo transporte coletivo da região metropolitana de Goiânia causa protestos bem acima da média do que normalmente ocorre. Estudantes e usuários de ônibus ocupam as praças, depredam veículos e terminais e vão para o enfrentamento com a polícia.

Dizem que isso é radicalizar, o que não é nenhuma inverdade. Dizem que o direito de alguém termina quando começa o do outro, também algo a se levar em consideração. Mas o que fazer quando todo o direito à cidadania já foi desrespeitado? Onde está o direito ao mínimo de conforto nos ônibus, a receber um serviço com horários a serem cumpridos, a ganhar o tratamento humanitário básico? Isso não é privilégio, é o dever de quem recebe tão bem para prestar serviços — tão bem a ponto de tudo serem regidos e protegidos por um contrato que obriga o Estado a conceder o aumento.

Quando se queima um ônibus em uma manifestação não há simplesmente um ato de depredação, como querem os mais simplistas: a medida extremada vai muito além do vandalismo para expressar que a população despreza e reage contra o serviço de má qualidade que lhe é oferecido a um preço proporcionalmente descabido. Ora, em Goiânia se paga 3 reais para esperar além da conta por um veículo em abrigos sem proteção contra a chuva ou em currais desumanizados: é o mesmo valor que o paulistano paga para pegar o metrô!

Chamar os estudantes de terroristas é ver somente a cena em si. Estão errados ao depredar, sim. Mas quem está certo, afinal? A polícia? As empresas de ônibus? O usuário passivo, que simplesmente acha ruim “ficar sem ônibus” por conta dos protestos? Ou a classe média que anda de carro próprio e se vê perturbada pelo caos no trânsito?

É o sistema, por inteiro, que está equivocado. O transporte público é alvo dos mais variados e gananciosos interesses. Quem pena, obviamente, é a população. Enquanto isso os empresários, políticos e os demais da casta de cima da sociedade continuam na zona de conforto, vendo os de baixo — estudantes, populares e militares — se digladiarem. Esperam apenas a poeira baixar para continuar a ganhar o dinheiro seguro que vem das concessões das linhas de ônibus.

Atos como o desta terça-feira, 28, na Praça da Bíblia, em Goiânia, fazem parte da democracia. A livre manifestação, porém, tem seus excessos de parte a parte. É o que se viu de estudantes e PMs: ambos os lados, porém, sabiam da consequência do que faziam. Mas, ainda assim, o que se viu é ironicamente mais legítimo do que aquilo que emana de algumas votações nos teatros da democracia chamados de Câmaras e Assembleias. Está aí a votação do Plano Diretor que não nos deixa dúvidas a esse respeito.

Fonte: Jornal Opção