20 de maio de 2013

A vitalidade das ideologias e a eleição de 2014 em Goiás


Um exame do quadro ideológico sugere que pelo menos dois pré-candidatos a governador de Goiás são de direita, Vanderlan Cardoso e Júnior do Friboi, mas têm apoio de setores da esquerda. O tucano Marconi Perillo, que não é de direita, não tem o apoio da esquerda ortodoxa
Graças à Editora Unesp, os leitores brasileiros podem ter acesso a um livro inteligente e questionador de Norberto Bobbio. “Direita e Esquerda — Razões e Significados de uma Distinção Política” incorpora, no final do volume, uma polêmica instigante entre o filósofo italiano e o historiador inglês Perry Anderson. No Brasil, sobretudo devido à debacle socialista de 1989 — que marcou o fim do século 20, segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm —, costuma-se dizer que as ideologias acabaram e, por isso, conceitos como direita e esquerda não são mais válidos. Há também o hábito de se afirmar que o PT, porque no governo se tornou realista e banca os principais grupos empresariais do país — os chamados “campeões”, como o grupo JBS Friboi e Eike Batista —, não é mais de esquerda, como se existisse tão-somente um modelo de “reds”. Na verdade, mesmo aderindo ao pragmatismo de que se está gerindo a economia de um país capitalista, o PT permanece de esquerda, uma esquerda que, apesar de eventuais arroubos autoritários, persiste moderada e nos marcos democráticos. O PT evoluiu — e para melhor —, sem deixar de ser de esquerda. Se há uma esquerda sólida, tanto no PT quanto no PSDB — a socialdemocracia é quando a esquerda movimenta-se e se estabelece no centro político, às vezes tornando-se hegemônica e eventualmente, como no caso brasileiro, conciliando com a direita —, não há, do ponto de vista do contraditório, uma direita articulada ou, como diria o filósofo italiano Antonio Gramsci, orgânica. Há políticos e intelectuais de direita, mas eles agem em geral de maneira isolada. Os intelectuais, como Luiz Felipe Pondé, Denis Rosenfield e Olavo de Carvalho, posicionam-se com firmeza, apresentam ideias críticas, mas não formam uma direita, um movimento, digamos assim. Já os políticos de direita sentem-se mais confortáveis quando se apresentam como de centro. Porque o centro político é difícil de ser rotulado e, assim, criticado e execrado. A direita, portanto, embora quase invisível, existe. Para sobreviver, num espectro político complicado — em que é apresentada como a última remanescente dos dinossauros —, a direita às vezes “esconde-se”. Porém, insistamos: existe. E é bom para a democracia que se tenha esquerda e direita sólidas — como assinala o sociólogo Russell Jacoby no esplêndido livro “O Fim da Utopia — Política e Cultura na Era da Apatia” (Editora Record).

Voltemos brevemente a Bobbio para, em seguida, discutir a questão da ideologia na política de Goiás. O pensador europeu nota que o conflito entre esquerda e direita permanece e que a ideia de transformação social — não mais a revolucionária e, daí, violenta, para não comprometer a democracia e, por isso, a ideia de uma sociedade, se não igualitária, menos injusta socialmente — é uma das discussões chaves do mundo moderno. Aqui, comentando Bobbio porém apropriando-se mais da ideia de Jacoby, sugerimos que a esquerda faz a direita avançar — digamos rumo ao campo do investimento social — e a direita faz a esquerda avançar, rumo a uma sociedade (mais) democrática. O que talvez tenham desaparecido são a esquerda revolucionária — que avaliava que, sem o comunismo, não haveria possibilidade de se construir uma sociedade mais justa — e a direita empedernida, que acreditava que os pobres seriam incorporados ao mercado sem a mínima intervenção do Estado. As velhas esquerda e direita foram derrotadas e, por isso, acreditamos que esquerda e direita foram, como os dinossauros, extintas. Não foram. Por quê? Porque a sociedade democrática é multifacetada e os interesses dos indivíduos não são iguais. A sociedade precisa da esquerda (Lula, Dilma Rousseff e Marilena Chaui) e da direita (Ronaldo Caiado e Olavo de Carvalho). O que faz o mundo avançar é o conflito entre os homens e as ideias. O consenso, que é quando se constrói e se (re)organiza a sociedade, advém primeiro do conflito, do choque dos contrários. O consenso antecipado, sem a mediação da contradição, leva à inação e, às vezes, a pactos sociais que incorporam tão-somente as elites — ignorando os indivíduos do andar de baixo.

No caso de Goiás fica-se com a impressão de que os signos, diria Octavio Paz, estão em rotação, ou melhor, confusos. Até há pouco, o Partido Socialista Brasileiro era presidido por José Batista Júnior. Júnior do Friboi, como o empresário é conhecido, é, ideologicamente, de direita. Ele defende a propriedade privada, é contrário à socialização dos meios de produção e é anticomunista. Não se sabe de nenhuma atividade social dele quando participava da gestão do grupo JBS Friboi — empresa brasileira que se tornou multinacional com o apoio do BNDES (dono de 31% de suas ações) e fatura 72 bilhões de reais por ano — e nem que defenda ideias avançadas no campo político e social (basta compará-lo a um Antônio Ermírio de Moraes ou a um João Paulo Lemann para notar sua relativa pequenez). Por que estava logo no PSB de Miguel Arraes, avô do presidente do partido, Eduardo Campos, governador de Pernambuco? Porque, no Brasil, o centro da vida política não é o partido, e sim o político. Daí que o partido pode ser socialista, mas quem o dirige não precisa. Friboi, embora seja de direita — e feroz defensor do capital(ismo) financeiro (tanto que a família Batista, além de indústrias, é dona de um banco), o mais visceral “adversário” da esquerda —, nunca chegou a ser apresentado como tal (ele próprio, aliás, não consegue se definir em termos ideológicos — falta-lhe formação cultural, ideológica e política para tanto). Porém, por motivos circunstanciais — o PSB não tem estrutura política para bancar um candidato a governador, isto na visão do marketing do empresário —, Friboi trocou o partido de esquerda por um partido de centro, o PMDB, que, a rigor, ainda é uma frente política, sem uma identidade profunda. Se, na ditadura, sua bandeira era a redemocratização, na democracia sua bandeira é manter-se no poder, seja com a direita (Sarney) ou com a esquerda (fernando-henriquismo e Lulopetismo).

O que se diz acima sustenta a tese de que as ideologias acabaram? Não. Significa outra coisa: que as ideologias, para uso da articulação, sobretudo nos períodos eleitorais, são “escondidas” ou “esmaecidas” pelos interesses de alguns políticos. Friboi, no PSB ou no PMDB, permanece na direita. Entretanto, como integra uma aliança que inclui a esquerda (o PT e o PC do B) e grupos de centro-direita (o PMDB, frise-se, é uma frente política), não pode assumir-se como direitista, que, no Brasil, é confundido com “reacionário”, “atrasado” e “autoritário” (quando a direita não é necessariamente autoritária e atrasada).

O empresário Vanderlan Cardoso — menos rico do que Friboi — fez o percurso inverso, como se estivessem trocando de times: migrou do PMDB para o PSB. Saiu de um partido de centro-direita para um partido de esquerda (sim, moderada e pragmática). Porém, ao filiar-se ao PSB, Vanderlan deixou de ser de direita? De modo algum. Vanderlan, mesmo no PSB, é um direitista civilizado, democrático e não autoritário. Não é à toa que seu principal aliado — Ronaldo Caiado — não é nenhum político de esquerda. O deputado federal do DEM é um direitista moderno, não conservador. É preciso acabar com a ideia de que chamar alguém de esquerdista e, sobretudo, direitista é uma ofensa.

Se apoiar Friboi para governador de Goiás, o PT não estará se aliando a uma besta fera da direita. Estará apoiando um político que é acionista de um grupo empresarial moderno e consolidado no mercado internacional. Trata-se de um direitista relativamente inculto mas empreendedor. Mas o PT terá de aceitar que seu aliado, se ele for mesmo candidato, é um lídimo representante da direita empresarial do país. O PSB também não deve sonegar a informação de que seu possível candidato a governador, Vanderlan, é outro digno representante da direita patropi.

O que dizer do ex-prefeito de Goiânia Iris Rezende e do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB)? Primeiro, e embora eles não gostem disso, pode-se dizer que, em termos estritamente políticos, são uma espécie de pai e filho. Marconi é um Iris renovado. Digamos assim: um Iris que viajou ao exterior e soube tomar um banho de modernização. Iris nunca se definiu ideologicamente, preferindo se apresentar como um político de centro — a vagueza ideológica permite arrebanhar votos nos espectros extremos, esquerda e direita, e em setores não permeáveis às ideologias —, mas, a rigor, aproxima-se mais da direita, a democrática e não-autoritária. Há quem questione, mas Iris certamente será apontado, no momento apropriado de se estabelecer o julgamento da história, como um modernizador, na linhagem de Mauro Borges — diferenciando-se mais no aspecto político, pois tem um quê de populista. Marconi, que não é esquerda, define-se como de centro-esquerda, ou, numa linguagem mais ampla, como socialdemocrata. Como Marconi ficará na história? Não se sabe com precisão, porque seu ciclo ainda não está concluído. Mas pode-se especular que se trata de um modernizador, na linhagem de Mauro Borges, Irapuan Costa Junior e Iris Rezende — é diferente dos políticos mais ideologizados como Henrique Santillo e Pedro Wilson, no campo da esquerda. Ou, no campo da direita modernizadora, de Irapuan Costa Junior.

A esquerda tem dois nomes consistentes, Paulo Garcia, prefeito de Goiânia, e Antônio Gomide, prefeito de Anápolis. Ambos são do PT e, de fato, são de esquerda. De uma esquerda moderna, arejada e moderada. Não pregam o comunismo, e sim uma sociedade mais igualitária, e apostam naquilo que chamam de desenvolvimento sustentável — sempre difícil numa economia capitalista, que, além de cobrar pressa, exige, cada vez mais, o sacrifício de imensos recursos naturais. Paulo Garcia teria o apoio de Iris Rezende, mas, como terá pouco tempo para mostrar serviço numa cidade que exige muito e onde a imprensa cobra mais, pode ser mais pragmático ficar na prefeitura. Antônio Gomide tem um quê do Marconi de 1998: é um político novo, sem desgastes comprometedores, é um gestor competente (Marconi não era gestor há 15 anos, mas tinha experiência política) e é sólido politicamente (obteve 90% dos votos válidos na eleição de 2012). Seu problema é que não tem grande capilaridade no Estado. Permanece como um político “de” Anápolis, mas, como dizem os marqueteiros, trata-se de um nome trabalhável. O principal problema de Paulo e Gomide é que o PT está mais interessado em reeleger a presidente Dilma Rousseff do que em apostar em candidatos ditos “não naturais” nos Estados. Em Goiás, pelo menos, o projeto do PT é, para atender à cúpula nacional, apoiar o candidato do PMDB ao governo do Estado. Quando o vice-presidente da República, Michel Temer, articula diretamente no Estado, tentando impor um candidato a governador, isto significa o quanto a eleição estadual está federalizada. O PMDB quer manter o poder nos Estados — já que no plano nacional aceitou ser a segunda voz. O PT, por seu turno, prefere manter o controle do governo federal — onde estão os recursos que garantem o controle econômico e político do país.

Considerando a possibilidade de que Marconi, Vanderlan e Friboi — este, o último colocado nas pesquisas que circulam nos bastidores (Iris lidera todas, com uma frente impressionante) — devem disputar o governo de Goiás, em 2014, o que dizer ideologicamente sobre eles? Primeiro, nenhum é de esquerda, mas o que mais se aproxima da esquerda é o tucano. Segundo, a direita, sólida, terá dois candidatos, Vanderlan e Friboi, representando partidos de centro-direita e de esquerda. Terceiro, Marconi, Vanderlan e Friboi não são conservadores e autoritários — são democratas. Os três são, digamos assim, progressistas — o que parece um paradoxo, mas não é.

Os eleitores terão dificuldade para distinguir as diferenças entre Marconi, Vanderlan e Friboi e por isso o marketing terá papel decisivo. O que eles vão propor de diferente? Não se sabe. O que vão propor como basilar é o seguinte: investimento maciço para fazer o Estado crescer ainda mais — ou seja, mais infraestrutura e atração de empresas — e investimento no campo social, com o objetivo de garantir desenvolvimento, ou seja, que os frutos do crescimento sejam absorvidos por todos.

Uma discussão nenhum candidato fará na campanha eleitoral, porque terão receio de perder voto: Goiás vai continuar pagando 70% de toda a sua arrecadação ao funcionalismo público? Aqueles que cobram concursos e mais concursos — e não uma redistribuição adequada dos servidores que estão na ativa — mal percebem que, indiretamente, contribuem para engessar o Estado, reduzindo sua capacidade de investimento e incentivando a busca de novos financiamentos, o que contribui para aumentar a dívida pública. A recuperação da capacidade de investir do Estado — sem o necessário endividamento — passa principalmente pela redução da folha de pagamento. Mas aí, como se trata de um assunto de amplo interesse público mas supostamente “não” político, nem a direita nem o centro vão discuti-lo na campanha.

As oposições certamente tentarão levar a discussão para o campo ético. Mas de perto, como disse um cantor brasileiro, ninguém é normal. Defeitos mínimos, se ampliados, viram escândalos. O discurso ético pode ser, na prática, o feitiço contra o feiticeiro. Já o discurso de que, se eleito, Marconi terá ficado, sozinho, 16 anos no poder talvez seja mais eficiente e, deste modo, mais complicado para o tucano responder (vale ressaltar que o eleitor às vezes observa mais o discurso do candidato, o que pretende fazer, do que sua crítica ao adversário). O tucano poderá dizer que defenderá a “modernização continuada”, ou seja, que seu projeto de governo continua mais avançado e, por isso, o Estado cresce mais do que a média do país. Ressalve-se que, em 1998, ganhou de Iris Rezende atacando exatamente a longa hegemonia do PMDB e do próprio Iris no poder. Em 2014, Marconi terá de mostrar ao eleitor que continua “novo” e que o Tempo Novo não repete o Tempo Velho e que não há nenhuma “panelinha”. Elaborar o marketing do “novo do novo” não será fácil. Mas aquele político que planeja substituir o que avalia que “envelheceu” precisa ter credibilidade suficiente para que a população decida escolhê-lo... como novo verdadeiro.   
Fonte: Jornal Opção