30 de abril de 2013

Promessas de campanha só agora começam a sair do papel


Administração estadual prometeu transformar Estado em imenso canteiro de obras, mas ainda não dá sinais de que poderá tornar isso realidade
Fernando Leite/Jornal Opção
Estrutura viária de Goiás é deficitária e requer ampla frente de serviços para conservação, restruturação e construção
Frederico Vitor
Centro de Convenções de Anápolis, segunda unidade do Hospital de Ur­gên­cias de Goiânia (Hugo 2), cinco Centros de Re­ferência e Excelência em Depen­dência Quí­mica (Credeqs), viadutos nas rodovias GO-060, 070 e 080 no perímetro urbano da capital, mais de 4 mil quilômetros de construção, reconstrução e duplicação de rodovias, conclusão do Centro de Excelência e dezenas de novos presídios. Estas são as prioridades do governo estadual ou, pelo menos, são as que estão na pauta de execução em caráter de urgência na Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop).
Verba não falta para que as obras saiam do papel. Somente nos itens do programa Rodovida, de construção, reconstrução e conservação de estradas estaduais, serão investidos mais de R$ 2,2 bilhões. Parte do aporte é oriundo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e de Desenvolvimento (BNDES). Marconi Perillo (PMDB) assumiu o governo em janeiro de 2011 prometendo fazer “o maior governo na vi­da dos goianos”. Durante a ferrenha disputa eleitoral com Iris Re­zen­de (PMDB), anunciou aquilo que, em seus dizeres, seria a mais espetacular administração da história, o que ocorreria por meio de crescimento econômico com realização de obras estruturantes de grande envergadura.
O crescimento econômico veio, de fato — mais por questões cujo mérito tem mais a ver com o empreendedorismo da iniciativa privada do que com ações do governo. Mas os desafios continuam, são grandes e o relógio está correndo. A sensação é de que até 2014, nem a metade do prometido será entregue ao contribuinte. O que se viu, até o momento, foi uma avalanche de desgastes e crises políticas que parecem ter eclipsado a gana do governo estadual em transformar Goiás em um imenso canteiro de obras. Parece inclusive faltar vontade, motivação, ao governador e à sua equipe.
Setor visto como prioridade por parte das autoridades estaduais, a saúde tem recebido especial cuidado e investimentos. É fato que algo já foi feito como, por exemplo, a transferência da administração de algumas unidades de saúde para as organizações sociais (OSs). Nesse sentido, houve uma melhora no atendimento, mas segue a interminável falta de vagas em UTIs assombrando os cidadãos que dependem do serviço público de saúde.
A construção dos Credeqs, uma espécie de obra que deveria ser um marco da atual administração, mal saiu da planta dos engenheiros e arquitetos. So­men­te a unidade de Aparecida de Goiânia está em construção, em uma área da Agência Goiana do Sis­tema de Execução Penal (Agsep), a cerca de quatro quilômetros do Centro Peniten­ciário Odenir Guimarães, o antigo Ce­paigo. No valor de R$ 19,8 mi­lhões, a ordem de serviço foi emi­tida no dia 21 de janeiro, pela Agência Goiana de Trans­portes e Obras (Agetop), e a previsão era de que a construção fosse concluída em 15 meses, sem contratempos. Nesse último termo é que residem os problemas: nesta semana a obra ainda estava na fase de terraplenagem. Ou seja, os “contratempos” continuam a ocorrer. E já se foram 3 dos 15 meses.
Além de Aparecida, são aguardadas mais quatro ordem de serviço para centros de recuperação de viciados — em Caldas Novas, Morrinhos, Quirinópolis e Goia­nésia. Mas, pelo que se nota, ainda não há previsão de início da construção de outras unidades. O Cre­deq corre o risco de se tornar um símbolo do fracasso do governo, após ser um dos principais motes de campanha, bastante massificado durante a corrida pelo Palácio das Esmeraldas em 2010, no ápice de uma crise que ainda não se encerrou — pelo contrário, se agravou: a epidemia de crack. Será um milagre se todos os centros previstos forem entregues em tempo hábil, ou seja, antes do término desta gestão.
Pelo menos, se serve de consolo aos goianos, o Credeq tem projeto ousado: prevê-se para cada centro, dentre outras coisas, que haja núcleos ambulatoriais e administrativos, áreas esportivas, terapias individuais e espaços multiuso edificados em terrenos de 85 mil metros quadrados. Enquanto tudo é bonito no papel, Goiânia é abalada por uma onda de assassinatos de pessoas em situação de rua, sendo a maioria, dependentes químicos. A questão é: se os Credeqs estivessem de fato funcionando, poderiam ter evitado pelo menos algumas dessas mortes? Provavelmente sim, embora não se possa fazer uma afirmação categórica.
O aguardado Hugo 2, na região noroeste da capital, também está no imaginário do eleitor de Goiânia, principalmente de bairros como Jardim Curitiba, Finsocial, Nova Esperança, Vila Mutirão, Bairro da Vitória, Jardim Liberdade, entre muitos outros. No “imaginário” mesmo, pois o tal hospital ainda não foi sequer licitado. Pelo projeto, a nova unidade de urgência terá 360 leitos divididos em cinco pavimentos com enfermarias para internações. Só para a UTI serão reservados 40 leitos. A construção será erguida numa área de 27 mil metros quadrados, que abrigará mil vagas de estacionamento e até um heliporto, ao custo de R$ 59 milhões. Enquanto a obra não sai, por problemas burocráticos diversos, o único Hugo da cidade, mesmo capitaneado por uma OS, ainda não resolveu problemas como filas no atendimento, falta de vagas na UTI e de leitos para internação.
Rodovida ainda “rodou” pouco



Cuidar de obras de infraestrutura do Estado de Goiás, facilitar o acesso intermunicipal, oferecer maior segurança e comodidade aos motoristas, incentivar o escoamento das produções do Estado e muitos outros benefícios. Com esses objetivos, a Agetop se tornou um dos órgãos-chave do governo, que criou o programa Rodovida. Por conta da grande demanda de obras, ele foi desmembrado em outros quatro: reconstrução, construção, conservação e pavimentação urbana. As intenções do programa são nobres, trata-se do sonho da maioria dos governantes de Estados emergentes, que a exemplo do caso goiano perde dinheiro em arrecadação por conta do déficit em infraestrutura viária, o que ocasiona um grande desperdício no escoamento da produção, por exemplo.
A prioridade do programa estadual para as estradas é de atender os trechos de rodovia que apresentam dificuldades nas condições de tráfego e, ao mesmo tempo, aumentar a vida útil das rodovias em, no mínimo, dez anos. A verba para realização da ação veio do Fundo de Transportes, e o financiamento, do BNDES.
Existem trechos já recuperados pelo programa cuja condição de tráfego é satisfatória com excelente sinalização. Um exemplo poderia ser a GO-330, que liga Vianópolis à Catalão, com 187 quilômetros recuperados. Poderia ser, mas nem tudo são rosas à beira do asfalto. No trecho entre Ipameri e Catalão da mesma rodovia, recuperado há menos de um ano, já há sinais de deterioração asfáltica.
Muito mais do que uma via localizada em uma determinada região — ainda que importante — do Estado, o que representaria de fato um marco do atual governo na história das obras rodoviárias empreendidas seria a duplicação de estradas que ligam Goiânia a cidades de importância econômica e turística de Goiás. Isso foi promessa de Marconi Perillo: duplicar da capital à Cidade de Goiás (GO-070), Catalão (GO-020 e GO-330), Caldas Novas (GO-217) e Pirenópolis (GO-225). Também é dívida de campanha duplicar todas as estradas estaduais que saem de da capital. Serão pagas ao eleitor até o fim de 2014? Uma ou outra, talvez, olhando o quadro atual com muito otimismo. Mas a possibilidade de que nenhuma promessa de duplicação se cumpra na íntegra é enorme.
O cenário não é favorável nem mesmo para aquelas que já se iniciaram. Por exemplo, as obras de duplicação de Goiânia para a Cidade de Goiás. Os trabalhos não se resumem apenas na construção de outra pista ao lado da original, mas entra também no bolo de ordem de serviços a implantação de alambrados, construção de pontes além da iluminação no trecho até Inhumas. O Jornal Opção teve acesso a um documento exclusivo da Agetop com a planilha de obras e seus respectivos cronogramas e empreiteiras licitadas. Constata-se que, na GO-070, entre Goiânia e Itaberaí, foram contratadas — por meio de licitação — empresas diferentes para execução de serviços específicos na mesma via.
O trecho de Goiânia a Inhumas recebeu a instalação de cerca de mil postes para iluminação da via. O objetivo, segundo a Agetop, é de proporcionar maior visibilidade noturna, reforçar e melhorar a segurança além de ter uma proposta urbanística com a utilização de luminárias de alto rendimento e durabilidade, o que gera economia de energia. A empreiteira responsável pelo trabalho foi a RH Engenharia, que iniciou o serviço no dia 8 de maio de 2012. O custo total da obra foi de R$ 4,8 milhões.
Na mesma estrada, outra empresa venceu o certame para construir uma ponte sobre o Rio das Pedras. A obra foi concluída no ano passado e ficou a cargo da Warre Engenharia e Saneamento Ltda. — a mesma empreiteira responsável pela construção “sem fim” do Centro Cultural Oscar Niemeyer — ao custo de R$ 3,8 milhões. No dia 25 de janeiro, a Agetop abriu processo de licitação para a duplicação da GO-070 entre Inhumas e Itauçu. A obra vai custar mais de R$ 58 milhões, devendo ser concluída dentro de dois anos. Com a já existe duplicação de Goiânia a Inhumas — de 42 quilômetros — ao todo, serão 67 quilômetro de rodovia duplicada.
Duplicações de GOs bem aquém do prometido
 
Entre as estradas prometidas pelo atual governo que passariam por processo de duplicação, A a GO-070 é a única das que vem deixando de ser apenas um projeto. Mas é bom lembrar que a obra começou ainda no segundo governo de Marconi Perillo, se­guiu sendo executado durante todo o governo de Alcides Ro­dri­gues e continua agora, em compasso bem mais lento. Faltam ain­da ser iniciadas a duplicação de Goiânia até Catalão (256 quilômetros), até Pirenópolis (trecho a partir de Anápolis, de cerca de 65 quilômetros) e até Caldas Novas (52 quilômetros, a partir de Pi­ra­canjuba). O que existe de duplicado, fora trechos de GOs na região metropolitana — como a Rodovia dos Romeiros, o trecho da GO-060 até Trindade, duplicado há mais de 20 anos, portanto na era pré-Marconi —, são somente estradas federais.
Resta saber se o governo vai ficar mesmo só no discurso, talvez querendo emplacar as obras com um discurso de “precisamos de mais quatro anos” para completar aquilo que talvez nem tenha começado até as eleições de 2014. Podo ser o caso das obras de outra rodovia, a GO-020. Pelo projeto, é prevista a construção de uma terceira faixa entre o viaduto da BR-153 e o autódromo de Goiânia e a construção de ciclovia entre o autódromo e a cidade de Bela Vista. As obras estão orçadas em R$ 138 milhões e os recursos já estariam assegurados. Uma audiência pública foi realizada para apresentar a duplicação da GO. Desse passo até a execução, quanto tempo?
Também no terreno do resgate de compromissos antigos, o governo estadual também se volta para projetos em Goiânia, que, ao passar dos anos caiu na descrença dos goianienses por intermináveis promessas que deixaram desenganados os eleitores da capital e da sua região metropolitana. É o caso da construção dos viadutos que deveriam estar sendo construídos nos cruzamentos das GOs 060, 070 e 080 com a Avenida Anhanguera, no primeiro caso, e com a Perimetral Norte — é bom lembrar que o trato feito pelo governo foi de entregar tudo isso em menos de um ano.
O prazo já estourou em 16 meses, mas não custa descrever o que está prometido: um viaduto será construído no cruzamento da GO-060, no início da Avenida Castelo Branco, na saída para Trindade; outro, no entroncamento da GO-070 com a Avenida Perimetral, na saída para Inhumas; o terceiro viaduto será construído no cruzamento da GO-080 com a Perimetral, um dos acessos para o Campus Samambaia, da Univer­sidade Federal de Goiás, na saída para Nerópolis. A previsão para execução é de oito meses e o custo total das obras de arte será de R$ 20 milhões. 
Fonte: Jornal Opção