5 de abril de 2013

O espaço do ciclista goiano se resume a 3 km



Enquanto o trânsito na maioria das capitais brasileiras beira ao caos, o governo federal insiste na política de redução de impostos para carros. A ampliação no quadro de vendas das concessionárias de todo o País proporcionou o aumento do número de veículos nas ruas. Diante deste cenário, seria ponderado criar formas alternativas de locomoção, que dariam mais fluidez ao trânsito, redesenhando a mobilidade urbana.

O secretário de Desenvolvimento Urbano Sustentável da Prefeitura de Goiânia, Nelcivone Melo, critica o posicionamento do governo federal em proporcionar a redução dos impostos às fabricantes de veículos. Segundo Melo, hoje é discutida em todo o mundo, sobretudo nos países europeus, a busca por alternativas que viabilizem o uso de outros tipos de transportes, além de carros e motos. “Precisamos de políticas que incentivem o transporte alternativo. Não conseguimos melhorar a mobilidade urbana estimulando a compra de novos veículos”, defende.

Uma possível opção para Goiânia, que tem mais de um milhão de veículos circulando pelas ruas, seria o uso das bicicletas, que além de ser uma medida sustentável, diminuiria a quantidade de carros e motos no tráfego. Porém a total falta de estrutura cicloviária torna inviável o transporte ciclístico na cidade.
A implantação de 102 km de ciclovias está prevista para até o final da gestão do prefeito Paulo Garcia. O Plano Diretor da capital, de 2007, estabelece que sejam implantados sistemas cicloviários suficientes para atender à demanda e à conveniência do usuário da bicicleta. Seis anos depois, foram construídos somente 3 km de extensão dessa estrutura. A única ciclovia da capital está situada na Rua 10, Setor Central, porém, segundo especialistas, foi construída de maneira irregular.

O Conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás – CAU, Fernando Chapadeiro, explica que há requisitos para a implantação de ciclovias que não foram totalmente atendidos no corredor universitário. A pista deve ser iluminada e sombreada por vegetação; ser bem identificada e sinalizada; oferecer visibilidade e previsibilidade, proporcionando ao ciclista visão e a capacidade de prever a ação do veículo na interseção; e ainda oferecer conforto com uma superfície regular e antiderrapante. “Não é simplesmente um pavimento colorido que vai levar o usuário a utilizar a bicicleta como meio de transporte. Com poucos meses que foi inaugurada a ciclovia da Rua 10, já podemos identificar problemas de execução da obra”, critica Chapadeiro.

O especialista em Planejamento Urbano e Ambiental defende a implantação de um circuito cicloviário para atender quem usa a bicicleta para ir trabalhar, estudar ou até mesmo como instrumento de trabalho. Chapadeiro censura a posição da prefeitura da capital, que não investe em obras para melhorias no trânsito suficientemente, já que é primordial pensar, além das ciclovias, em ciclofaixas e bicicletários, para haver a integração da bicicleta no tráfego. “É um apanhado de ações que devem ser realizadas para atender a segurança e o conforto do ciclista. E não é possível identificar essas ações da prefeitura. O que nós vemos é apenas a mera construção de uma ciclovia e não o planejamento de uma rede cicloviária.”

O secretário do município esclarece que a cidade foi planejada para um número bem menor de veículos do que o atual, consequentemente, surgiram dificuldades no tráfego e a necessidade de mudanças para adaptar a nova realidade da capital. Com a implantação dos corredores preferenciais para o transporte coletivo, que desaponta muitos comerciantes com a proibição do estacionamento ao longo de algumas vias, o secretário garante que o passo seguinte será a construção de mais ciclovias. Essas mudanças, de acordo com Melo, são para devolver a via pública para a população. Melo assegura que a meta é implantar as ciclovias nos corredores das Avenidas T-9, T-7 e T-63.  “Na medida em que melhorarmos a infraestrutura cicloviária da capital, as pessoas vão usar mais a bicicleta como meio de transporte.”

E é neste sentido que se insere o Pedal Goiano. Idealizado pelos ciclistas Eduardo da Costa Silva e Fernando Accioly, o grupo luta diariamente pela criação de um sistema cicloviário na capital e, ainda, pela conscientização dos demais cidadãos sobre a utilização da bicicleta como meio de locomoção. “O Pedal Goiano incentiva muito o uso da bicicleta não apenas como meio de diversão e esporte, mas também como meio de transporte. Queremos mostrar que é possível percorrer até 10 km diariamente sem precisar de carro ou moto”, argumenta Fernando Accioly.

Mas, para o idealizador do projeto, o motorista carece de uma mudança cultural. O carro é visto como objeto de poder, e quanto maior e mais caro o veículo, maior a falta de educação do motorista no trânsito, conforme Accioly. “O goiano largou a carroça há pouco tempo e hoje tem um carro, que reflete um status. Por isso, nós precisamos fazer uma mudança cultural. O caminho certo para tirar os carros da rua é por meio de um transporte coletivo decente e meios alternativos, como as ciclovias”, critica.

No dia 14 de março deste ano, a atleta Clemilda Fernandes, melhor brasileira no ranking mundial de ciclismo, se chocou com um veículo na BR-153 em direção à GO-20. Clemilda seguia para o autódromo da cidade, onde costuma treinar para as competições. O fato de o motorista não ter prestado socorro é o que mais causa indignação na esportista. O colombiano Diego Contreraz, que pedalava junto com a atleta, foi quem a amparou. “Tudo bem se o motorista é quem estava errado, todo mundo erra. Mas, poderia ao menos ter parado para prestar socorro para mim. Gostaria apenas que as pessoas tivessem um pouco mais de respeito pelo ciclista”, desabafa Clemilda.

O fisioterapeuta da atleta, Robson Porto, explica que o principal trauma de Clemilda foi na coluna, na região lombar, em que fraturou duas vértebras. Porém, ela teve ferimentos secundários, como um corte na cabeça, devido a grande distância em que foi arremessada, e escoriações por todo o corpo, resultantes do atrito com o asfalto. Ele revela que, assim que a ciclista saiu da Unidade de Terapia Intensiva – UTI e deu início aos tratamentos fisioterápicos, ela apresentava dificuldade para caminhar, sentar e desconforto ao se deitar. “Do ponto de vista clínico, ela está reagindo bem aos tratamentos. O que nos preocupa é que, por ser uma atleta, ela perdeu bastante massa muscular”, ressalta.

Clemilda não é a primeira ciclista a ser atropelada em Goiânia. Em fevereiro, deste ano, um idoso de 66 anos foi atingido por um veículo quando trafegava em uma bicicleta na Avenida José Inácio Sobrinho, no Setor Marabá.   José Gouveia Franco não resistiu aos ferimentos e morreu no local. Um levantamento feito pelo Detran de Goiás mostra que somente nos oito primeiros meses do ano passado, 526 passageiros e condutores de bicicletas ficaram feridos na capital. Fernando Accioly associa o grande número de vítimas ciclistas no trânsito ao desrespeito dos motoristas.  “Parece que quando estamos andando de bicicleta na rua nós ganhamos superpoderes, ficamos invisíveis, ninguém enxerga.”

Além do desrespeito e a falta de estrutura cicloviária, outro fator que pode ser associado à grande quantidade de acidentes envolvendo bicicletas é a falha nas campanhas educativas. O idealizador do Pedal Goiano julga precária a forma como o poder público busca a conscientização dos motoristas e também de quem está na bicicleta. “Deveriam iniciar a educação de trânsito já na escola. As crianças vão aprender a respeitar e, ainda, recriminar os pais quando estiverem errados. Mas, do jeito que é feito hoje, com campanhas publicitárias mostrando um acidente ou outro, não resolve.”

Falta de bicicletários e de locais apropriados para que o ciclista se arrume quando chegar ao trabalho são outros dois elementos que inviabilizam o transporte alternativo por meio das bicicletas. Nelcivone Melo afirma que a prefeitura prevê campanhas de incentivo às empresas e estabelecimentos comerciais para que instalem paraciclos.  Accioly também divide da mesma opinião que o secretário. “O importante é ter espaço para a gente. Precisamos da construção de ciclovias e não de ciclofaixas, como a prefeitura faz e também do apoio por parte das empresas, para que tenhamos um lugar para guardar a bicicleta”, defende.

Fonte: Portal 730