2 de abril de 2013

Goiânia a caminho do caos



Apesar de a capital ser dotada de avenidas largas e ruas organizadas, já são comuns pontos de estrangulamentos em várias regiões da cidade. Carros, motos, ônibus e pedestres não se entendem nas ruas. Os problemas no trânsito passam pela falta de gestão e de políticas públicas, pela má qualidade do transporte coletivo - que não consegue trafegar na velocidade ideal – e piora com o aumento da frota, incentivado pelo próprio poder público com os descontos em impostos.
A falta de planejamento no trânsito de Goiânia provoca um efeito dominó: acidentes e sobrecarga no Sistema Único de Saúde (SUS). Milhões de reais são gastos todos os anos com vítimas do trânsito, dinheiro que poderia ser empregado em outras áreas.

A partir de hoje, o Portal 730 divulga uma série de matérias especiais sobre as causas do desordenamento e as soluções para que o caos não se instale nas ruas da cidade. As matérias vão abordar o desconhecimento da sinalização, o desrespeito ao pedestre, a questão do estacionamento e alternativas sustentáveis, como as ciclovias.

Goiânia é uma capital relativamente nova, vai completar 80 anos, e desenvolveu-se a partir de um plano urbanístico, diferente da maioria das cidades que simplesmente surgiram. Uma cidade que, aos poucos, vem perdendo a capacidade de se ordenar e um dos pontos mais visíveis da desorganização urbana da capital é seu trânsito. Quem trafega pelas ruas de Goiânia, principalmente, em horário de pico, experimenta uma amostra do que vive o morador de grandes metrópoles: trânsito lento, motoristas impacientes, ora imprudentes.

Chegar ao trabalho pela manhã e, em casa, no fim da tarde se transformou em um desafio na nova capital de Goiás. Se nada for feito, em pouco tempo, a cidade pode vir a conviver com um trânsito igual ao de São Paulo, que tem quase sete milhões de veículos e 12 milhões de habitantes. “Na atual circunstância, salvo as proporções, Goiânia caminha para ter problemas como os de São Paulo” diz Benjamim Jorge Rodrigues, doutor em Engenharia de Transporte pela USP.

Goiânia, que nasceu no século XX,  ainda descobriu como lidar com elementos relativamente novos no trânsito do século XXI. É o caso do grande número de motocicletas. De acordo com um levantamento do Detran de Goiás, mais de 260 mil motos disputam espaço com carros e o transporte coletivo nas ruas da capital. Só nos dois primeiros meses de 2013 foram emplacadas mais de 2 mil motos na cidade.

Se faltam políticas públicas para organizar e desafogar o trânsito, sobram incentivos para a aquisição de veículos no Estado. Umas delas concede isenção do IPVA para veículos novos. Se o carro adquirido for 1.0, o valor do imposto cai pela metade. Além de todos esses benefícios o IPVA ficou 9% mais barato em Goiás. “A redução de impostos e os incentivos à compra de veículos novos não são medidas boas para a qualidade do trânsito. O ideal é o uso do transporte coletivo”, afirma Benjamim Rodrigues.

Falta espaço para o transporte coletivo

Mas entre um número cada vez maior de carros e motos sobra pouco espaço para os ônibus do transporte coletivo. O modelo de transporte coletivo de Goiânia, tão criticado pelos usuários, já serviu de exemplo para outros países, mas, aqui, é administrado de forma equivocada. O superintendente em Desenvolvimento Urbano da Secretaria Estadual das Cidades de Goiás, Antenor Pinheiro diz que o sistema é moderno e que o problema está na má administração do modelo.

O superintendente explica que não há déficit de ônibus coletivo em Goiânia, faltam corredores exclusivos para desafogar o trânsito e dar mais qualidade ao serviço de transporte. Por exemplo: numa linha bairro-centro existem 10 ônibus que não conseguem transitar. Os primeiros cinco veículos não vão conseguir cumprir o itinerário, vão passar lotados. Os outros vão passar no bairro só mais tarde e deixar a impressão que faltam ônibus. Sem transporte coletivo de qualidade, o trânsito fica mais pesado e provoca o efeito dominó: motos e carros dividem os espaços com os ônibus, que circulam, lotados e atrasam no itinerário.

Autoridades não respeitam Plano Diretor
A incompetência governamental tem sido um dos grandes problemas para estruturar e organizar a malha viária da capital. A negligência administrativa começa na falta de compromisso com a implantação do Plano Diretor do município. O documento tem como objetivo orientar as ações dos gestores na política básica de desenvolvimento urbano.
“O que falta é o poder púbico atuar para ter uma opção preferencial para o transporte coletivo, abrindo os eixos, como manda o Plano Diretor. Mesmo com algumas mudanças feitas recentemente, Goiânia tem poucas vias exclusivas para ônibus”, observa Pinheiro.

Projetada para ter apenas 50 mil habitantes, Goiânia tem atualmente cerca de 1,4 milhão de pessoas. Os veículos circulando pelas ruas da cidade passam de 1 milhão. Só no primeiro semestre de 2011, nasceram mais de 7 mil crianças na capital e, no mesmo período, 34 mil veículos passaram a circular nas ruas da capital.

O montante de carros circulando poderia ser uma justificativa para os problemas que o trânsito de Goiânia já apresenta. Mas se comparada com outras capitais brasileiras, como Curitiba, por exemplo, a capital goiana está bem atrás do modelo ideal para o trânsito.  Isso porque Goiânia tem quase o mesmo número de habitantes e veículos que Curitiba - considerada modelo em engenharia de tráfego. A capital paranaense soube enfrentar os problemas no trânsito ao colocar em prática o Plano Diretor e se organizar com um novo sistema de binários na cidade. O sistema estabelece medidas simples e consiste em duas ruas paralelas de sentidos únicos e contrários, além dos ônibus biarticulados. Soluções que além de desafogar o trânsito, reduziram o número de acidentes.

Um levantamento realizado em 2011 no Sistema Único de Saúde (SUS) foi constatado que o governo federal gastou mais R$ 8 milhões com acidentes de trânsito apenas em Goiás. A falta de educação no trânsito pode ser uma das causas desses acidentes. Érika Cristine Kineb, doutora em Transporte e Mobilidade pela Universidade Federal de Goiás, explica que não adianta fazer campanha educativa só para informar. É preciso cobrar responsabilidade do condutor. Segundo ela, o resultado do modelo atual é o número crescente de óbitos e de pessoas mutiladas, que oneram o SUS e causam outro problema: a sobrecarga no sistema; postos e hospitais lotados.

Fonte: Portal 730