15 de abril de 2013

74,5% dos ônibus são acessíveis na capital



Há cinco anos, Soneir José Pereira, de 42 anos, arrisca-se sobre duas rodas no trânsito de Goiânia. As duas rodas, no entanto, não são de uma moto ou bicicleta. Soneir é cadeirante e, para conseguir chegar ao Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), onde faz fisioterapia duas vezes por semana, ele precisa seguir o trajeto, entre a Avenida Independência e a unidade, em meio aos carros, motos e ônibus que passam pela 5ª Avenida. É uma disputa por espaço covarde e perigosa, mas a única solução que lhe resta, diante da falta de acessibilidade e ocupações indevidas das calçadas no trecho em questão.

Na última semana, O HOJE conferiu de perto a realidade de pessoas com deficiência na capital. Além da falta de conscientização e solidariedade, esta expressada geralmente por uma minoria da sociedade, verificou-se que no meio do caminho sempre há um desnível, um buraco, um poste, degraus, escadas e até automóveis estacionados arbitrariamente em cima das calçadas, obstruindo a passagem. O trajeto de cadeirantes devia, no mínimo, ser facilitado e com acessibilidade garantida. Em Goiânia, a realidade mostra uma situação oposta, expondo-os a uma série de riscos e desconfortos.

A reportagem acompanhou o esforço de Soneir para conseguir chegar ao Crer, na sexta-feira (12). Ele, apesar de indignado com a situação, diz-se acostumado, pois já se foram cinco anos fazendo a mesma coisa. Para quem presencia pela primeira vez, os perigos saltam aos olhos, bem como o absurdo da situação. O tráfego intenso da via não o intimida, afinal ele precisa chegar no Centro de Reabilitação e não tem outro caminho para tal. Os carros passam próximos, buzinam, motos convivem lado a lado e os ônibus são o terror. Certa vez, recorda-se Soneir, um motorista do transporte coletivo não o viu e ao manobrar o veículo quase esbarrou a traseira do ônibus na cadeira de rodas.

As calçadas da Avenida Independência até o Crer são irregulares, estreitas, cheias de buraco e ocupadas por uma série de obstáculos. Essa situação, no entanto, não é difícil de ser presenciada em outros locais da capital. Basta sair por aí e começar a observar. A Prefeitura de Goiânia contrapõe, dizendo que, teoricamente, as calçadas são de responsabilidade do proprietário do lote. Como muita gente não faz o que deveria ser feito, à medida que o meio-fio, este, sim, a cargo do poder público, vai sendo trocado, o rebaixamento das calçadas também é realizado. Enquanto o impasse persiste e o tempo passa, as consequências sobram para quem precisa de maior acessibilidade.

Soneir ficou paralítico há quase oito anos, ao ter a medula atingida por uma facada que levou nas costas. Desde então, ele, que era operador de empenhadeira na fábrica da Coca-Cola na GO-060, teve a rotina totalmente alterada. A casa e os cômodos no Bairro da Vitória, região noroeste, tiveram de ser readequados. Natural de Quirinópolis, ele nunca mais viajou para outra cidade de ônibus, em razão da dificuldade e de ter de avisar pelo menos com dois dias de antecedência a empresa de transporte. Em contrapartida, consegue transitar sozinho em Goiânia, apesar das dificuldades, e o que não faltam são histórias e questões para reclamar.

Ônibus

Na semana passada, o portal Mobilize Brasil, primeiro site nacional de conteúdo exclusivo sobre mobilidade urbana sustentável, divulgou o comparativo de 15 cidades brasileiras no que se refere às políticas de trânsito e acessibilidade. Dentre estas, 12 oferecem ônibus de transporte público com rampa para cadeirantes, e Goiânia é uma delas. A capital ficou em quarto lugar no ranking, com 74,5% de ônibus acessíveis. O porcentual é quase o mesmo expressado de cabeça por Soneir, que, de tanto andar, consegue fazer a própria estatística. Apesar da posição relativamente boa em tal quesito, ele denuncia uma série de situações que no dia a dia acabam reduzindo significativamente o porcentual de acessibilidade no transporte público.

O Bairro da Vitória fica numa região distante do Crer e da Associação dos Deficientes Físicos de Goiás (Adfego), onde Soneir também precisa comparecer duas vezes na semana para realizar as sessões de fisioterapia. As dificuldades começam já quando ele sai de casa. “De cada 10 ônibus que circulam na minha região, sete estão com a rampa de acesso estragada ou pelo menos é isso o que os motoristas informam, porque muitos têm preguiça de descer e operar o equipamento”, diz. Fora isso, o estudo do Mobilize Brasil informa ainda que somente 10,2% dos domicílios goianienses possuem rampas para cadeirantes em seu entorno. No bairro, Soneir diz não sofrer muito com isso, pois as calçadas são niveladas e com rebaixamento.

Depois de chegar no ponto de ônibus e passada a longa espera rotineira, ele segue para o Terminal do Padre Pelágio, onde se esbarra em outra questão pontual: não tem banheiro especial para pessoas com deficiência. Se a necessidade surgir, resta esperar por hora e local mais oportuno. Lá, ele pega o Eixo Anhanguera e vai até o Terminal da Praça A. Para Soneir, o Eixo é razoavelmente tranquilo para cadeirantes. O único problema é que, às vezes, os ônibus param longe da plataforma e ele precisa da ajuda das pessoas próximas para conseguir entrar. Da Praça A ele pega a linha que segue pela Independência e o deixa a poucos metros da Adfego ou no cruzamento com a 5ª Avenida para seguir até o Crer. Ironicamente, o ponto próximo à Adfego é repleto de obstáculos, numa calçada irregular e que, constantemente, é tomada por carros estacionados.

Fonte: O Hoje