24 de março de 2013

“O Plano Diretor precisa ser alterado para atender a maioria da população de Goiânia”


Depois de assumir o cargo pela primeira vez este mês, o vice-prefeito da capital diz que cidadão também precisa contribuir para a garantia da qualidade de vida e que o município não pode perder receita por causa de visão “romântica”
Fernando Leite/Jornal Opção
Representante da geração jovem do PMDB, Agenor Mariano foi o escolhido pelo partido para compor a chapa majoritária à sucessão municipal com o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT), que buscou e conseguiu a reeleição, ainda no primeiro turno. Apesar de ainda não ter chegado aos 40 anos, o hoje vice-prefeito já acumula grande bagagem na vida política: foi candidato pela primeira vez em 1996, quando concorreu à Câmara de Goiânia. Em 2005, com a eleição de Iris Rezende (PMDB) na capital, assumiu a Secretaria Municipal de Administração, que o projetou para seu primeiro mandato como vereador, em 2008.

Durante oito dias entre as duas últimas semanas, ele assumiu a cadeira principal do Paço, com a viagem oficial do prefeito para o Panamá. Não se deslumbrou com o cargo. “No caso de o chefe se ausentar, a função do vice, que é meu caso, não é a de ter uma passagem marcante, de jogar para a plateia”, resume. Em entrevista ao Jornal Opção ele respondeu a temas que estão polemizando a cidade no momento, como os problemas no setor da saúde, as reclamações sobre a coleta de lixo, a questionável construção do centro de distribuição da empresa Hypermarcas em uma área de preservação e a implantação do corredor do transporte coletivo.

Agenor Mariano classifica o gestor como uma pessoa que tem de ouvir todas as partes, mas decidir pelo que achar que melhor convier para a cidade. É assim que pensa as políticas. “O gestor não pode se intimidar em debater temas polêmicos se o resultado final é a garantia da melhoria das condições de vida”, justifica. Dessa forma, pensa que o cidadão precisa fazer sua parte e ajudar a Prefeitura a cuidar da cidade. E até, caso isso não ocorra, ser advertido pelos órgãos municipais para que cumpra seu papel, “doa em quem doer”. Para gerar receita, não tem medo em afirmar que, no que dependesse dele, alteraria o Plano Diretor “de forma pontual”, naquilo que, se não for feito, possa acarretar prejuízos à cidade. É o caso da polêmica obra da Hypermarcas, até hoje sem alvará de construção e situada em uma região de chácaras na região norte de Goiânia próxima ao Rio Meia Ponte, onde já há a presença irregular de transportadoras ao redor do complexo industrial Cargill–Unilever.
Elder Dias — O sr. ficou uma semana como prefeito de Goiânia, com todas as pressões do cargo. Como é essa experiência para um político jovem ainda?
Eu classifico essa oportunidade de duas formas. Primeiro, a emocional: seria uma emoção muito grande para qualquer goianiense poder ser prefeito de sua cidade nem que fosse por um dia, imagine para mim, que estou ficando oito. Nesse sentido, não é uma relação de vaidade, mas de ficar honrado. Já do ponto de vista técnico, temos de nos remeter a alguns conceitos, entre eles o constitucional: a função do vice-prefeito é tão somente a de ocupar o cargo na vacância do mesmo. Quando o cargo está ocupado pelo titular, o vice pode fazer alguma coisa? Pode e deve, sendo que o prefeito delega como seu vice pode contribuir com a administração. No caso de o chefe se ausentar do cargo, em minha opinião, a função do vice, que é meu caso, não é a de ter uma passagem marcante pela Prefeitura, ou seja, jogar para a plateia. Ninguém faz nada marcante em oito dias, a não ser Deus, que fez o mundo em sete. Então, penso que é preciso ter o senso de ser, durante esses oito dias, como um guardião dos projetos e programas já implementados, para que as coisas possam não desacelerar e deixar de ter os resultados que o prefeito planejou que ocorressem. Creio ser esse meu papel durante a ausência do prefeito Paulo Garcia.
 
Elder Dias — O sr. tem tido contato com ele por telefone durante esse período? Afinal, a administração anda e ocorrem fatos novos, como a discussão na Câmara de Goiânia na semana anterior...
Falei com o prefeito apenas uma vez depois que ele partiu, para tratar de um assunto administrativo específico do qual eu queria obter uma informação. Mas, no geral, do ponto de vista das ações políticas, não mantive nenhum contato, até porque o prefeito é uma pessoa extremamente informada e está sempre acompanhando tudo pelas redes, pelos jornais via internet. Ele sabe tudo o que está acontecendo por aqui, não é necessário que eu leve nenhuma informação a ele. Outro motivo é que ele está lá [no Panamá] para desenvolver um papel para o qual precisa estar tranquilo, não tem de se preocupar com algo que esteja ocorrendo aqui. Assim, enquanto eu não sentir que há alguma coisa muito grave, não vou levar qualquer problema. Quando ele chegar, tratamos do que aconteceu durante a ausência dele. Como seu vice, preciso garantir essa segurança em relação aos problemas do dia a dia. Pro­blemas existem sempre, com ou sem ele, não há nada extraordinário, são coisas ordinárias. 
 
Cezar Santos — Falando em problemas, como o sr. analisa esse início de gestão quando há no noticiário um passivo bastante complicado em relação ao setor da saúde?
Pelo que podemos perceber, a saúde é um processo de ato contínuo. Ainda vai demorar a chegar o dia em que 100% da saúde pública estará em nível de excelência. E digo mais: nem a saúde privada. Eu já estou chegando perto dos 40 anos e é de bom tom, nesta idade, que se faça uma avaliação periódica, ver se estou bem, cardiologicamente falando. Procurei usar meu plano de saúde privado, que é tido como um dos melhores do mercado, e só para fazer um exame fiquei mais de duas horas aguardando. Fiz a consulta, com um médico que é meu amigo, e tive de esperar de 40 minutos a uma hora, fora o tempo do exame. Isso porque cheguei cedo e foi por ordem de chegada. Utilizei do atendimento particular, em um dos melhores hospitais de Goiânia e sendo vice-prefeito da capital. O que percebo é que há uma questão psicológica também: algumas pessoas chegam a algum Cais da cidade e, depois de meia hora aguardando, começa a imaginar que está sofrendo aquele processo porque é pobre, porque está em um Cais, que, se estivesse em um hospital particular já teria sido atendido. Só que essa pessoa também não conhece a realidade de uma unidade particular. É apenas uma figura, uma imagem que se idealiza ao aguardar o atendimento ali no Cais por estar em um serviço público, já rotulando que, se fosse particular, seria diferente. Não é verdade, basta buscar atendimento de urgência em um pronto-socorro de um plano de saúde para saber como é a realidade. 
 
Frederico Vitor — A realidade da saúde privada tem essa semelhança com a rede pública?
Se você passar mal em casa e buscar atendimento em uma unidade privada vai verificar quanto tempo aguardará. Mas ninguém quer abordar isso, preferem malhar a coisa pública, atribuir-lhe incompetência. E isso não é só por parte do usuário, não. A imprensa, também. Já vi veículos de imprensa que quase forçam o indivíduo a falar mal do Cais. São aquelas famosas perguntas induzidas, como “o sr. está achando ruim?”. Ora, não é o usuário quem está dizendo, é o repórter que já disse a ele. Fui propagandista da indústria farmacêutica por dez anos. Eu visitava e aguardava, em média, 15 médicos por dia, em diferentes tipos de consultórios, particulares e públicos. Tinha um centro de referência aqui em Goiânia o qual, há dez anos, cobrava 250 reais por consulta, com secretárias bilíngues na recepção e tudo o mais. Eu queria saber se houve algum paciente que não esperasse uma hora e meia por atendimento lá. E esperava porque estava em um Cais, uma unidade pública? Ora, não estava pagando a consulta mais cara do Estado e, ainda, esperar uma hora e meia? Mas é que a medicina não é algo exato. Tem paciente que entra no consultório e, mais do que a consulta em si, quer desabafar, ser ouvido. E geralmente o profissional que é atencioso vai fazer essa chamada anamnese, aquela investigação prévia do paciente, perguntando-lhe várias coisas. Mas quando o médico quer ir pelo sistema de fazer a fila andar rápido é criticado por nem olhar direito na cara do paciente. 
 
Cezar Santos — Mas o sr. admite que há problemas na saúde?
Isso é fato. Existem problemas na saúde, mas o objetivo do setor público municipal é tentar melhorar a cada dia. Vou dar um exemplo: em julho de 2005, a Saúde de Goiânia tinha 3,5 mil funcionários e uma folha de pagamento de R$ 5 milhões. Agora, em fevereiro deste ano, temos 12 mil servidores e uma folha de mais de R$ 30 milhões, só da área da Saúde. Portanto, é notório que houve um investimento maciço na contratação de pessoal e na melhoria das condições salariais, numa demonstração de um esforço sobre-humano dos gestores que estiveram à frente da Prefeitura em todo esse período. Isso é fato, está em números. Mas por que não temos ainda a saúde ideal? Há alguns fatores. Um deles é que toda vez que há melhorias na saúde, mais gente vem em busca de serviços. Estamos atendendo mais de 40 pacientes de outros municípios e Estados, de cada grupo de 100 pessoas. Sei que essa história é antiga, mas como os problemas também são antigos, ela precisa ser repetida.
 
Cezar Santos — Sabe-se que mais da metade vem de outros municípios e de Estados como Tocantins, Bahia, Mato Grosso. Mas não se faz nada. E temos uma gestão que tem um petista como prefeito e um ministro da Saúde [Alexandre Padilha] também petista. A interação na busca de resultados não deveria ser muito mais fácil, até por isso?
Eu estive há 15 dias com o ministro Padilha, com o secretário municipal de Saúde [Fernando Carvalho], representando o prefeito Paulo Garcia, que não pôde estar presente. Goiânia tem hoje um déficit mensal de mais de R$ 5 milhões entre o que investe, dentro de suas competências. Isso tem trazido grandes transtornos para as contas do município, que acaba fechando suas contas com investimento em torno de 23% de sua receita com a área da saúde, enquanto nossa obrigação constitucional é de 15%. 
 
Marcos Nunes Carreiro — Isso está comprovado?
Claro, basta ver os últimos balancetes apresentados ao Tri­bunal de Contas dos Municípios (TCM) para comprovar isso. Mas nós não somos onipotentes, Goiânia não é onipotente, vai chegar a um ponto em que não vamos conseguir bancar. E falamos para o ministro que, se Goiânia não tivesse de bancar a saúde do Estado, as coisas seriam muito mais fáceis. Se o Estado tivesse um investimento na Saúde no mínimo paritário com o que Goiânia faz, Goiás seria o melhor desse setor em toda a Nação. A capital praticamente está bancando a saúde de todo o Estado. E por que faz isso? Primeiro porque não vamos politizar um assunto tão sério como esse. Não vamos mandar paciente embora para mostrar que isso é culpa do governo de Goiás, não vamos fazer isso. Temos um respeito profundo pela vida, pelo ser humano, ao ponto de às vezes deixar de destinar dinheiro para fazer um programa de implantação de mais seis ou sete viadutos de uma vez só para aplicar na saúde. Acabamos investindo em apenas um viaduto para gastar com a área da saúde. Esses 8% a mais que investimos poderiam ter sido investidos em outras áreas. Isso ninguém pode questionar, porque as provas estão lá nos tribunais de contas, sem qualquer maquiagem. 
 
Elder Dias — Sobre o atendimento na rede pública, vi em uma rede social um belo elogio de uma paciente atendida em um Cais de Goiânia após contrair dengue. Isso significa que existem áreas do setor público que estão em melhor condição de assistir as pessoas do que a própria rede privada?
O que posso dizer é que em algumas áreas existe mais “know-how”. Como você citou a dengue, as endemias e doenças que alastram pela população são mais bem encaminhadas por médicos do setor público. Eles estão mais preparados para o diagnóstico desses casos do que os profissionais da rede particular. Convivem com isso no dia a dia, com um volume alto de pacientes e passam por treinamentos, que recebem da Secretaria Municipal de Saúde, além de programas de acompanhamento pelo ministério. Isso tudo vai capacitando esse profissional para o atendimento. 
 
Frederico Vitor — Mas a dengue, independente disso, continua a ser um grande problema?
Infelizmente, a dengue tem sido cíclica em nosso País, em um ano seus índices estão baixos e no outro ocorre em todos os lugares do Brasil. Se fosse só Goiânia que estivesse com o problema seria muito fácil resolver, era só juntar uma força-tarefa. Mas é o Estado inteiro, o País inteiro, que está vivendo esse drama. É algo que se dá, a meu ver, por uma cultura equivocada dos moradores. Muitos acumulam lixo, embora não de forma patológica, mas há uma espécie de cultura em fazer isso. Eu, como vereador, fui o autor da lei mais recente sobre a dengue na Câmara de Goiânia. À época, a imprensa fez uma avaliação positiva sobre essa lei, que até foi motivo de editoriais de jornais. Fui até surpreendido com a avaliação que a imprensa fez em relação à existência da lei. Ao mesmo tempo, a lei está funcionando como instrumento de pressão: o fiscal faz a advertência ao cidadão e, quando volta, o problema já está resolvido. Mas por que a sociedade precisa esperar chegar o ponto de ser interpelada com a possibilidade de uma multa para, só então, tomar providência? Alguém disse que a cidade está muito suja. Eu passo pelas ruas sempre observando que tipo de lixo está sujando a cidade. Aí vejo entulho de construção, mato nos lotes e outras coisas. Aí, me pergunto: foi a Prefeitura que veio aqui e despejou esse lixo na rua, para ser culpada? Ou foi um cidadão? Eu nunca vi um caminhão da Prefeitura ir até um lote de que quer que seja e despejar entulho lá. Portanto, é muito mais uma questão cultural e de consciência do cidadão. O que a Prefeitura pode fazer — e está fazendo — sua parte com programas educativos e propagandas, orientando a sociedade a proceder da forma correta. No Bairro Santo Antônio, em frente ao bosque do Jardim Botânico, há uma área de uns 12 mil metros quadrados, toda murada. É uma área nobre, que, para possuí-la, o cidadão tem de ter dinheiro. Só que em 100% ao redor dessa área há mato no passeio público. Tenho conversado com o secretário de Fiscalização para que a Prefeitura não se intimide em fiscalizar, porque é a obrigação do cidadão fazer sua calçada, cada um limpar seu lote. Não pode ser dinheiro do contribuinte, tem de ser dinheiro individual. Mas é sempre mais fácil e cômodo criticar os governos, que já são sempre criticados, do que abrir um debate e às vezes até criticar a sociedade. O próprio governante morre de medo de perder voto.
 
Elder Dias — Então não é hora de a Prefeitura advertir a população?
A Prefeitura já começou. Nesta semana mesmo já houve propaganda sobre a questão do lixo jogado nas ruas, em local indevido. Nos tempos modernos que vivemos, é momento de chegar e pôr pingos nos is, mostrando de quem é a responsabilidade, seja quem quer que seja. Não podemos ficar intimidados, com medo de pôr o dedo na ferida e perder votos.
 
Cezar Santos — A Prefeitura não poderia, caso não fosse atendida após uma notificação, fazer o que o cidadão deveria ter feito e depois mandar a conta para ele?
Isso tem sido objeto de estudo, do ponto de vista legislativo, mas estamos esbarrando em certas circunstâncias, porque há o risco de provocar uma guerra judicial sem tamanho e o caso ficar superlotando as varas da Fazenda Pública Municipal. Mas eu sei que neste momento há pessoas estudando de que forma poderíamos ser mais práticos. Temos uma escola aqui em Goiânia com um índice muito alto de aprovação em nível nacional nos vestibulares e nos concursos. Uma das características dessa escola, pela qual ela ficou conhecida, é o modo “sargentão” de cobrar de seus alunos uma liturgia, vamos dizer assim, extremamente disciplinada do proceder e do agir.  Penso que a Prefeitura, de forma mais branda, deve iniciar uma cobrança nesse estilo, como gerente da cidade. É preciso chegar ao cidadão e dizer “olha, se não fizer da forma certa a sociedade vai te cobrar essa conta”. Se a população não cooperar, prefeitura nenhuma sozinha consegue trazer excelência à qualidade dos serviços públicos. Se não for assim, pode contratar 500 caminhões de lixo, fazer tudo o que for, nunca vamos dar conta do problema. Temos a expectativa de que, com as campanhas educacionais, a sociedade possa atender ao chamado e fazer com que continuemos a ter Goiânia entre as cidades mais limpas do País. 
 
Elder Dias — Tão ou mais preocupante do que a poluição que o cidadão gera individualmente é o que uma empresa pode fazer. Uma indústria às vezes agride mais ao meio ambiente do que o bairro inteiro. Na região norte, há o caso do centro de distribuição da empresa Hypermarcas, uma obra até o momento construída de forma totalmente irregular, com desobediência em várias questões. Durante muito tempo, o poder público se omitiu em relação à construção e só agora, com a obra adiantada, é que se agiu, com o embargo da obra. Como fica a posição da Prefeitura em relação a esse caso, em que se colocam em conflito a questão da geração de emprego e renda com a preservação do meio ambiente?
Vou lhe dizer não a opinião da Prefeitura, mas a minha opinião. O atual Plano Diretor de Goiânia é tido como um dos melhores de todos os tempos da nossa cidade. Um segundo ponto, porém, é que, por me­lhor que seja o Plano Di­retor, ele não é perfeito. Existe uma tecnicidade para trazer bem-estar e conforto, para que se possa fechar a conta ao final. Não vejo problema em subtrair 100 para ganhar 200 ao fim. Não vou ficar brigando porque retiraram 100 da minha conta se no final vão se transformar em 200. O que vai prevalecer é o final da conta. Sendo assim, em minha opinião, se o Plano Diretor em algum ponto trouxer algum prejuízo no qual a conta seja desfavorável no final para a sociedade, então ele carece de ser alterado. Temos aqui uma cultura de demonizar o empresário...
 
Elder Dias — Ou de santificar?
Não, não a cultura é de demonizar, não digo as ações em si, mas socialmente falando dizem que o empresário está ganhando dinheiro, que é milionário, que passou por cima de tudo, que “atropelou”. No caso específico [Hypermarcas], qual é o dano ambiental? Segundo informações que tenho, não há dano ambiental, até porque lá não é fábrica de nada, não despeja nada em lugar algum, não emite cheiro, lá será apenas um centro de distribuição. As fábricas estão nos municípios vizinhos. Tudo o que for fabricado neles sairá com nota branca, virá para o centro de distribuição e será faturado tudo por Goiânia.

 
“Obra da Hypermarcas vai aumentar o repasse do ICMS”
 
Elder Dias — Mas o dano ambiental não acontece apenas por chaminés. A obra levará milhares de caminhões a uma região originalmente residencial. No caso, por exemplo, entre outras coisas, a obra está a 200 metros de uma escola, o Colégio de Aplicação da UFG.
E fica também a menos de 200 metros da maior via de caminhões da cidade, que é a Perimetral Norte. A mesma distância [na verdade, a obra da Hypermarcas fica a cerca de 1,5 quilômetro da Perimetral], inclusive servindo para o escoamento desse processo de distribuição. O que deve ocorrer, em minha opinião, é que seja alterado o Plano Diretor pontualmente, naquele local. Não me interessa se é a Hypermarcas, não me interessa de quem é o CPF do dono. O que me interessa é que são 1,8 mil empregos e bilhões de reais em faturamento para o município de Goiânia, o que vai aumentar nosso ranking no Coíndice [Conselho Deliberativo dos Índices de Participação dos Municípios]. Tudo o que produzirem vai ser faturado por aqui. Com isso, vamos conseguir aumentar muito o ICMS a ser repassado para Goiânia, que vai servir para recuperar muito rio nesta cidade, para construir muita creche, para um monte de situações. Temos passado, nos últimos anos, por ataques dos municípios vizinhos que estão esvaziando a cidade. 
 
Frederico Vitor — E o que poderia ocorrer?
Vamos chegar a um certo ponto em que, sendo reduzidos os índices de participação do ICMS para o município, Goiânia vai se ver em apuros financeiros. Temos de ter uma reação rápida. Foi por isso que o prefeito Paulo Garcia enviou para a Câmara de Goiânia o projeto dos polos [industriais], por causa de um processo já em curso e tentar segurar empresas, além de trazer outras para o município. Agora, temos em questão uma empresa que, aliás, é goianiense — nasceu aqui em um fundo de quintal como a antiga Arisco, amassando alho com sal e vendendo, e chegou a faturar bilhões de reais — e “limpa”, do ponto de vista da poluição sonora, da questão do barulho e outras. Qual seria a circunstância irregular? Seria a falta de alvará, que está sem. É um equívoco da Prefeitura, do ponto de vista de a obra estar dessa forma antes de alguma ação. Porém, quando foi comunicada, a Prefeitura imediatamente foi lá, a cidade é muito grande.
 
Elder Dias — Mas a obra não é muito grande também?
Sim, é muito grande. Só que há procedimentos a cumprir. Não dá para chegar hoje aqui no jornal e embargá-lo, supondo que não haja apresentação de alvará, porque depois o jornal vai à Junta de Recursos Fiscais e ganha. Os municípios estão construindo tudo para as empresas irem para lá, dando de presente. Competitivamente falando, estamos fraquinhos demais, nessa questão de ofertar algo às empresas para gerar investimentos e empregos na cidade. Particu­lar­mente, no caso, tem uma rua lá atrás [da Hypermarcas] e acho que a Prefeitura tem de ir lá e duplicá-la. Ou seja, se lá não há as condições ideais e já é o local que está estabelecido para a empresa, que criemos as condições. Se a caixa da rua não comporta o fluxo de caminhões, que faça comportar, que duplique a via. Este é o papel do gestor, este é o papel do legislador: alterar a legislação quando, de alguma forma, entender que ela, em um ponto específico, vai trazer prejuízo para a cidade. Não estamos discutindo alterar os parâmetros urbanísticos da cidade inteira, mas sim alterar os parâmetros daquele local, porque isso convém para a cidade, independentemente das críticas que uns mais românticos possam fazer. Quem paga as contas é quem está administrando a Prefeitura e é ele quem sabe o quanto pesa a evasão de divisas do município e quanto pesa ter o desempregado na fila. Isso tudo simplesmente porque existia um Plano Diretor e ele não teve coragem de ir a certo ponto dele, abordar a “ferida” e alterá-la. Eu, Agenor, se depender de mim, altero o Plano Diretor e duplico a avenida. Aliás, já mandei de volta à Câmara ontem [segunda-feira, 18] o projeto que faz alterações no Plano Diretor e que foi encaminhado pela primeira vez no fim do ano passado — ele foi retirado da Casa por falta de tempo para fazer as audiências públicas. O gestor não pode se intimidar em debater temas polêmicos se o resultado final é a garantia da melhoria das condições de vida na cidade. Alguém pode falar que quem tem a chácara do lado da obra vai ter sua qualidade de vida atingida porque vai ter o tráfego de tantos caminhões. Aí eu vou até o local e conto 25 que terão sua qualidade de vida atingida. E conto, do outro lado, 1,8 mil empregos para pais de família comprarem o leite dos filhos. Com quem eu vou me preocupar, com os 25 ou com os 1,8 mil? A lei, o processo, é de exclusão, é de benefício da maioria. Por que existe o instrumento da desapropriação? O cidadão fala que é dono do imóvel, que está ali há tantos anos, que tem uma história ali e chega alguém para desapropriá-lo. Essa lei é ruim, cruel? Não, é porque vivemos em um processo no qual tem de prevalecer, sobre uma pequena comunidade, uma cidade inteira.
 
Elder Dias — Mas o coletivo da região norte não é formado apenas de chácaras. São mais de 50 mil moradores que serão afetadas pelo trânsito de caminhões, além da comunidade universitária da UFG. O sr. não considera que seja uma população que tenha de ser considerada?
Em qualquer local do município de Goiânia seriam contra a obra, porque todo mundo hoje — e não digo que isso esteja errado — age localmente. A Prefeitura, o governo, tem a obrigação de enxergar o município como um todo, mas o cidadão, até pelas circunstâncias, só enxerga o seu local. Estamos vivendo situações em que as pessoas não querem que a Prefeitura não construa prédios simplesmente porque quem vai morar lá é pobre, vem de áreas de risco. Fazem até abaixo assinado para impedir as obras. Pergunto: estão pensando em nome da cidade ou da própria conveniência? Passaram longe de pensar na cidade. Todos vão fazer seu “jus esperneandi” natural, normal, mas o resultado final tem de ser aquele que seja o menos danoso para a cidade e não o menos danoso para um grupo de pessoas. Em minha forma de observar, quando se fala em região norte [de Goiânia], é algo muito grande, grande demais. É um universo de bairros em que esses caminhões nunca vão nem passar na porta das pessoas. Estamos falando de um triângulo localizado. Se pegarmos como dado estatístico a porcentagem territorial dele — onde o caminhão passa, onde ele para e por onde ele volta —, sou capaz de afirmar que isso não representa nem 0,5% da região norte. E o mundo é muito estatístico: quando comparamos algo, falamos em relação a outro objeto. Se falarmos que Goiânia está suja, estamos dizendo em relação a quem? Se for uma cidade suíça, será uma análise; se for em relação a outra capital brasileira, a análise será outra. Tudo na vida é assim, comparado a outro parâmetro. O que estamos debatendo aqui lhe garanto que não dá 0,5% da região norte. E, no entanto, tentam envolver toda a região por causa do interesse de alguns para ganhar um apoio maciço, para ter força política. Atribuem isso à região norte. Que região norte? Noventa e nove por cento da região norte nunca vai ver um caminhão desses passar na porta da casa. Mas isso é estratégico, para defender um posicionamento. É legítimo da parte deles, para ganhar mais peso e mais amparo às suas ideias. Mas o gestor tem de ser sensível, ouvir todos, mas, uma vez feito isso, tem de tomar uma decisão. E essa decisão tem de ser sempre aquela com a convicção de que está fazendo o melhor pela cidade, doa em quem doer.
 
Marcos Nunes Carreiro — A Prefeitura começou a intervenção na Avenida T-63, para a execução de um corredor como o da Rua 10. E o Sindilojas disse que o faturamento do comércio na avenida já caiu, em 30%. O que a administração pensa sobre esse aspecto?
Isso já era esperado, não assustou a Prefeitura. Isso é para ver que a Prefeitura não administra nem para o empresário, como no caso que discutíamos, nem contra ele, mas para a cidade. Durante esses dois ou três primeiros meses tem o processo de acomodação, em que o indivíduo chega e desiste, por não encontrar um ponto para estacionar o carro. Daqui a um tempo isso muda, porque ninguém vai deixar de comprar na T-63, sabendo que é sua rota, que é um local mais próximo a sua casa. Então, a pessoa vai começar a buscar as vias laterais. Ou, se mora perto, em vez de usar o carro para pequenas distâncias, vai fazer uma caminhada até o local de compras ou serviços. A cidade se reinventa, se reorganiza. A reclamação de que vai atrapalhar o estacionamento e o comércio vai ocorrer na cidade inteira, porque não tem como, não há espaço. E a prioridade será dada ao transporte de massa. No que diz respeito aos carros, é bom lembrar que a faixa de circulação dos ônibus não era dos carros em trânsito, mas dos carros estacionados, o que forçava os ônibus a sair desse espaço e andar na via dos carros. Com a ausência do estacionamento, o transporte público vai fluir mais rápido e não vai pressionar os carros, porque terá faixa própria. A tendência é de que também os automóveis tenham melhor fluxo. Vemos então que haverá um benefício muito grande para a sociedade. Alguns se sentem agora prejudicados, mas saberão encontrar alternativas para a minimização de seus problemas.
 
Cezar Santos — Falando agora de política, a aliança PT–PMDB é vitoriosa em Goiânia, venceu os dois últimos pleitos. Mas agora os dois partidos dizem que serão cabeça de chapa para 2014. O sr. não vê problemas na manutenção dessa aliança?
Nenhum problema. Não vejo problema em eu, sendo do PMDB, afirmar que a cabeça de chapa deveria ser de meu partido. E não vejo também nenhum problema em o deputado Mauro Rubem, do PT, dizer que a vaga deveria ser do partido dele. Se nós não fizéssemos assim, estaríamos negando nosso DNA partidário. Todos nós somos partidários, não existe neutro aqui. Quem foi que disse que político é neutro? Em política não existe neutro. Nós somos partidários. O PT é um partido, o PMDB é outro e existem vários outros partidos em nossa aliança. Todos nós somos partidários e vamos defender até o último momento as nossas convicções. Agora, ser partidário não quer dizer que vamos agir de forma inconsequente. E o que seria isso? Seria colocar nossos desejos e anseios acima dos fatos reais, das análises e informações reais, que são norteadoras das tomadas de decisões. Tudo isso que nos ajudará a decidir só teremos às vésperas dos processos das convenções partidárias. 
 
Elder Dias — Mas hoje já existem esses “fatos reais”. Eles não podem servir de base?
Sim, existem, mas são mutáveis, ainda está muito cedo. Só interessa ao partido situacional que exista um tipo de desencontro entre as oposições. Já estamos muito vacinados com esse tipo de estratégia palaciana. Nós não vamos nos deixar sucumbir como neófitos em função de intriguinhas, de “marias fuxiqueiras” que ficam aí a alardear desentendimento em nossa base. A nossa base vai bem como nunca, e muito obrigado.
 
Cezar Santos — José Batista Júnior, o Júnior do Friboi (PSB), é bem-vindo ao PMDB?
Friboi é um empresário de sucesso, um goiano que tem sempre demonstrado seu carinho por Goiás, seu amor pelo Estado. Ele tem aspirações políticas, de disputar cargos majoritários — pelo menos, é o que tenho ouvido falar. Se ele, de certa forma, entender que o PMDB é um partido que ele compreenda que tenha as melhores propostas para governar Goiás, juntamente com todos os outros nossos aliados — o PT, o PCdoB e todos os demais —, ele será muito bem-vindo para fazer sua filiação.
 
 
Elder Dias — O sr. vê condições reais para ele chegar ao PMDB e já ser o candidato ao governo em 2014? Não é uma caminhada muito curta em um partido dessa envergadura?
Como membro da executiva do PMDB estadual, eu lhe digo, com um termo bem apropriado para o momento: não se pode passar o carro na frente dos bois. O que ocorre é que estamos a discutir uma filiação e todos nós, do PMDB, somos imbuídos de uma humildade de relacionamento. Júnior é um cavalheiro, uma pessoa boa e muito cordial, e jamais se filiaria ao PMDB impondo uma candidatura a qualquer cargo que fosse. Creio que ele se filiaria por acreditar em um projeto o qual ele estaria pronto para construir, imagino eu em qualquer posição que porventura o partido venha a escalá-lo. As pessoas vivem em função do partido e não o partido em função de pessoas.
 
Frederico Vitor — O sr. teve uma passagem pelo Legislativo da capital e lá conviveu com o atual presidente da Câmara de Goiânia, Clécio Alves (PMDB). Que avaliação o sr. faz de sua gestão? Acha que ele tem tido tato político no cargo?
Convivi com o vereador Clécio Alves durante oito anos e o conheço desde 1996, quando disputamos juntos nossa primeira eleição para o cargo, mas nenhum de nós foi eleito. Mas nos últimos oito anos passei a conviver mais proximamente a ele. Por quatro anos fui secretário de Ad­mi­nistração da Prefeitura e, nos últimos quatro, estive com ele diariamente na Câmara. Clécio é um homem extremamente leal, de uma ação parlamentar muito correta e um enorme pela cidade e pela Câmara de Goiânia. Todos nós temos características de temperamento. Há pessoas mais sanguíneas, outras mais fleumáticas, como a psicologia classifica. Mas não quer dizer que minha característica tenha de prevalecer sobre a sua ou que ela seja mais correta ou mais apropriada. O vereador Clécio tem, realmente, um temperamento explosivo. Mas tenho me surpreendido com seu desejo de acertar e com a ciência que ele tem de saber que hoje é o presidente de um Poder. Ele tem aberto mão de ações naturais que faria, no intuito de pacificar o Le­gislativo. Clécio está fazendo um trabalho sensacional, espetacular, na Câmara, tem se mostrado um estadista. Muitas vezes temos de matar nosso próprio eu em benefício dos outros e daquilo que representamos. As informações que recebo são de que ele tem tido um ótimo comportamento como presidente da Câmara. Isso é muito bom para a Casa e muito bom para Goiânia. 
 
Cezar Santos — Dias atrás, Clécio Alves bateu boca com o vereador Djalma Araújo (PT). Esse posicionamento do petista não conturba o ambiente da base aliada ao Paço?
O vereador Djalma tem suas posições que respeito como legislador. No que diz respeito a que essas posições estejam interferindo nas posições partidárias, eu prefiro que o PT mesmo comente.
 
Elder Dias — Qual avaliação o sr. faz dessa certa antecipação do pleito do próximo ano, tanto no âmbito estadual — o governador Marconi Perillo (PSDB) lançou Vilmar Rocha [deputado federal do PSD e atual chefe da Casa Civil] ao Senado — como no cenário nacional? E ainda há mais de um ano e meio até a eleição. As políticas públicas não viram reféns dessa questão, ainda mais com eleições de dois em dois anos? 
Não é a opinião do meu partido, falo agora em meu nome. É uma opinião que tenho e que em obediência partidária posso até votar de forma diferente. O que penso é que deveríamos ter pleitos de cinco em cinco anos, sem direito à reeleição e com a unificação das eleições. Isso tornaria possível uma maior renovação do quadro político, sem que se ficasse “segurando lugar”, porque, o que há é que, por exemplo, hoje o deputado federal se torna candidato a prefeito, mas não larga seu cargo em Brasília. Se tivéssemos eleições de presidente até vereador, cada um teria de escolher um projeto a ser desempenhado naquela função, sem a transformação daquele cargo em uma escada para outros projetos. Se o sujeito quer candidato a prefeito, teria de abrir mão da cadeira de deputado. E se perder, fica sem mandato. Aí não teria como ficar com o lugar que seria de outro. Teríamos uma participação e uma renovação muito maiores na política se não tivéssemos eleições de dois em dois anos. Hoje, a pessoa fica com um pé aqui e o outro lá, com a garantia de voltar ao cargo caso perca. Penso que o ideal seja que tenhamos eleições unificadas de cinco em cinco anos, sem direito a reeleição, com a possibilidade de o candidato escolher para disputar mandato de vereador a presidente da República.   

Fonte: Jornal Opção